Teve início no dia 24 de dezembro de 2024 e foi a última grande iniciativa do papa Francisco. Dedicado à esperança, o ano jubilar terminou ontem com o encerramento da porta de São Pedro e com críticas de Leão XIV ao modelo de sociedade consumista e à indústria da guerra. Terminado o raro jubileu de dois papas, é hora de o novo papa se afirmar, considera um vaticanista. O pontífice norte-americano presidiu às cerimónias do fim do Jubileu da Esperança com uma reflexão sobre este tema, escolhido pelo antecessor, em dois momentos: durante a missa da Epifania e numa oração aos fiéis na praça de São Pedro. “A esperança que anunciamos deve ter os pés bem assentes na terra: vem do céu, mas para gerar uma nova história aqui em baixo.” Uma história onde não há lugar à xenofobia nem ao conflito, na linha do que apregoava Francisco: “Que as suas palavras [de Jesus] se realizem em nós, que os desconhecidos e os adversários se tornem irmãos e irmãs, que em vez das desigualdades haja equidade, que em vez da indústria da guerra se afirme o artesanato da paz.” .33Milhões de peregrinos oriundos de 185 países deslocaram-se a Roma durante o jubileu, um milhão a mais do que o Vaticano havia previsto..Antes, na missa da Epifania (quando os Reis Magos prestam homenagem à revelação da vida de Deus), Leão XIV condenou as sociedades organizadas para maximizar o lucro. “À nossa volta, uma economia distorcida tenta tirar proveito de tudo. Vemo-lo: o mercado transforma em negócios até mesmo a sede humana de procurar, viajar e recomeçar”, apontou, no caso referindo-se à experiência dos peregrinos. Em contrapartida, referiu que o jubileu sublinhou “a justiça fundada na gratuitidade”, isto é, o apelo histórico desta data de se redistribuir a terra e os recursos. Peregrinação pela indulgênciaCriado em 1300 por Bonifácio VIII, quando este declarou que a quem se dirigisse em peregrinação a Roma durante aquele “ano santo” seria concedida “indulgência”, ou seja, o perdão perante Deus das punições decorrentes dos pecados, o jubileu não é mais do que uma reinterpretação de uma antiga tradição hebraica relatada no Antigo Testamento. Em cada 50 anos, era celebrado um ano santo durante o qual as dívidas eram canceladas, as terras devolvidas aos antigos donos e os escravos eram libertados. Daí que Francisco, ao proclamar o jubileu com a bula “Spes non confundit — a esperança não engana”, tenha rogado às nações mais ricas o perdão das dívidas “dos países que nunca poderão pagá-las”, e instou para que os países concedessem amnistias ou perdões de pena aos prisioneiros. Esse apelo foi reiterado dois dias depois de ter aberto a porta de São Pedro. Num gesto inaudito, deslocou-se ao estabelecimento prisional de Rebbibia e aí abriu outra porta santa. .27Anos jubilares celebrados pela Igreja Católica desde a criação deste período de graça e de perdão pelo papa Bonifácio VIII, em 1300. Houve ainda anos jubilares extraordinários em 1933, 1983 e 2015..Da basílica à prisãoO rito da abertura e encerramento de portas santas foi incorporado ao jubileu pelo papa Martinho V, no ano jubilar de 1425, ao abrir a porta da basílica de São João Latrão, considerada a igreja mais antiga do Ocidente. Décadas depois, as outras basílicas papais (São Pedro, Santa Maria Maior e São Paulo Extramuros) receberam estas portas que só estão abertas durante o ano jubilar. “É bom sermos peregrinos de esperança. E é bom continuar a sê-lo, juntos”, concluiu Leão XIV antes do encerramento da porta e do momento raro que foi a coincidência de dois papas no mesmo ano jubilar. Tal só acontecera em 1700, com a abertura da porta por Inocêncio XII e o encerramento por Clemente XI. Em 1774, Clemente XIV declarou o ano jubilar de 1775, mas morreu entretanto, pelo que coube a Pio VI chefiar as cerimónias.Na opinião do vaticanista Andrea Gagliarducci, é com o encerramento da porta de São Pedro que se inicia de facto o papado de Robert Francis Prevost. Ao lembrar que o papa norte-americano esteve até agora ocupado com compromissos relacionados com o papa argentino, desde a publicação de documentos à viagem ao Líbano e à Turquia, Gagliarducci afirmou à Catholic News Agency que o fim do jubileu permitirá a Leão XVI “por fim afirmar a sua liderança para além do legado do papa Francisco”..Papa lamenta que 2025 tenha sido marcado por "guerras devastadoras"