Visitou Fátima há dias. O santuário resistiu bem à tempestade? Os peregrinos, sobretudo para o 13 de Maio, poderão ir a Fátima como é tradição?Sim, perfeitamente. Estive lá. Na terça-feira da outra semana e no sábado passado. Venham os peregrinos, sem qualquer problema.Pergunto sobre o santuário porque o Papa Paulo VI esteve aqui para o 50.º aniversário das aparições de 1917. Francisco esteve cá para o 100.º aniversário. E voltou depois a Portugal. Também João Paulo II e Bento XVI visitaram Portugal. Está nos planos de Leão XIV uma visita?Ele já falou disso, numa resposta aos jornalistas. Não recordo se foi no avião ou ao sair de Castel Gandolfo. Referiu Fátima. E eu falei com ele. Fomos colegas de curso. E disse-me: “vou”. Quando? A agenda papal é complicada, mas disse-me que entre os lugares que irá visitar está Fátima.Está a dizer que Leão XIV confirmou-lhe que tinha essa intenção?Sim. Quando? Não sei. Mas virá.Tem uma longa carreira como diplomata da Santa Sé. Foi nomeado núncio por João Paulo II, foi nomeado por Bento XVI, foi nomeado por...Francisco.E agora, por Leão XIV. Robert Prevost foi seu colega de curso. Tratam-se por tu. Qual é a sua relação com o papa?É a relação entre dois jovens que estudaram juntos. Era meu colega no curso de Direito, em Roma. Sempre nos demos muito bem. Numa turma, algumas pessoas são nossas amigas mais próximas do que outras. Ele era uma delas. Entre as pessoas com quem me relacionei, fiz uma bonita amizade com algumas. Mantivemos esta relação ao longo de todas estas décadas. Desde 1982.Manteve sempre contacto com o futuro papa?Também quando foi superior-geral dos agostinianos. Dois mandatos de seis anos. Encontrei-o em Roma, e no Panamá, onde eu era núncio. Encontrei-o em Espanha. Uma vez, quando éramos ainda estudantes, fizemos uma excursão de alguns dias com alguns amigos.Quando se encontram conversam em espanhol?Sim, agora sim. Naquela época, em italiano.Leão XIV só fará um ano como papa a 8 de maio. É um continuador de Francisco ou vai pôr a sua marca na Igreja?Vai pôr em prática algumas das intuições geniais do papa Francisco. Ideias que nem o papa Francisco, dada a sua personalidade, punha tanto em prática. Por exemplo, a sinodalidade. O papa Leão XIV tem uma grande capacidade de escutar. O papa Francisco podia, de repente, lembrar-se de algo numa manhã e dizer: “vou fazer isto”. Sem consultar ninguém. Mas era o carácter dele, que tinha genialidades. Este papa vai pôr essas coisas em prática. O caráter dele vai certamente ajudar.Leão XIV tem um espírito mais prático?É um homem que sabe ouvir. Não toma decisões sem consultar e ouvir atentamente. Depois tem capacidade de decisão.Vi uma notícia recente de que o Banco do Vaticano criou um índice ético para os investimentos. Precisamente para evitar escândalos. Já é uma marca do carácter prático de Leão XIV?Já existia. O que fizeram agora foi um acordo com uma superpotência dessa área para os aconselhar. Uma empresa americana especializada.Mas é uma preocupação do Vaticano esta ideia da ética?Sim. Mas sempre teve.Esta preocupação com a ética e a transparência por parte da Igreja Católica vai ser um desafio para si noutro campo. Quando começar a contactar com as dioceses, com a realidade da Igreja, falarão certamente do escândalo dos abusos sexuais, que aconteceram em Portugal, como noutros países. Teve de lidar com este tema no Equador, o anterior posto como núncio?Sempre o fiz. Em alguns países, fui o primeiro a abordar esta situação. Não é um problema novo para mim. Mas penso que a Igreja em Portugal tem dado grandes passos. Coisa que a sociedade portuguesa não tem feito. Nomeiem-me uma única instituição neste país que tenha feito sequer um décimo do esforço para abordar estas questões. Para demonstrar preocupação com as vítimas. Todas elas. Preocupamo-nos com as vítimas. Foi divulgado há alguns dias que o plano era encerrar todos estes processos de compensação até 2025. Mesmo nos casos que já prescreveram. A pessoa morreu. Mas a vítima falou e vai ter uma compensação. A questão principal foi não ter terminado dentro do prazo estipulado. Mas ninguém referiu que, muitas vezes, a pessoa foi chamada oito ou dez vezes e não apareceu. Isso está a acontecer. E está a ser tratado com muita seriedade. O assunto está a ser tratado com muita seriedade. Mas todos os estudos sobre o tema apontam para que a maioria dos abusos ocorra no seio familiar. Ninguém se preocupa com as vítimas destes abusos. Onde é mais comum nas escolas é nas atividades extracurriculares. Também ninguém fala sobre isso. Temos 1% dos casos. A sociedade enfrenta desafios sérios. Porque mesmo um único caso é demasiado para nós. Não podemos aceitar isso. É por isso que a sociedade precisa de examinar a sua consciência, porque como sociedade não estamos a enfrentar o problema.Mas compreende que existe na sociedade uma grande expectativa em relação ao comportamento ético da Igreja?Certamente. E o compromisso é total. Era o compromisso da Igreja antes, e continuará a ser agora. A Igreja comprometeu-se sob o papa Francisco e agora sob o papa Leão, porque o papa Leão foi um dos que mais lutou contra isso no Peru, quando lá viveu. E está profundamente convicto disso. E aqui está a falar um núncio que tem experiência de lidar com este assunto, no Panamá, no Equador, etc. E não vou ignorar a situação, de forma alguma. E nenhum bispo vai olhar para o outro lado quando receber uma queixa. Nenhum.Portugal tem uma relação de longa data com a Igreja. A nossa independência foi confirmada por uma bula papal... Sim. E a nunciatura celebra 500 anos de presença em 2027.O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa até fez questão de ir a Roma despedir-se do papa. Sente que esta relação de Portugal com a Santa Sé é especial?Sim. É um povo que tem uma relação muito especial com a Santa Sé. E mesmo na história de Portugal temos tantos exemplos em que as bulas papais foram importantes. Foram um elemento constitutivo da identidade internacional de Portugal. E essa relação com o papa está muito presente nas pessoas, mesmo nas mais simples. Agora que estive em Fátima, vi em primeira mão que significa muito para as pessoas. O atual presidente define-se católico, etc, e também tem uma relação pessoal com o papa. Encontrou-se antes com o papa Francisco. Já conhecia o atual papa como cardeal Prevost, quando esteve aqui. E foi despedir-se. Porque, institucionalmente, achou que era importante. Também eu só tenho admiração pela forma como fui recebido. Porque me recebeu logo após a minha chegada. Apresentei as minhas credenciais. A conversa com ele foi excelente, de facto.Há quem diga meio a sério meio a brincar que Portugal, ao ter seis cardeais, é o país com mais cardeais per capita. Há realmente aqui um excecionalismo?O papa Francisco tinha um carinho muito especial por Portugal. Muito especial mesmo. Vê-se isso nesse gesto de criação dos cardeais, por exemplo, que é muito pessoal. Se pensarmos no Brasil, por exemplo, devem ser uns sete ou oito. Ou nos Estados Unidos. É um privilégio.Foi núncio na América Latina e também em África. Ainda sente que existe uma diferença entre um Norte rico um Sul pobre? E que quando falamos de globalização, esta ainda não trouxe um verdadeiro desenvolvimento?Como secretário, comecei na Libéria, em Monróvia. Tínhamos quatro países: a Libéria, a Serra Leoa, o país mais pobre do planeta, Guiné-Conacri e Gâmbia. E 19 anos depois, em 2004, fui núncio na República do Congo e no Gabão. É óbvio que existe uma diferença notável. África está a melhorar. Mas ainda existe pobreza. Também não posso negar que a culpa não recai apenas sobre o Ocidente ou o Norte. Como disse o papa João Paulo II em 1987, numa encíclica, as lideranças dos países subdesenvolvidos têm uma grande responsabilidade.A América Latina, apesar de tudo, tem feito o seu caminho...É diferente. A América Latina não é África. Por exemplo, o Brasil, em alguns aspetos, tem uma grande força. Mas há muitas populações a desexcluir. Também noutros países. Acabei de chegar do Equador. Existem áreas indígenas, seja na Amazónia ou nas terras altas dos Andes, que precisam de atenção especial.Publicou um livro sobre a Conferência de Helsínquia. Estamos a falar de um mundo dividido, da época da Guerra Fria. Sente que hoje vivemos de novo num mundo dividido, mas ainda mais complexo do que o de 1975?A Conferência de Helsínquia definiu o fim da Guerra Mundial. 1945 terminou sem um acordo de paz. Depois, veio a Guerra Fria, a coexistência pacífica e a distensão. Esta distensão culminou em Helsínquia, com um acordo entre 35 países. Foi a primeira vez que a Santa Sé foi membro de pleno direito. E foi por isso que estudei este tema na minha tese de doutoramento em Direito Internacional. Hoje, o mundo é completamente diferente. Estamos a viver tensões que o mundo não conhecia. Temos muita coisa para rever. De certa forma, tenho a impressão de que a força está a tornar-se mais importante do que o direito. Em vez da força do direito, é o direito da força. Então precisamos de rever isso, porque o mundo não pode continuar assim. Não há futuro.É espanhol, com uma vasta experiência fora da Europa, mas agora é núncio num país da Europa. A sociedade europeia é vista como muito agnóstica, por vezes alheada do fenómeno religioso. Como é que a Igreja Católica lida com isto?Acho que isso é um cliché. É a ideia que temos, de que deve ser mais ou menos assim. Mas não temos em conta a enorme religiosidade popular. Em determinadas atividades, comparecem até um milhão de pessoas. Mas, sobretudo, não se tem em conta um fenómeno novo dos últimos anos. Principalmente em França, o país mais secularizado. Falo do fenómeno dos batismos de jovens adultos. É um fenómeno que até os bispos franceses acabaram de fazer uma assembleia plenária para estudá-lo, pois surpreende-os. Na Páscoa, há dezenas de milhares de jovens adultos que se batizam após um ou dois anos de preparação. Um novo fenómeno. Porque há um cansaço com tantas outras coisas que não preenchem a vida. Começa a surgir uma procura por algo maior. E isto acontece também porque, para eles, aquela ideia anticatólica que existiu até há algum tempo já não existe. Simplesmente dizem que são católicos. A geração dos pais deles, que provavelmente é a de 1968, já passou. Estas gerações são complexas. Veem a religião como algo interessante.O papel dos papas é importante no rejuvenescimento do catolicismo europeu?Sim, mas não apenas dos papas. Nós concentramo-nos imediatamente na figura do papa, mas existe a dinâmica das comunidades cristãs, das dioceses, onde existem grupos muito vibrantes que nunca chegam às notícias. Mas há certos encontros a nível de dioceses que são de uma beleza estonteante. Até artisticamente, por vezes. É que nunca são notícia. Como se trata de algo religioso, não interessa. É por isso que me conecto com as pessoas. Há pessoas hoje que não têm preconceitos, qualquer tipo de discriminação contra a religião, que começam a dizer que isto é algo que vale a pena. Dá um significado diferente à minha forma de viver. O cliché é a secularização. A realidade está a tornar-se mais complexa.Existe alguma possibilidade de a religiosidade católica ser um fenómeno de busca de identidade, e de estar também ligada à questão da migração? Qual é a perspectiva da Igreja sobre a migração?“Eu era estrangeiro e vós acolhestes-Me”, disse Jesus no Evangelho. A figura da pessoa em dificuldade, aquela que tem de sair de casa, está no Evangelho. Por vezes, há pessoas que se querem apresentar como muito católicas, mas quando falam das migrações o Evangelho está a ser ignorado. Não quero dizer que a problemática da migração não precisa ser vista de uma forma total, global e holística. É necessário. Um fenómeno aqui, por exemplo, em Portugal, é a chegada de muitos brasileiros. Brasileiros que muitos não são católicos, que vêm de outras experiências evangélicas, e trazem isso. Também chega uma religiosidade católica da América Latina ou de África, que está a entrar tranquilamente nas nossas comunidades cristãs. Por exemplo, houve algo muito bonito que encontrei em Leiria. Já visitei Leiria por duas vezes. Entreguei cartas credenciais numa segunda-feira e na terça-feira estava em Leiria. E no sábado seguinte estava de novo a visitar locais onde a Kristin tinha passado. Uma das coisas que fiquei a saber é que, entre as pessoas que mais ajudaram, estavam os imigrantes.Sei dessas visitas a Leiria porque sigo o seu Facebook. Tem uma forte presença nas redes sociais. Isto é algo novo em Portugal, ou já acontecia no Equador e antes?Comecei no Panamá em 2009. Porque o papa publicou uma mensagem a dizer que as redes sociais eram uma nova fronteira da evangelização. Estava cético. Mas se o Papa me diz para criar uma conta, eu criei. Facebook.com, Twitter.com, e fiquei por aí. Mas meses depois, uns três ou quatro meses, entrei no meu Twitter. Zero mensagens, eu não seguia ninguém. E 300 seguidores. Perguntei ao meu secretário: “O que é isto?” “se o senhor escrever alguma coisa, 300 pessoas poderão ler.” Comecei a escrever algo. Depois publiquei no Twitter, no Facebook, no Instagram, no Threads. Agora tenho cinco contas. Assim, partilho o que estou a vivenciar. Por vezes partilho coisas que são fruto da minha oração. Outras vezes, partilho coisas que são fruto da minha atividade. Além disso, a minha família acompanha-me por aí, sabem onde estou. E tenho amigos espalhados pelo mundo inteiro. Não estou a tentar fazer propaganda. Estou a partilhar a minha experiência. Isto também pode ser útil para outras pessoas. Por exemplo, quando estou a fazer uma caminhada e mostro. Tenho recomendação médica para caminhar. Procuro sempre garantir que se presta um serviço. Mens sana in corpore sano, mente sã em corpo são. Talvez ao pôr isso nas redes sociais lembre alguém que precisa de fazer algum exercício. .Papa Leão XIV apela à solidariedade com vítimas das inundações em Portugal, Espanha, Marrocos e Itália.Marcelo reuniu-se a sós com o Papa Leão XIV durante 25 minutos