No duelo entre Bolsonaro e Lula quem ganhou foi Simone Tebet

Sondagem do instituto Datafolha com indecisos e maioria dos analistas dão a senadora como vencedora do primeiro debate das presidenciais. Lula jogou pelo empate. Bolsonaro foi o pior.

A senadora Simone Tebet foi apontada por pesquisas de opinião e pela maioria dos analistas como vencedora do primeiro debate presidencial no Brasil em que as duas principais atrações eram o antigo presidente Lula da Silva, líder das sondagens, que desiludiu, e o atual chefe de estado, Jair Bolsonaro, em segundo nas intenções de voto, considerado o pior da noite.

O momento do debate em que Jair Bolsonaro chamou uma jornalista da TV Cultura de "vergonha" e foi interpelado por Simone Tebet, a quem também atacou nos mesmos termos, foi considerado o instante chave para aquela percepção.

Segundo sondagem do Instituto Datafolha com 64 eleitores indecisos separados em três salas virtuais, Tebet, candidata pelo MDB, de Michel Temer, foi a mais bem avaliada, enquanto Bolsonaro, do PL, foi considerado o presidenciável com o pior desempenho no debate promovido por um grupo de veículos de informação brasileiros e exibido na TV Bandeirantes na madrugada de segunda-feira (dia 29 de agosto).

Em segundo lugar, de acordo com a pesquisa, ficou Ciro Gomes, do PDT, com pouco mais de metade do percentual de Tebet. Lula, do PT, com menos da metade do resultado negativo de Bolsonaro, foi o penúltimo. Felipe D"Ávila (Novo) e Soraya Thronicke (União Brasil) quase não foram citados.

Os comentadores espalhados pelos principais jornais do Brasil concordaram, na maioria, com a análise dos indecisos. "Tebet e Soraya roubam a cena no primeiro debate na TV com Lula e Bolsonaro fora de foco", escreveu Eliane Cantanhêde, no jornal O Estado de S. Paulo.

Para Igor Gielow, do jornal Folha de S. Paulo, "Lula fixou-se em falar do passado, o que seria algo natural para quem passou oito anos no poder mas assim perde a oportunidade de buscar os pontos que lhe faltam para uma vitória na primeira volta, a serem pescados apenas no lago dos eleitores centristas". Diz o articulista que Bolsonaro "poderia cantar uma vitória por pontos se não tivesse sido ele mesmo, agredindo verbalmente uma jornalista e sendo rude com as duas candidatas mulheres presentes, ele já enfrenta dificuldades no maioritário eleitorado feminino, e sua posição será cobrada".

O editorial do jornal digital Poder360 sentiu que Lula e Bolsonaro se quiseram preservar. "Na defensiva, não detalharam propostas de governo. Focaram em exaltar suas gestões. Também se privaram de fazer referências mais contundentes à religião - tema que é recorrente em discursos de ambos e alvo de disputa por eleitores, especialmente os evangélicos".

"Bolsonaro não fez nenhum apelo mais suave para o eleitorado que ainda não vota nele. Da mesma forma, Lula tampouco falou de maneira clara para uma parte da população que o rejeita por considerar suas posições muito extremadas e de esquerda", escreve o jornal.

"O presidente chamou o petista de ex-presidiário, mentiroso e apoiante de ditaduras. Também acabou não resistindo a uma pergunta mais ácida (em que ele foi apontado como difusor de notícias erradas sobre vacinas) e criticou uma mulher, a jornalista Vera Magalhães. O presidente é acusado de misoginia e isso não o ajuda".

Segundo a coluna de bastidores de Lauro Jardim, no jornal O Globo, a própria campanha de Bolsonaro admitiu que "a grosseria à jornalista foi o pior momento no debate". Miriam Leitão, do mesmo jornal, acentuou que "a misoginia de Bolsonaro o fez perder o debate".

Segundo a última pesquisa Datafolha, divulgada já neste mês, Lula lidera com 47% das intenções de voto, contra 32% de Bolsonaro, 7% de Ciro Gomes e 2% de Simone Tebet. Thronicke e D"Ávila, outros dos participantes no debate não chegam a um ponto.

Os staffs

Entre os staffs de campanha, integrantes do núcleo duro de Bolsonaro admitiram à imprensa que o presidente errou ao atacar as mulheres mas avaliam que as declarações terão pouco impacto eleitoral. E Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil do atual presidente, viu o seu candidato como vencedor e Lula como derrotado. "Ficou nu diante do Brasil, vimos finalmente o verdadeiro Lula: diante de si mesmo, o espelho despedaçou".

Os apoiantes do antigo presidente destacaram, pela positiva, o equilíbrio do candidato ao longo do debate mas admitiram que faltou atacar Bolsonaro pelo escândalo de corrupção no ministério da Educação envolvendo pastores evangélicos. Para o candidato a vice-presidente Geraldo Alckmin, foi Bolsonaro quem saiu derrotado. "Acho que se perdeu totalmente. Muito autoritário. Dizer que mulher quer se vitimizar... para se ter uma ideia, mulher só pôde votar no Brasil na eleição de 1934", disse, logo após o fim do debate.

O mercado

No mercado de capitais, elogios para Ciro. "O grande destaque da noite foi a baixa performance do ex-presidente Lula e a boa performance do Ciro Gomes", disse Vitor Miziara, sócio da Criteria Investimentos e colunista do E-Investidor. "Considerando que os dois têm uma agenda voltada para ideias de esquerda, podemos ver alguns votos migrando de Lula para Ciro".

Álvaro Bandeira, economista e consultor financeiro, notou que "Lula foi paz e amor ao longo das suas exposições e ficou fora de sintonia, enquanto Bolsonaro foi agredido e agressivo ao extremo, ambos fizeram trampolim nas perguntas para exposições que não foram perguntadas, as declarações eram quase exclusivamente de passado e nada de futuro".

"Ciro Gomes, muito experiente, foi provavelmente o melhor juntamente com a candidata Simone Tebet. Ela passou muita seriedade nas suas declarações. Tanto a candidata, quanto Ciro, surpreenderam positivamente, enquanto os polarizados surpreenderam negativamente", concluiu.

dnot@dn.pt

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