O presidente dos Estados Unidos voltou a lançar um aviso aos dirigentes do Irão, horas depois de as forças do seu país terem dito que estarão prontas para atacar a partir de sábado. “Coisas más acontecerão”, disse Donald Trump caso as negociações indiretas não dêem frutos “dentro de dez dias”. Citando fontes conhecedoras do tema, a CBS tinha anunciado na quarta-feira à noite que os oficiais de topo da segurança nacional disseram a Donald Trump estar tudo a postos para atacar o solo iraniano já neste fim de semana. A porta-voz da Casa Branca afirmou existirem “muitas razões e argumentos a favor de um ataque”, embora não tenha enunciado um sequer. “O Irão faria bem em concluir um acordo”, já tinha avisado Karoline Leavitt na terça-feira, dia seguinte à segunda sessão de negociações sobre o nuclear, que decorreu em Genebra entre os enviados Steve Witkoff e Jared Kushner e o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi. Sob a mediação de diplomatas de Omã, os negociadores iranianos e norte-americanos trocaram notas durante três horas e meia. O lado iraniano afirmou ter-se chegado a um “conjunto de princípios orientadores”. Araghchi mencionou a “elaboração de um quadro preliminar” a entregar num prazo de duas semanas aos Estados Unidos com vista a uma resolução diplomática do conflito. ."O caminho para um acordo começou", diz o Irão após nova ronda de negociações com os EUA.Um responsável norte-americano declarou que “ainda há muitos pormenores a discutir”. E resta saber se Trump está interessado em esperar — seja os dez dias que mencionou, seja as duas semanas a que o chefe da diplomacia iraniana tinha aludido. Disse que “estão a decorrer boas conversas” e apelou a Teerão para se juntar aos EUA no “caminho para a paz”. Esse caminho passa por desistir do programa nuclear. “Não se pode ter paz no Médio Oriente se eles [iranianos] tiverem uma arma nuclear”, afirmou Trump. Segundo a CNN, o presidente norte-americano ainda não tomou uma decisão, ou pelo menos ainda não a comunicou. O discurso anual sobre o estado da união decorre na terça-feira.Enquanto isso, as forças dos Estados Unidos continuam os preparativos para a eventualidade de um ataque ao Irão. O maior porta-aviões dos EUA, USS Gerald R. Ford cruza o Mediterrâneo acompanhado de cinco contratorpedeiros, a caminho do Médio Oriente. No mar de Omã já se encontra o porta-aviões USS Abraham Lincoln. Foi também no mar de Omã que decorreram exercícios navais conjuntos do Irão e da Rússia. Na véspera, o comandante da Marinha iraniana advertiu os EUA, sem os nomear. “Se as frotas extra-regionais acreditam que vieram com poder, devem saber que o povo iraniano irá enfrentá-las com um poder ainda maior”, disse o contra-almirante Shahram Irani. Também a Rússia advertiu contra as “políticas destrutivas” dos EUA. O embaixador russo no Irão, Alexey Dedov, disse que uma agressão ao Irão desencadearia “consequências imprevisíveis e devastadoras” não só na região, mas além. Cânticos contra o regimeOs iranianos têm por costume assinalar a morte de um ente querido 40 dias após a perda. Das cerimónias no cemitério de Behesht-e Zahra, em Teerão, pelos que morreram na onda de repressão das forças de segurança durante os protestos do mês passado também, circulam testemunhos e vídeos nas redes sociais a mostrarem cânticos contra o regime, bem como canções nacionalistas, conta a Associated Press. As manifestações começaram no dia 28 de dezembro no Grande Bazar de Teerão, devido à crise económica originada pela desvalorização acentuada da moeda iraniana. As manifestações espalharam-se pelo país e começaram a pôr em causa o regime. A repressão que se seguiu matou 3100 pessoas, segundo Teerão, enquanto associações de direitos humanos contrapõem com uma estimativa de mais de sete mil mortos. Foi durante a onda repressiva que Trump voltou as suas atenções para o Irão, país que já tinha sido seu alvo em junho, numa operação militar em aliança com Israel. Numa das muitas mensagens do presidente norte-americano nas redes sociais, este chegou a dizer que estava “ajuda a caminho”.