O gabinete de Keir Starmer anunciou esta terça-feira (23 de junho) que o governo britânico não fará “nenhum novo compromisso de despesa ou definirá novas políticas” até haver um novo primeiro-ministro. E que todos os “potenciais candidatos” a suceder-lhe na liderança do Partido Trabalhista e do executivo vão começar a receber informações sensíveis do governo para garantir uma transição “ordenada”.Até ao momento, só Andy Burnham declarou a sua intenção, mas há deputados trabalhistas preocupados com a ideia de que possa chegar ao poder sem rival e querem travar a “coroação” do “rei do Norte”.Os media britânicos dizem que há dois deputados que estão a equacionar lançar-se na corrida, para evitar que Burnham entre no n.º 10 de Downing Street sem que as suas ideias para o país sejam testadas.Apesar de uma breve passagem pelo Ministério das Finanças e de ter sido ministro da Saúde nos governos de Gordon Brown, há quase dez anos que a sua experiência é de autarca de Grande Manchester, havendo dúvidas, por exemplo, sobre o que defende em política internacional - numa altura em que a guerra na Ucrânia já dura há mais de quatro anos e o conflito no Médio Oriente continua a ser um desafio. .Um dos eventuais rivais de que se fala é Darren Jones, que desde setembro é o braço direito de Starmer (é um dos principais ministros, coordenando as políticas governamentais e as relações entre ministérios). A proximidade com o primeiro-ministro e o facto de ser visto como um candidato de continuidade podem ser um obstáculo para o deputado de 39 anos, eleito desde 2017 por Bristol North West. E o próprio estará a hesitar dar esse passo, apesar de muitos à sua volta o desejarem.O outro nome de que se fala é Al Carns, que se demitiu há menos de 15 dias de secretário de Estado das Forças Armadas (tal como o ministro da Defesa John Healey), acusando Starmer de não destinar fundos suficientes para defender o país. O deputado de 46 anos, eleito por Birmingham Selly Oak apenas em 2024, serviu durante duas décadas nos Royal Marines, incluindo nas forças especiais - esteve destacado cinco vezes no Afeganistão. A sua falta de experiência política pode ser um problema, não sendo claro que consiga os apoios suficientes - apesar de se ter destacado pela positiva desde que entrou no Parlamento.O sucessor de Starmer precisa do apoio de 20% do grupo parlamentar, ou seja, de 81 deputados trabalhistas (num total de 403). O primeiro-ministro disse na segunda-feira (22 de junho), no discurso em que anunciou a demissão, que ia pedir ao Comité Nacional Executivo do partido que as candidaturas fossem abertas a 9 de julho e até dia 16 (a decisão final ainda não foi tomada). Pelo que ainda há tempo antes de a corrida estar fechada..Starmer demite-se e deixa a porta aberta à “coroação” do “rei do Norte”.Nem Jones nem Carns afastaram a possibilidade de serem candidatos a suceder a Starmer, com Burnham a continuar entretanto a reunir mais apoios - se conseguir uma maioria dos deputados trabalhistas será visto como tendo maior legitimidade política, mesmo se for “coroado” (isto é, se for o único candidato e não precisar da votação dos militantes).Segundo o jornal The Times e a Sky News, o “rei do Norte” (como ficou conhecido enquanto autarca da Grande Manchester por desafiar o governo de Boris Johnson durante a pandemia de covid-19) terá reunido esta terça-feira (23 de junho) durante uma hora, fora do n.º 10, com o próprio Starmer. O primeiro-ministro terá prometido facilitar a sua transição para o poder. Caso se confirme que Starmer o apoia, mesmo nos bastidores, isso poderá levar Jones a não avançar. A dúvida é se os seus apoiantes e aqueles que defendem que deve haver uma corrida se viram depois para Carns ou não.“Não quero uma corrida à liderança”, disse também ao The Times a ministra do Ambiente, Emma Reynolds, próxima de Starmer, elogiando a capacidade de comunicação de Burnham e pedindo aos potenciais rivais que não avancem. “Já vivi muitas disputas diferentes como deputada e como membro do partido. Não quero isso no governo. Não acho que devamos passar o verão a fechar-nos sobre nós próprios”, afirmou, acrescentando: “Francamente, mais ninguém tem os votos necessários.” Há quem alegue, contudo, que o próprio Burnham, eleito deputado por Makerfield há menos de uma semana, pode preferir ter um adversário, porque em vez de ser “coroado” logo depois de 16 de julho (quando o Parlamento está de férias), só assumiria o poder em setembro. A sua vitória entre os militantes trabalhistas é quase certa (apesar de já ter falhado em duas outras tentativas de chegar à liderança do partido, em 2010 e 2015, a última perdendo para Jeremy Corbyn), exceto se cometer algum erro pelo caminho. O seu nome é certamente mais popular do que o dos adversários e teria assim mais tempo para se preparar para assumir o cargo de primeiro-ministro.Na primeira reunião do Conselho de Ministros desde o anúncio da saída de Starmer, esta terça-feira (23 de junho) de manhã, foi decidido que o governo não fará “nenhum novo compromisso de despesa ou definirá novas políticas” até haver um sucessor, mas vai continuar a avançar nos assuntos do dia-a-dia. Isso significa que questões centrais, como a decisão final sobre o novo Plano de Investimento em Defesa (que está atrasado e levou à demissão do ministro da pasta, que criticou a proposta), ficam nas mãos do próximo primeiro-ministro. Ao mesmo tempo, e para preparar o sucessor, todos os “potenciais candidatos” terão reuniões informativas oficiais com os funcionários do governo. Estas são conhecidas como “conversas de acesso”, permitindo que fiquem a par de informações de segurança, documentos de política ou planeamento departamental, sendo que normalmente se destinam ao líder da oposição antes de umas eleições gerais (para que fique preparado para assumir de imediato o poder se ganhar).