Mudança de chip para Joe Biden e o japonês Yoshihide Suga

Líder japonês é o primeiro dignitário a ser recebido pelo presidente norte-americano na Casa Branca. É esperada uma mensagem de unidade geopolítica - e também sobre tecnologia.

O primeiro-ministro japonês Yoshihide Suga partiu ontem para Washington, onde será o primeiro dirigente estrangeiro a visitar, que não de forma virtual, o presidente Joe Biden. E deixando em Tóquio assuntos quentes como a incógnita sobre a realização dos Jogos Olímpicos ou a controvérsia sobre o destino da água radioativa de Fukushima. Na Casa Branca vai testemunhar o renovado empenho da aliança de segurança, numa altura em que ambos os países estão preocupados com o crescente poderio da China. E uma das formas de contrabalançar Pequim passa por uma parceria na área tecnológica, com a produção de semicondutores.

"Espero desenvolver uma relação de confiança com o presidente Biden e reforçar ainda mais a aliança Japão-EUA vinculada pelos valores universais da liberdade, democracia, direitos humanos e Estado de direito", disse Suga aos jornalistas, antes da partida. O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão disse por seu turno que Suga espera reafirmar o "forte vínculo" da aliança e discutir um esforço para defender os valores democráticos e contrariar a crescente influência global da China e as suas reivindicações territoriais, dando continuidade à cimeira virtual realizada entre Japão, EUA, Índia e Austrália, o chamado Quad.

Num artigo publicado no Wall Street Journal, Suga reconheceu que o seu país precisa de reformas urgentes ao nível da digitalização dos serviços governamentais, mas também no setor privado. "O meu governo irá acelerar audaciosamente as reformas para se tornar numa nação digital de vanguarda. Anunciei a criação de uma agência digital, reportando diretamente ao primeiro-ministro e servindo como ponto de controlo, que estará em funcionamento no próximo outono", disse.

Ao desígnio de se tornarem "líderes na corrida global para a digitalização", japoneses e norte-americanos querem também ter um papel de protagonistas na cadeia de produção e distribuição de semicondutores, essenciais para os chips que se encontram nos automóveis, computadores portáteis ou telemóveis. A recente escassez dos semicondutores levou a administração Biden a avançar, em fevereiro, com um plano de 50 mil milhões de dólares para acabar com a dependência externa.

"Entusiasmado por trabalhar com os EUA para aperfeiçoar a vantagem competitiva nas tecnologias digitais e emergirmos como líderes na corrida global para a digitalização."
Yoshihide Suga

Da cooperação com Tóquio, avançada pelo Nikkei, poderá ser anunciado o estabelecimento de um centro de investigação no Japão, ao mesmo tempo que Biden pretende ter fábricas em solo dos EUA. Em paralelo, a norte-americana Intel anunciou que vai construir duas fábricas no Arizona e uma das duas empresas que dominam o mercado mundial, a taiwanesa TSMC (sendo a outra a sul-coreana Samsung) também revelou planos para instalar uma fábrica no Arizona e um centro de investigação no Japão, ao encontro das preocupações de Washington em afastar um bem tão sensível de uma ilha que Pequim continua a ameaçar.

Ainda na segunda-feira, o regime comunista enviou para a zona de identificação aérea de Taiwan 25 aviões, na maioria caças, um ato que se repete com frequência mas que nunca envolveu tantos meios. Segundo o que um alto funcionário da administração confidenciou ao Financial Times, Biden teme uma invasão à ilha Formosa.

"Os EUA estão a tentar excluir a China da equação", comenta à CNBC Abishur Prakash, perito em geopolítica. "Estão a tentar redesenhar a forma como a indústria mundial de chips funciona face a uma China em ascensão (...) Trata-se de construir setores críticos - desde a inteligência artificial aos chips - protegidos da geopolítica. E, porque várias nações partilham as preocupações sobre a China, os EUA estão a levar consigo um pedaço do mundo", conclui.

Dilema de Tóquio

A visita acontece num momento em que o Japão está numa encruzilhada em relação à China. É o seu maior parceiro comercial e Tóquio tem tentado melhorar as relações com Pequim nos últimos anos. Por outro lado, partilha das preocupações dos Estados Unidos e de outros países asiáticos no que respeita ao expansionismo chinês, a começar pela disputa das ilhas Senkaku, controladas pelo Japão e pretendidas pela China (e também por Taiwan), e que se estende a Taiwan ao Mar do Sul da China.

No texto do Wall Street Journal, Suga anunciou que o "Japão apresentará estrategicamente iniciativas que protegem o Indo-Pacífico livre e aberto através da colaboração com países com os mesmos interesses". Mas o aliado norte-americano quererá mais do que isso: segundo o Financial Times, que no comunicado conjunto se faça referência a Taiwan. A última vez que tal aconteceu foi em 1969, pela mão de Richard Nixon e de Eisaku Sato. Referências ao desrespeito dos direitos humanos em Hong Kong e Xinjiang também estavam em cima da mesa, mas dificilmente Tóquio se juntará aos EUA na aplicação de sanções. "O Japão precisa de pensar em como será capaz de exercer a mediação entre EUA e China", disse à AFP Kyoji Yanagisawa, presidente do Instituto Internacional de Geopolítica do Japão.

Nos últimos dias, Pequim subiu de tom: primeiro, o chefe da diplomacia Wang Yi advertiu o homólogo nipónico para "não se envolver no chamado confronto entre os países grandes"; e na quarta-feira um funcionário chinês aconselhou os japoneses a beberem a água radioativa (mas tratada) de Fukushima que o governo de Suga anunciou verter no oceano.

cesar.avo@dn.pt

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