Faltam 15 meses para Emmanuel Macron sair do Palácio do Eliseu. Tempo para o presidente francês deixar a sua marca ou sair de cena diminuído e derrotado? Os franceses conheceram recentemente quatro primeiros-ministros num período temporal mais curto. Com o seu partido desprovido de maioria parlamentar, com um governo centrado em sobreviver à próxima crise, Macron estará tentado em manter-se uma voz ativa na política externa. Foi assim nos últimos tempos, o que lhe rendeu uma tímida melhoria nos níveis de popularidade. Mas, pelo menos no que respeita à Europa, o francês não terá uma tarefa facilitada, a avaliar pela forma como a sua clivagem se acentuou face ao novo par que emerge em alternativa ao avariado motor franco-alemão: Friedrich Merz e Giorgia Meloni.A mais recente prova das tensões entre Paris e Roma e Paris e Berlim deu-se na quinta-feira. A primeira-ministra italiana publicou uma mensagem nas redes sociais sobre o linchamento do militante de extrema-direita Quentin Deranque, na qual disse que a morte do jovem em Lyon era "uma ferida para toda a Europa", em resultado de "agressões de grupos ligados ao extremismo de esquerda" e de um "clima de ódio ideológico"..P&R: O linchamento que deixou a França Insubmissa em maus lençóis.Horas depois, em plena visita à Índia, e depois de dizer que os partidos políticos tinham de pôr a casa em ordem, em referência a ligações com grupos extremistas de ambos os polos do sistema, Emmanuel Macron não resistiu a comentar a publicação de Meloni: "Fico sempre impressionado ao ver que as pessoas nacionalistas, que não querem ser incomodadas em casa, são sempre as primeiras a comentar o que se passa nos outros lugares. Que cada um fique em sua casa e os rebanhos ficarão bem cuidados."Ao que o ministro dos Negócios Estrangeiros italiano Antonio Tajani replicou, explicando que "condenar atos como o de Lyon" serve para "evitar que a Itália volte a um passado tão terrível". Grupos de extrema-direita e de extrema-esquerda recorreram à violência e ao terrorismo entre o final dos anos 60 e meados dos anos 80. Também Meloni não se ficou: "Francamente, fiquei muito surpreendida com esta declaração. Lamento que Macron tenha percebido isto como uma interferência. Interferência é outra coisa, por exemplo, quando um líder é eleito pelos seus cidadãos e um país estrangeiro diz que irá monitorizar o Estado de direito", afirmou ao microfone da estação Sky. Uma flecha disparada para Paris: em 2022, a então ministra dos Assuntos Europeus Laurence Boone disse que o governo francês iria estar atento ao Estado de direito em Itália em resultado da vitória eleitoral de Meloni, cujo passado político e o do seu partido estão ligados ao chamado "pós-fascismo".Esta manifestação de desagrado de Macron não é alheia ao momento político europeu. Há um ano, quando o democrata-cristão Friedrich Merz iniciou funções como chanceler alemão, uma das suas prioridades era reparar as relações com o vizinho francês, que considerou "arruinadas por Olaf Scholz", o seu antecessor. As intenções não passaram disso mesmo. A França passou a ser vista em Berlim como a Itália de outros tempos, marcada pela instabilidade política, sucessão de governos, contas públicas no vermelho e reformas adiadas. Desinteligências em catadupaAo que se seguiram desentendimentos nos mais diversos campos. Nas relações externas, a Alemanha mantém-se aliada de Israel e Merz não quer ouvir falar de uma Palestina soberana, enquanto Macron foi protagonista de uma iniciativa diplomática na ONU pelo reconhecimento daquele território. Na guerra da Ucrânia, o alemão defendeu a utilização dos fundos russos congelados, mas Macron juntou-se ao primeiro-ministro belga De Wever e bloqueou tal hipótese. Na UE, Macron e Merz estiveram ruidosamente em campos opostos sobre o acordo de livre comércio com o Mercosul, tendo o francês perdido a batalha. Pouco preocupado com as alterações climáticas, o chanceler fez pressão para anular a proibição da venda de automóveis com motores de combustão a partir de 2035. Não recebeu o apoio francês, mas teve sucesso junto da Comissão Europeia.Sobre as relações com os EUA, Macron mostrou iniciativa ao responder às ameaças de Donald Trump sobre a Gronelândia com o rápido envio de tropas para a ilha. E advertiu Washington que a UE pode responder com o instrumento anticoerção, uma ferramenta comercial que poderia deixar as empresas norte-americanas fora do mercado comum. Mas Merz, um atlanticista convicto, apelou para negociações e para a desescalada, em sintonia com Meloni, a líder europeia que mantém as relações mais estreitas com Trump. Na mesma altura em que o francês e o alemão mais uma vez se mostravam em desacordo, Merz e Meloni assinaram um acordo de parceria para acionar reformas na Europa com o objetivo de reduzir as regulamentações e tornar as economias mais competitivas.De então para cá, as relações entre o Eliseu e o novo motor europeu mostraram estar em divergência. Macron propôs a emissão de dívida conjunta europeia para investimento em setores cruciais, e em resposta o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão Johann Wadephul recomendou aos franceses cortes no setor social. Com a Comissão a querer avançar com regras para que o financiamento de empresas em setores essenciais esteja condicionado à produção na Europa, Macron propôs a ideia de um "Made in Europe", ao que Merz prefere a distinção "Made with Europe", isto é, feito com a participação de empresas europeias. E, por fim, mas não menos importante: o desentendimento que se adivinhava há meses sobre o projeto de construção de um novo avião de caça, um consórcio que incluía a Alemanha, Espanha e França e as empresas Airbus e Dassault, não deverá sair do papel. Na Índia, Macron disse que os europeus precisam de um modelo comum para o avião de combate do futuro, em contradição com as palavras de Merz. Dias antes, o democrata-cristão afirmou que as necessidades francesas, devido à sua capacidade nuclear, são distintas das alemãs. “Isto não é uma disputa política. Temos um problema real no perfil de requisitos. E se não conseguirmos resolver isso, então não podemos manter o projeto."