"Não estamos à beira de uma III guerra mundial, nem de uma guerra geral na Europa"

Investigador do Instituto Português de Relações Internacionais, assessor do Instituto de Defesa Nacional e antigo Conselheiro dos Presidentes Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio, Carlos Gaspar acredita que a Rússia "quer pôr fim à Ucrânia como Estado independente", mas não prevê que guerra se alastre a outros territórios. A "garantia de segurança" dos estados da NATO está, sublinha, nas "armas estratégicas nucleares".

Como avalia a relação de forças entre a Rússia e Ucrânia e a Rússia e a NATO?
A balança militar entre a Rússia e a Ucrânia é claramente assimétrica, mesmo sem ter em conta a dimensão nuclear. Nos últimos anos, as forças armadas russas puderam modernizar-se e, apesar dos esforços de profissionalização desde a anexação da Crimeia, as forças armadas ucranianas não têm senão uma capacidade limitada para se opor à superioridade militar da Rússia.

A balança estratégica entre a Rússia e a NATO é definida pelas armas estratégicas nucleares que garantem, na fórmula clássica, uma capacidade assegurada de destruição mútua.

A balança estratégica entre a Rússia e a NATO é definida pelas armas estratégicas nucleares que garantem, na fórmula clássica, uma capacidade assegurada de destruição mútua. É essa a garantia da segurança dos aliados da NATO perante a ressurgência da Rússia como uma potência revisionista, uma garantia que não inclui a Ucrânia, uma vez que esta não é membro da Aliança Atlântica.

Vai ser uma guerra rápida ou devemos esperar que se prolongue e alastre a outros territórios?
É improvável que a guerra se alastre a outros territórios, designadamente aos Estados membros da NATO. Uma agressão da Rússia contra as Repúblicas bálticas, contra a Polónia, a Roménia ou a Bulgária significa uma guerra nuclear. A Rússia é uma potência revisionista, mas não tem tendências suicidas.

Estamos à beira de uma terceira guerra mundial? O que vai contar mais para o evitar?
Não estamos à beira de uma terceira guerra mundial, nem de uma guerra geral na Europa. A capacidade de dissuasão das armas estratégicas nucleares garante a contenção da Rússia e de qualquer potência externa que queira ameaçar a comunidade transatlântica.

A história está a repetir-se e estamos a assistir a uma "reedição" do que aconteceu com a Geórgia em 2008? Quais as diferenças e semelhanças?
Os aliados não quiseram reconhecer as lições da Guerra da Geórgia, nem da anexação da Crimeia, nem da anexação de facto dos territórios do Donbass ocupados pelos separatistas russos.

Putin quer também precipitar a decapitação política do Estado e forçar a mudança de regime político para pôr fim à Ucrânia como um Estado independente

Mas no caso da Ucrânia, a Rússia de Putin parece querer ir mais longe do que reconhecer entidades fantoche e do que destruir as forças armadas, como fez na Geórgia, e quer também precipitar a decapitação política do Estado e forçar a mudança de regime político para pôr fim à Ucrânia como um Estado independente.

Quais são as principais vantagens da Rússia neste momento?
A Rússia tem a vantagem da iniciativa estratégica, apesar dos Estados Unidos terem reduzido essa vantagem quando o Presidente Biden denunciou oportunamente que Putin ia invadir a Ucrânia.

De resto, a Rússia está cada vez mais isolada : a Alemanha travou o Nord Stream II, o Grupo dos 7, a comunidade transatlântica e a comunidade europeia estão unidas e até a própria China se tenta demarcar do aventureirismo de Putin, mesmo quando não condena expressamente a agressão da Rússia contra a Ucrânia.

Como tem crescido o poder militar da Rússia, comparativamente com o dos países NATO?
Desde a Guerra da Geórgia, a Rússia tem aumentado significativamente os seus investimentos na defesa e não só continua a ser a segunda maior potência nuclear, como modernizou as suas capacidades convencionais de forma significativa e desenvolveu novas capacidades importantes, nomeadamente no domínio cibernético.

a Rússia não tem uma capacidade militar comparável à dos Estados Unidos e da NATO, mas tem uma clara superioridade neste domínio crítico na comparação com a China, que é a principal ameaça à sua segurança estratégica no médio prazo.

Não obstante, a Rússia não tem uma capacidade militar comparável à dos Estados Unidos e da NATO, mas tem uma clara superioridade neste domínio crítico na comparação com a China, que é a principal ameaça à sua segurança estratégica no médio prazo.

Que repercussões podemos esperar em Portugal? Há quem fale de ciberataques em massa... A Rússia teria interesse em fazê-lo em Portugal?
Portugal é um Estado membro da NATO e da União Europeia e, nesse quadro, é um alvo das estratégias ofensivas da Rússia, como todos os restantes aliados e parceiros.

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