Pedro Ferraz dos Reis vivia há mais de dez anos em Moçambique, onde era um executivo conhecido e respeitado, bem integrado na sociedade, e acarinhado pelos mais próximos, garantem ao DN diversas fontes. Na passada segunda-feira, 19 de janeiro, foi encontrado morto numa casa de banho do clássico Hotel Polana, em Maputo, capital daquele país. Tinha ferimentos de arma branca nas costas, apontadas inicialmente como a causa da morte.As primeiras informações que foram tornadas públicas davam conta de que as investigações policiais apontavam para uma tese de homicídio mas, 12 horas depois, chegaram novos dados: o Sernic (Serviço Nacional de Investigação Criminal) teria fechado a investigação, e classificado a morte como suicídio.A rapidez do processo indignou amigos e familiares do banqueiro, que criaram uma petição pública, em Portugal, a pedir a intervenção do Estado Português para o apuramento da verdade dos factos - ao final da tarde desta quinta-feira, reunia mais de seis mil assinaturas. Nesta manhã, no entanto, nova reviravolta: o Sernic garantia afinal que nenhuma investigação foi fechada. “A investigação não foi encerrada, nós não comunicámos que houve encerramento da investigação, ainda decorrem diligências”, disse à Lusa o porta-voz do Sernic, Hilário Lole.“Segundo o relatório médico-legal, assim como as provas encontradas no local, a disposição das mesmas provas, dúvidas não existem de ter sido suicídio. Entretanto, é preciso apurar porque pode ter sido suicídio, mas [o] suicídio, se calhar, pode ter sido provocado. Então, há esses elementos que precisam ser ainda apurados”, acrescentou o porta-voz.Amigos e familiares rejeitam a teoria de suicídio e “não acreditam que ele seria capaz de pôr termo à vida desta forma”. Imagens, entretanto, tornadas públicas - em meios de comunicação social portugueses, uma vez que a imprensa moçambicana tem estado praticamente em silêncio sobre o assunto - mostram o português a comprar aquilo que parece ser veneno para ratos, antes de se dirigir ao Polana. Resíduos de raticida terão sido encontrados na autópsia, ainda que nenhum relatório oficial tenha sido divulgado até ao momento.Em Maputo, a teoria que tem tomado forma junto de pessoas mais ou menos próximas do processo aponta na direção desta última hipótese levantada por Lole, sabe o DN. Isto porque Pedro Correia dos Reis teria passado as últimas semanas a tentar garantir o pagamento de uma dívida, no valor de vários milhões de dólares, contraída por uma das filhas do ex-presidente da República, Filipe Nyusi, junto do BCI. Desconfia-se de que essa pressão não teria agradado particularmente aos visados, e que o desfecho possa estar relacionado com a situação. No entanto, não há qualquer confirmação oficial sobre o assunto.O BCI é detido pela Caixa Geral de Depósitos (61%) e pelo BPI (35,67%). Contactados pelo DN, nem a CGD, nem o BPI quiseram comentar o assunto.” O BPI não fará, de momento, qualquer comentário público adicional às comunicações já divulgadas”, referiu fonte oficial deste último, a cujos quadros pertencia o banqueiro. Pedro Ferraz dos Reis estava ligado ao BPI há mais de 20 anos, tendo ocupado diversos cargos, desde analista a diretor de departamento. Durante o tempo em que viveu em Portugal deu aulas na Universidade Católica e em 2013 acabaria por se mudar para Moçambique, onde integrou a comissão executiva do BCI, um dos principais bancos do país.O DN sabe, também, que até ao momento não foi pedido qualquer tipo de auxílio às autoridades portuguesas, por parte da polícia de Moçambique, para a investigação da morte de Pedro Ferraz dos Reis. Recorde-se que só nesse caso é que as autoridades nacionais podem agir, uma vez que a morte do administrador, ainda que português, ocorreu fora de território nacional. A Embaixada de Portugal em Maputo publicou, entretanto, uma nota de condolências a propósito da morte do banqueiro. “Neste momento de dor, apresentamos as mais sentidas condolências à família, amigos e colegas, partilhando a consternação sentida pela comunidade portuguesa residente em Moçambique”, lê-se no documento.com Valentina Marcelino