“Neste contexto em que vivemos, deste descalabro” em termos mundiais, o Papa Francisco era, independentemente de se ser católico ou não, o único garante de estabilidade que tínhamos atualmente em termos de grandes ideias daquilo que define o Ociedente e a Europa”. As palavras são de Paulo Mendes Pinto, especialista em História das Religiões e professor universitário. Ao Diário de Notícias, explica que isto acontece “por duas razões”:“Porque estava em sintonia com essas ideias de liberdade, humaninsmo, respeito pelos mais frágeis, sejam seles quem forem – as vítimas de guerra, os migrantes – e também porque a posição dele lhe permitia essa liberdade de, no fundo, dizer e intervir sobre o que queria e quando queria e sem pensar quais seriam as implicações que teria – não tinha de estar preocupado sobre se o senhor Donald Trump lhe ia aplicar tarifas”, sublinha.“A sua posição de líder esprtitual permitia esta liberdade de criticar agarrado fundamentalmente aos valores e não à estatégia momentânea que pudesse interessar ao país – porque ele também era líder de um Estado – ou ao bloco. E, nesse sentido, era um grande bastião, uma caixa de ressonância do mundo ocidental. Não no sentido lato, mas no sentido de garante de valores que são fundamentalmente éticos”.Aliás, realça o especialista, a característica diferenciadora de Francisco era o facto de ele, muitas vezes se afastar do pensamento maioritário europeu em algumas questões religiosas, mas conseguir que as pessoas relegassem isso para segundo plano porque “unia católicos, protestantes e agnósticos graças a esse olhar constantemente crítico em relação aos valores europeus”.Quem é que ocupa esse lugar neste momento? “Ninguém. Quem tem coragem de dizer a Donald Trump que o que faz não é de uma pessoa cristã? Ninguém. Fica este vazio muito grande que eu não sei se será ocupado ou não”, continua Paulo Mendes Pinto. .Fica este vazio muito grande que eu não sei se será ocupado ou nãoPaulo Mendes Pinto.Questionado sobre o Conclave que se avizinha, o professor universitário acredita que “vai ser um conclave muito complexo, o que não quer dizer que seja longo. Os cardeais vão reunir-se em Roma com grande antecedência. Há as conferências que têm lugar antes, nas congregações, e pode haver um um trabalho muito grande ao nível da escolha do nome, antes. Atá pode ser que o Conclave em si seja rápido”. Mas o fundamental, acredita o especialista, “está no facto de os cardeais da Igreja Católica definirem se vão continuar a mesma linha” de Francisco, “que não é necessariamente reformadora – acho que se tem usado de forma abusiva essa palavra relativamente ao pontificado de Francisco. Em questões mais fraturantes – celibato, ordenação das mulheres, não aconteceu nada”, recorda. “Ele foi conservador a la carte. Mas no acolhimento ao outro, no passar a gestão da Igreja para as bases, com o Sínodo, por exemplo, foi...muitas vezes fala-se dele como reformdor, mas a palavra não é a mais correta”, continua. Terá sido, portanto, corajoso, mas não reformador.“Mas temos setores dentro da Igreja Católica, que não são pequenos, que acham que Francisco colocou a Igreja em risco. Para além das fações mirabolantes que acham que ele era o anti-Cristo”, recorda.Portanto, a questão agora é que linha vai a Igreja seguir. “Saem frequentemente listas de papáveis – e o cardeal Tolentino é frequentemente integrado nelas e com razão, mas estamos longe de poder dizer que está reduzido o círculo dos papáveis”, considera.A Igreja está num momento muito fraturante e uma das coisas fundametnais do Papa Francisco foi conseguir reposicionar em termos de Pol]itica Internacional a Igreja Católica. Não com a dimensão que francisco queria – com a questão da Ucrânia tentou um protagonismo que não conseguiu ter – mas o Vaticano voltou a ser um player importante na estratégia internacional. Conseguiu alimentar amores e simpatias muito para além da Igreja Católica”, sublinha.“Quem vier a seguir, terá de ter – ou não! - esta capacidade de ser um seguidor desta linha de Francisco, de abertura aos outros, ou então vai escolher sentar-se apenas para o seus. Tem de cumprir um perfil altamente complexo e exigente. Não será fácil ser Papa depois de Francisco”, resume Paulo Mendes Pinto.O Papa Francisco faleceu esta manhã, em Roma, e segue-se um período de nove dias de luto, ao qual se sucederá o funeral do Sumo Pontífice. O Conclave terá lugar durante os 15 dias seguintes às exéquias de Francisco..Confidente e amigo. As marcas que o Papa Francisco deixa em Portugal.Do possível nome do consenso ao “Francisco asiático”. Quem são os 'papabili' de que se fala?.Funeral de Francisco será mais simples do que o dos antecessores. Conclave está previsto para daqui a um mês.Do selo do camerlengo ao 'Habemus papam'. Como se escolhe um novo Papa