Um deputado caído no chão, outro atingido com um soco, empurrões, gritos e ameaças levaram à suspensão da sessão de dia 26 de fevereiro da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre um escândalo de fraudes milionárias na Segurança Social do Brasil. De um lado da trincheira, parlamentares aliados do governo, do outro, a oposição. Em causa, a quebra do sigilo bancário de Fábio Luís Lula da Silva, o filho do presidente Lula da Silva conhecido como Lulinha, no âmbito das investigações sobre o escândalo.A cena de luta de bar em pleno Congresso Nacional explica a relevância política do que se discutia: Lulinha, empresário de 51 anos, pode ter ligação a Antônio Antunes, epicentro do escândalo chamado pela imprensa de “Farra do INSS”, numa alusão à sigla da Segurança Social brasileira, que consistiu no desvio de mais de mil milhões de euros de reformas e pensões para empresas de fachada, entre 2019, ainda sob a presidência de Jair Bolsonaro, e 2024, já no governo Lula. Lulinha, empresário de profissão, que cultiva a discrição há mais de 20 anos, apesar de ter sido citado nos primeiros governos do pai como destinatário de um financiamento suspeito de uma operadora telefónica e de ser alvo de dezenas de teorias da conspiração online, como a alegada posse de um Ferrari em ouro, pode ter sido o destinatário de transferências de 1,5 milhões de reais, cerca de 250 mil euros, feitas por Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, suspeita a Polícia Federal (PF). .Careca, que está na prisão, fez essas transferências para uma empresa de Roberta Luchsinger, muito próxima de Lulinha, com a menção “para o filho do rapaz”, segundo mensagens apreendidas pela PF, cujos investigadores acreditam ser uma referência ao filho de Lula.Porém, os pagamentos do Careca a Lulinha via Luchsinger, de acordo com o depoimento de uma testemunha, não estão relacionados às fraudes das pensões. Careca queria que Lulinha fizesse lóbi por uma empresa dele, a World Cannabis, baseada em medicamentos de canabidiol, junto ao Ministério da Saúde.Uma reportagem do jornal O Estado de S. Paulo noticiou que Lulinha admitiu a amigos que Careca lhe pagou o bilhete de um voo em classe executiva, a 8 de novembro de 2024, com partida de Guarulhos e destino a Portugal, para apresentá-lo a uma fábrica de cannabis medicinal na região de Aveiro. Mas nega ter recebido aqueles depósitos de cerca de 250 mil euros. Noutros trechos das mensagens que a PF tem em mãos e que a imprensa citou, Careca e Lulinha trataram também da aquisição de um armazém, ainda em Aveiro, no valor de 2,7 milhões de euros. Entretanto, o que levou à briga - literal - entre políticos naquela sessão da CPMI foi a decisão de André Mendonça, juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) nomeado por Bolsonaro, de autorizar a quebra do sigilo de Lulinha. As agressões aconteceram logo após a votação para o acolhimento ou não dessa decisão judicial - para os deputados governistas a contagem, muito rápida, dos votos por mão no ar foi fraudada por ter somado sete em vez de 14. “A votação foi legítima”, argumentou o senador Carlos Viana (Podemos), presidente da CPMI e membro da oposição. No entanto, para o senador Randolfe Rodrigues, do PT, de Lula, “a CPMI acabou, começou a eleição”, resumindo a opinião do Palácio do Planalto de que a comissão abandonou o papel de investigadora técnica para se converter em ferramenta de campanha política.David Alcolumbre, presidente do Senado e do Congresso, do União Brasil, teria poder para anular a quebra de sigilo de Lulinha. Mas optou, no último dia 3, por manter a decisão do presidente da CPMI, para irritação do governo, de quem supostamente é aliado. “A decisão violou os nossos votos, será que numa próxima votação os nossos votos serão respeitados?”, queixou-se o deputado Alencar Santana, do PT.Lula, que já disse que se filho tiver “alguma coisa” no escândalo “vai pagar o preço”, acompanha o caso a par e passo. Segundo o colunista Igor Gadelha, do jornal Metrópoles, o presidente já conversou por telefone com o filho, que mora em Espanha, e orientou-o a prestar esclarecimentos e até a depor, se lhe for pedido. O presidente, entretanto, acredita que o juiz Mendonça, embora indicado por Bolsonaro para o STF, “não fará nenhuma sacanagem”, cita a coluna.Mas, segundo o blogue de Andréa Sadi, publicado no portal G1, o cenário de “blindagem tácita” que imperava em Brasília - um acordo informal de não agressão entre o governo Lula e a família Bolsonaro para evitar incómodos na CPMI em ano de eleições - ruiu de vez. “A CPMI do INSS, que até há pouco tempo era vista como uma investigação fadada ao esvaziamento, ganhou um fôlego explosivo e tornou-se o epicentro da antecipação da disputa eleitoral de 2026”.No jornal Folha de S. Paulo, o colunista Elio Gaspari chama mesmo Lulinha de “personagem radioativo”. “Os desdobramentos da fraude no INSS podem impactar diretamente na eleição de outubro, influenciando a corrida presidencial”..Megafazendas, jatos e ações de empresas: os mil boatos que pesam sobre Lulinha