Designado embaixador em Portugal em abril, Seyed Majid Tafreshi chegou ao país em julho e, por fim, apresentou em setembro as credenciais ao "Presidente Sousa", como se refere a Marcelo Rebelo de Sousa. Tafreshi tem em comum com o chefe de Estado português a formação académica - ambos doutorados em Direito, o iraniano em Direito Internacional. Vindo da Nova Zelândia, no seu novo posto o diplomata diz ter como objetivo principal o desenvolvimento das relações económicas entre os dois países e, em nome da cooperação económica, assegura que as burocracias são tratadas com a maior brevidade possível. Realça também o facto de a maior parte dos 2 mil iranianos a viver em Portugal serem estudantes, muitos ao nível do doutoramento. A ambição em fazer a diferença está à vista: "Desejo que Portugal seja a base da nossa relação com a União Europeia." Há dias, a ativista Narges Mohammadi, a cumprir pena de dez anos de prisão, foi laureada com o Nobel da Paz. Há 20 anos outra mulher, Shirin Ebadi, recebeu o mesmo prémio. Como é que o regime pode acomodar as pretensões da juventude sem ser pela via repressiva? Qual o papel da mulher no futuro do Irão? Antes de mais, regime não é uma palavra bonita, diga antes governo. Veja, respeito todos os cidadãos iranianos. Primeiro, não se vê qualquer reação dos laureados com o Nobel da Paz, de Obama, e outros, ao problema da Palestina. Como é que uma senhora pode estar na prisão e todos os dias corresponder-se com a comunidade internacional? Ela [Mohammadi] tem acesso à internet, tem acesso ao mundo livre. Depois, mostre-me um Prémio da Paz de alguém que tenha tentado criar alguma coisa na UE. Parece que tudo na UE é ótimo. Sobre as senhoras, o que fizeram vai contra a lei. Se vamos falar de senhoras iranianas, veja quantas medalhas venceram na semana passada nos Jogos Asiáticos. A literacia para as mulheres antes da revolução de 1979 era de 30/35%, agora é de 90/95%. E 60% dos estudantes universitários são mulheres. Como é que pode acusar um país de impedir o desenvolvimento das mulheres e investir tanto na sua educação? Claro que algumas das questões relevam das tradições. Algumas mulheres querem ser donas de casa, não podemos dizer que elas têm de ir trabalhar. Aqueles que apoiam aquelas mulheres [ativistas] estão a introduzir sanções ilegais contra o país. Essas sanções punem toda a população sem discriminação. É claro que as pessoas têm o direito a falar. Todos os dias há manifestações. Se for ao Irão não vai encontrar uma única instituição onde as mulheres estão impedidas de entrar. Claro que há alguma limitação quando vão nadar, devido aos valores islâmicos. Sobre os direitos humanos, não temos 25, temos 25 mil ONG.. O Irão combateu o Estado Islâmico no Iraque e na Síria. No entanto, o Irão é o grande patrocinador de grupos considerados terroristas pela UE, EUA e outros países, como o Hezbollah e o Hamas. Ao fazer um ataque, como o do dia 7, a civis israelitas, inclusive muitos deles a celebrar a paz num festival, em que difere o Hamas do Estado Islâmico? O problema começou há 75 anos e esta crise de identidade prossegue. Precisamos de falar com base na lei internacional. O Hezbollah tem deputados eleitos no parlamento libanês. Como é que o podemos censurar? Seria uma bofetada na cara de centenas de milhares de eleitores que o reconhecem e lhe dão o voto. Sobre o Hamas, é isto que o nosso líder diz: que toda a gente que foi forçada a sair da sua terra que regresse e vote. Não é boa política censurar uma pessoa ou um grupo como terrorista porque está a defender... pergunto: posso ocupar terras e baseado na autodefesa não deixo fazer nada a quem está a lutar pelas terras que são consideradas ocupadas pela UE e estes são terroristas? Precisamos de ver que países são os fornecedores da defesa [de Israel]. Precisam de tensão. O terrorismo não tem fronteiras. Reconhecer um grupo como terrorista e focar apenas nesse tema é uma política falhada. Não conseguimos ver nenhuma manifestação em Gaza contra o Hamas. Israel diz que vai erradicar o Hamas. Não existe tal direito, segundo a convenção de Genebra e nos protocolos adicionais, porque se trata de um grupo e de um Estado. Ao dizer que vai erradicar o Hamas, Israel vai erradicar a população de Gaza. Hamas é Gaza, Hamas é Palestina. A proporcionalidade é muito importante. Como vamos ser bons vizinhos? Qual a necessidade de ter uma bomba atómica? Porque não se junta aos países que assinaram um pacto a favor do Médio Oriente sem armas nucleares, como fez o Irão?.Teerão deixou no ar a hipótese de o conflito na região se expandir caso a ofensiva terrestre de Israel a Gaza se concretizar. O Irão poderá entrar diretamente na guerra, apesar das advertências dos EUA? A política do Irão está sempre centrada na paz e na estabilidade. O Irão tem sempre uma política defensiva. A questão deve ser feita a outros: vão aumentar a tensão? Vão desencadear novas guerras no Médio Oriente? Deu-se um desenvolvimento positivo na região, o Irão e a Arábia Saudita restabeleceram as relações bilaterais. O que procuramos para o Médio Oriente é a paz e a segurança sob qualquer fórmula. Os israelitas têm de compreender que não têm outra opção que não reconhecer a Palestina, reconhecer a nação, e que não pode continuar o abuso de poder..Disse que é a favor de qualquer fórmula de paz. Admite o reconhecimento de Israel por parte do Irão em troca de a Palestina se tornar num país? Para reconhecer Israel temos uma grande linha à nossa frente. É muito claro para nós que o reconhecimento da comunidade internacional depende do reconhecimento dos palestinianos. Se os palestinianos quiserem doar as suas terras, é com eles. Mas nós não podemos falar em nome dos palestinianos. A melhor fórmula de paz é aquela em que os refugiados regressam e participam numa votação, numa votação que não é exclusiva. É a melhor política para se reconhecerem mutuamente. Ao contrário das ações bárbaras a que assistimos, nas quais se força as pessoas a abandonarem o seu país..Como referiu, o Irão e Arábia Saudita estão a retomar relações. Crê que esta crise pode de alguma forma afetar esse progresso? A nossa relação com a Arábia Saudita é muito importante. É como duas asas do mesmo pássaro no Médio Oriente, dois dos países mais poderosos na região. Acreditamos que podemos ter um futuro melhor para a nossa próxima geração e para a economia da região. Queremos livrar-nos de atores externos..Vários países, Ucrânia incluída, acusam o Irão de ter fornecido drones à Rússia, os quais estão a ser usados em ataques contra infraestruturas e civis ucranianos. Em que medida a imagem internacional do Irão é afetada? O Irão e a Rússia têm laços de amizade e cooperação militar baseada na lei internacional. Estão a exagerar, alguns drones foram enviados muito antes pelo nosso ministério. Por que uma superpotência como a Rússia precisa de uns quantos drones? Os europeus devem lembrar-se do que foi o Iraque. Porque é que precisam de uma aliança militar cada vez maior? Putin disse há muitos anos que a Rússia estará com a UE, não dentro da UE. Isto é claro. O assunto é irrelevante. Nós não reconhecemos terras ocupadas. Como podem acusar-nos e depois termos as votações que tivemos na Assembleia Geral da ONU? Volte-se ao erro de cálculo da NATO e que a afetou. Que país da NATO e que não faz parte da UE mais lucrou com estas histórias?.cesar.avo@dn.pt