O pior dia depois do golpe. Militares matam 38 manifestantes

Número de manifestantes mortos é o maior desde o golpe militar de 1 de fevereiro

O número de manifestantes mortos esta quarta-feira, por tiros disparados pelas forças de segurança para dispersar protestos contra a junta militar em Myanmar, subiu para pelo menos 38, o maior número desde o golpe militar de 1 de fevereiro.

Estes dados, principalmente recolhidos da imprensa local e publicações na rede social Facebook, foram compilados por um profissional das tecnologias de informação em Rangum e inclui os nomes das vítimas, idades, local de nascimento e onde e como foram mortas.

A agência Associated Press noticiou que não foi possível confirmar de fonte independente a maioria das mortes relatadas, mas uma amostra de publicações online correspondeu ao que está incluído na compilação.

Quem reuniu os dados em causa reforçou o pedido para não ser identificado por medo de represálias da junta militar, acrescentando que 18 pessoas foram esta quarta-feira mortas só em Rangum, a antiga capital do país.

As manifestações de repúdio ao golpe militar continuaram esta quarta-feira em todo o país, apesar da brutal repressão policial, que só no domingo custou a vida a 20 manifestantes, a maioria deles devido a tiros disparados pela polícia.

Além de munição real, as autoridades birmanesas reprimiram os protestos desta quarta-feira com gás lacrimogéneo, balas de borracha e granadas de choque.

No entanto, quando a situação acalmou, os manifestantes voltaram às ruas para continuar o protesto.

Os manifestantes exigem que o exército, que governou o país com mão de ferro entre 1962 e 2011, restaure a democracia, reconheça os resultados das eleições de novembro e pedem a libertação de todos os detidos pelos militares, incluindo a líder de facto Aung San Suu Kyi.

Os ministros dos Negócios Estrangeiros das Filipinas, Indonésia, Malásia e Singapura condenaram na terça-feira o uso de força letal pelas autoridades birmanesas para reprimir o movimento pacífico de oposição que surgiu após o golpe militar.

Os ministros, reunidos por videoconferência durante uma sessão informal da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), na qual participou o ministro nomeado pela junta militar birmanesa, Wunna Maung Lwin, exortaram o exército a procurar uma solução de diálogo para a crise política e a libertação dos detidos.

O exército birmanês justificou a tomada do poder por uma alegada fraude eleitoral nas eleições de novembro, onde os observadores internacionais não detetaram qualquer fraude e em que a Liga Nacional pela Democracia, partido liderado por Suu Kyi, foi o vencedor, assim como já tinha ocorrido em 2015.

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A emissária da ONU para Myanmar denunciou que o dia de hoje, com 38 mortes, foi o "mais sangrento" das manifestações contra a Junta Militar no poder na ex-Birmânia e apelou à imposição de sanções "fortes" contra o regime.

Numa videoconferência de imprensa, a diplomata suíça Christine Schraner Burgener apelou aos Estados membros da ONU e ao Conselho de Segurança das Nações Unidas para que aprovem sanções contra a Junta Militar birmanesa, que tomou poder a 01 de fevereiro, para a pressionar pelo regresso ao processo democrático no país, onde as forças do novo regime já provocaram mais de 50 mortes.

"Já há mais de 50 mortes desde o início do golpe de Estado e inúmeros feridos", afirmou Burgener numa ligação direta em vídeo a partir da Suíça, onde reside, com jornalistas acreditados na ONU.

"Creio que os Estados membros devem tomar medidas muito fortes. [...] Tive uma discussão com o Exército [birmanês] e adverti-os de que os Estados membros e o Conselho de Segurança poderão tomar medidas importantes e fortes", acrescentou.

A resposta, segundo a emissária da ONU para Myanmar, foi negativa - "Responderam: 'Estamos habituados às sanções e sobrevivemos a elas no passado'".

A emissária da ONU salientou que mantém contactos com todas as partes em Myanmar, e, evidentemente com os militares, que voltaram a garantir a realização de eleições dentro de um ano.

Questionada sobre as condições impostas pelos militares em relação a uma visita sua a Myanmar, reclamada pela ONU há um mês, Burgener respondeu que lhe disseram que ela era bem-vinda, mas não no atual momento, "porque primeiro têm de resolver problemas" no país.

As forças de segurança birmanesas continuaram hoje a disparar munições reais contra os manifestantes, desafiando novamente o coro de protestos internacionais.

A Junta Militar, segundo escreve a agência noticiosa France-Presse (AFP), "parece mais determinada do que nunca" para conter a contestação desde o derrube do governo civil liderado por Aung San Suu Kyi.

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