Negociações de comércio entre EUA e Taiwan para evitar pressão da China

Pequim é o principal parceiro comercial da ilha, que pode ficar vulnerável a uma eventual coerção económica do gigante asiático.

No ano passado, 42% das exportações de Taiwan tiveram como destino a China e Hong Kong, o que deixa a ilha vulnerável a uma potencial coerção comercial e económica da parte de Pequim. Uma situação que, à medida que a tensão aumenta na região, as autoridades taiwanesas querem evitar, tendo chegado a acordo com os EUA (destino de 14% das suas exportações em 2021) para dar início no outono a negociações comerciais ao abrigo de uma iniciativa apresentada já em junho.

A coerção comercial é um trunfo que a China tem por hábito usar. No ano passado, depois de a Lituânia sair de um acordo regional de cooperação com Pequim, os chineses começaram a colocar entraves às importações de produtos lituanos, com a situação a piorar e a transformar-se num embargo total e pressão sobre outros parceiros após Vilnius ter autorizado a abertura de um escritório de Taiwan.

No início do mês, após a presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, ter visitado a ilha, Pequim bloqueou as importações de citrinos taiwaneses e outros alimentos. Mas estes representam apenas 0,5% das exportações para a China - apesar de afetarem produtos de zonas rurais onde a presidente Tsai Ing-wen tem grande apoio. Pequim não mexeu nos chips de alta qualidade - a ilha é responsável por 90% da produção mundial - que estão hoje em todos os produtos eletrónicos, muitos deles fabricados na China.

Taiwan espera que as negociações com os EUA possam, um dia, resultar num acordo de livre comércio, mas para já irá procurar o aprofundamento das relações económicas e tecnológicas. Ao mesmo tempo, as relações entre Washington e Pequim estão no seu nível mais baixo em anos, tendo a visita de Pelosi - a mais alta representante norte-americana a viajar para a ilha em 25 anos - agravado a situação. Em resposta, a China lançou os maiores exercícios militares com fogo real em redor de Taiwan, que respondeu com as suas próprias demonstrações de força, e mantém-se o clima de tensão na região.

Avisos de Pequim

Em relação ao anúncio das negociações ao abrigo da Iniciativa EUA-Taiwan sobre o Comércio do Século XXI, Pequim já deixou claro o seu desagrado, pedindo a Washington que se "abstenha de assinar acordos" com Taipé. A China vê a ilha como uma província rebelde e considera que estas negociações têm "conotações soberanas", sendo um incentivo à independência - só reconhecida por 14 países. "O lado chinês tomará medidas resolutas para garantir a soberania e a integridade territorial e aconselha o lado norte-americano a não julgar mal a situação", disse o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Wang Wenbin.

A política oficial dos EUA, que a Casa Branca reitera em inúmeras ocasiões que não mudou, é de oposição à declaração de independência de Taiwan e à mudança do estatuto da ilha por parte da China através da força. Este é um cenário que Pequim não rejeita, sendo os chineses acusados por Taipé de terem estado a preparar uma invasão com os últimos exercícios militares. Na prática, a política norte-americana é de "ambiguidade estratégica" quanto a uma eventual intervenção em caso de invasão, apesar de apoiar militarmente a ilha - mesmo não tendo relações diplomáticas, só laços informais. Depois de Pelosi, e como tem sido habitual, outros congressistas dos EUA já estiveram em Taiwan.

susana.f.salvador@dn.pt

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