NUPES, a geringonça pré-eleitoral em França que divide socialistas

Esquerda francesa alcançou um acordo político em torno de Mélenchon tendo em vista eleições de 12 e 19 de junho.

A esquerda francesa chegou a acordo para concorrer unida às legislativas de 12 e 19 de junho, que a oposição vê como uma terceira volta das presidenciais. O objetivo é travar uma maioria de Emmanuel Macron na Assembleia Nacional. A Nova União Popular Ecológica e Social (NUPES) é uma espécie de geringonça pré-eleitoral liderada pel"A França Insubmissa (LFI), de Jean-Luc Mélenchon, que inclui os ecologistas do EELV, os comunistas e os socialistas. Mas esta aliança ameaça romper o frágil Partido Socialista Francês (PSF).

"Alinhar atrás de Mélenchon é a obliteração final", defendeu o socialista Stéphane Le Foll, presidente da câmara de Mans. O ex-ministro da Agricultura de François Hollande mostrou-se disponível para liderar a campanha dos dissidentes, alegando que o líder da LFI, que foi terceiro na primeira volta das presidenciais com 21,95%, representa a "esquerda do passado" e é preciso construir "a esquerda do futuro". Com a candidatura de Anne Hidalgo, o PSF não foi além do 10.º lugar (1,75%), atrás dos outros partidos da geringonça.

O NUPES começou a desenhar-se logo após as presidenciais, com Mélenchon a apelar aos eleitores para o elegerem "primeiro-ministro". Um cenário que forçaria a "coabitação" entre um presidente e um chefe de governo de forças políticas diferentes pela primeira vez em 20 anos, bloqueando as esperadas reformas de Macron - como o impopular aumento da idade da reforma dos 62 para os 65 anos.

O acordo entre a LFI e o EELV foi confirmado no domingo à noite, com os comunistas na terça-feira e, já ontem, com os socialistas - que tem de ser aprovado pelo conselho nacional, que reúne hoje. E se há duas semanas este votou a favor das negociações, agora não há certezas. Além de Le Foll, outro dos barões socialistas, o ex-primeiro-ministro Bernard Cazeneuve, ameaçou deixar o partido, e o antigo secretário-geral, Jean-Christophe Cambadélis, avisou quanto ao risco de o PSF virar para a esquerda radical, quando o país está a virar à direita, e apelou à rejeição do acordo.

Nas legislativas francesas, os deputados são eleitos por cada uma das 577 circunscrições num sistema a duas voltas, pelo que, na prática, alianças pré-eleitorais dão mais hipóteses de vitória, ao retirar opositores. Ao abrigo do acordo, os ecologistas vão concorrer sem adversários à esquerda em 100 circunscrições (não têm deputados), os socialistas em 70 (tem atualmente 25 deputados), os comunistas em 50 (têm dez) e os restantes terão candidatos da LFI (têm 17).

Para o deputado da LFI, Adrien Quatennens, este é um "acordo global, estratégico, programático, histórico". Entre os objetivos encontra-se o aumento do salário mínimo para os 1400 euros, o direito à reforma aos 60 anos, a revogação da Lei do Trabalho aprovada por Hollande e "o fim da monarquia presidencial com a VI República".

No plano da política europeia, com LFI e PSF em campos opostos, o acordo admite possíveis "tensões" e "contradições", mas diz que o governo não defenderá nem a saída da União Europeia nem do euro. Mas apostará numa reorientação das políticas e dos tratados incompatíveis com a ambição social e ecológica. Quanto à guerra e "face às atrocidades decididas por Vladimir Putin", o acordo defende a soberania e liberdade da Ucrânia e a integridade territorial de todos os países.

O acordo à esquerda contrasta com divisões e lutas por poder no campo de Macron, com o aparecimento de vários movimentos ao centro e à direita. Na extrema-direita, Éric Zemmour diz estar tentado a candidatar-se e apela a uma aliança com Marine Le Pen.

susana.f.salvador@dn.pt

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