Quando na primavera de 2025 o presidente dos EUA anunciou que ia impor tarifas, a União Europeia (UE) apressou-se a negociar um acordo comercial, que limitasse os prejuízos a 15% (um acordo que ainda não foi oficialmente ratificado pelo Parlamento Europeu). Mas diante da ameaça de novas tarifas de Donald Trump contra oito países europeus, numa “chantagem” (segundo a Alemanha) para garantir o controlo da Gronelândia, os 27 parecem preparados para dizer “basta”. O presidente francês, Emmanuel Macron, quer mesmo responder com a chamada “bazuca comercial”.“As ameaças tarifárias são inaceitáveis e não têm lugar neste contexto. Os europeus responderão de forma unida e coordenada caso se confirmem. Garantiremos que a soberania europeia é respeitada. É neste espírito que me vou empenhar com os nossos parceiros europeus”, escreveu Macron no X, com a sua equipa a dizer que ele defende a ativação do “instrumento anti-coerção” da UE. O presidente do Conselho Europeu, António Costa, anunciou uma reunião extraordinária dos líderes dos 27 nos “próximos dias”.Apelidado de “bazuca comercial” ou “arma nuclear económica”, este instrumento foi criado em 2023 para combater as ameaças económicas e as restrições comerciais desleais de países terceiros. Segundo o regulamento, a coerção económica ocorre quando um país terceiro tenta pressionar a UE ou um Estado-membro a fazer uma escolha específica, aplicando ou ameaçando aplicar medidas comerciais ou de investimento. Na altura, o alvo era a China, que estava a ameaçar a Lituânia, após uma melhoria das relações deste país com Taiwan. Mas este instrumento dissuasor não chegou a ser aplicado, voltando a ser falado na primavera de 2025, em resposta às tarifas anunciadas pela Casa Branca. Mais uma vez, não foi aplicado, para grande descontentamento de alguns eurodeputados, que alertaram para o fraco efeito dissuasor de uma medida que nunca chega a ser posta em prática.Entre as medidas do instrumento anti-coerção que podem ser tomadas estão, por exemplo, restrições ao comércio de bens e serviços, aos direitos de propriedade intelectual e ao investimento direto estrangeiro. Também podem ser impostas restrições ao acesso ao mercado de contratos públicos da UE, ao mercado de capitais e à autorização de produtos ao abrigo de regras químicas e sanitárias.Oito alvos de TrumpTrump anunciou no sábado (17 de janeiro) que vai impor, a partir de 1 de fevereiro, uma tarifa de 10% sobre os produtos de oito países europeus que enviaram militares para a Gronelândia por estes dias - Alemanha, Finlândia, França, Noruega, Países Baixos, Reino Unido e Suécia, além da própria Dinamarca. E avisou que essa tarifa subirá para 25% em junho, mantendo-se em vigor até que haja um acordo “para a compra total e completa da Gronelândia” por parte de Washington. Os oito países responderam este domingo (18 de janeiro), reiterando a sua união, ainda antes de uma reunião de emergência dos embaixadores dos 27 para avaliar uma resposta conjunta. “As ameaças tarifárias estão a prejudicar as relações transatlânticas e correm o risco de desencadear uma perigosa espiral descendente. Continuaremos unidos e coordenados na nossa resposta. Estamos determinados a defender a nossa soberania”, indicaram, reiterando a solidariedade para com a Dinamarca e o povo da Gronelândia. E defendem um diálogo “baseado nos princípios da soberania e da integridade territorial com os quais estamos firmemente comprometidos”, acrescentaram. Os oito países lembraram ainda que empenhados em reforçar a segurança do Ártico e que “o exercício dinamarquês Arctic Endurance, previamente coordenado e realizado com os Aliados, responde a esta necessidade. Não representa qualquer ameaça para ninguém”, acrescentaram. Na mensagem de sábado, Trump alegava que os exercícios militares com “fins desconhecidos” representavam “uma situação muito perigosa”, alegando que era “imperativo” tomar medidas “para proteger a paz e a segurança globais”. O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, falou entretanto com o presidente norte-americano. “Conversei com Trump sobre a situação de segurança na Gronelândia e no Ártico. Continuaremos a trabalhar nisso e espero vê-lo em Davos ainda esta semana”, escreveu no X, referindo-se ao Fórum Económico Mundial que começa esta segunda-feira (19 de janeiro)..Trump regressa a Davos numa edição que vai apelar à necessidade urgente de diálogo.Quem também falou com Trump foi a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, que disse “não concordar” com a imposição de tarifas a países da NATO que estão a contribuir para a segurança da Gronelândia. O líder do governo britânico, Keir Starmer, foi outro dos que disse a Trump que a aplicação de tarifas aos aliados era “errada”. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, que regressava de uma visita a Washington quando Trump anunciou novas tarifas, descreveu a decisão do presidente norte-americano contra os aliados como “paradoxal”, sublinhando que o exercício militar demonstrou o compromisso dos países europeus com a segurança nacional. “Não tenho dúvidas de que existe um forte apoio europeu e que esse apoio é generoso”, afirmou Lars Løkke Rasmussen. “Temos uma força impressionante quando unimos esforços coletivos e solidários”, referiu.Os europeus mostraram-se unidos na condenação à ameaça de tarifas da parte de Trump. “As tarifas prejudicariam as relações transatlânticas e poderiam desencadear uma perigosa espiral descendente. A Europa manter-se-á unida, coordenada e empenhada em defender a sua soberania”, indicaram num comunicado conjunto a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa. Mas não é claro se todos querem avançar para a “bazuca comercial”, como defende Macron.