Os Estados Unidos enviaram sinais ambíguos sobre uma hipotética intervenção no Irão, à medida que se conhecem mais notícias sobre a repressão mortal aos manifestantes que desde o final de 2025 protestam contra a grave situação económica e pelo fim do regime teocrático. Do lado iraniano, diversos dirigentes iranianos acusaram Israel e EUA de terrorismo e elevaram o tom sobre as possíveis consequências de uma ação militar norte-americana, tal como Donald Trump havia advertido, em caso de as ruas iranianas ficarem banhadas de sangue. Com as comunicações praticamente cortadas com o exterior, soube-se que se realizou uma manifestação de apoio ao regime em Teerão, a qual foi um aviso aos Estados Unidos, segundo o ayatollah Khamenei. O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano confirmou estar em comunicação com a administração Trump, e que está pronto a negociar com os norte-americanos sobre o programa nuclear, mas na condição de não existirem ameaças nem exigências. Abbas Araghchi disse em específico que o intercâmbio está a ser realizado com Steve Witkoff, o enviado especial e amigo do presidente. “Algumas ideias têm vindo a ser discutidas com Washington e estão atualmente a ser estudadas por nós”, afirmou Abbas Araghchi em entrevista à Al Jazeera em língua árabe. O diplomata informou que esta troca de comunicações foi iniciada antes dos protestos que têm vindo a abanar as fundações da república islâmica. E até deixou no ar a hipótese de vir a sentar-se à mesma mesa que Witkoff. No entanto, o ministro reiterou que “as ideias e as ameaças propostas por Washington” são “incompatíveis”. E passou ao ataque verbal: “Se Washington quiser testar a opção militar que já testou antes, estamos preparados para isso. Temos uma preparação militar ampla e extensa comparada com a que tínhamos durante a última guerra”, disse em referência aos bombardeamentos por parte dos EUA em três instalações nucleares iranianas no ano passado. “Estamos preparados para todas as opções e esperamos que Washington escolha a opção sensata.”Em conferência de imprensa em Teerão, o ministro descreveu o que se passa no Irão como “uma guerra terrorista contra o país” e não como protestos. Araghchi culpou a advertência do presidente dos EUA contra Teerão por ter incitado à violência. “Desde que Trump mencionou a intervenção, os protestos tornaram-se sangrentos para fornecer uma desculpa para a intervenção.” Na entrevista à Al Jazeera apontou em específico para “elementos terroristas treinados” infiltrados nas multidões de manifestantes, os quais, alega, “atacaram as forças de segurança e os manifestantes”. Para o diplomata, os responsáveis são “aqueles que tentam arrastar Washington para a guerra para servir os interesses de Israel”..“Estamos a considerar algumas opções muito fortes. Vamos tomar uma decisão. Acho que estão cansados de serem batidos pelos Estados Unidos. O Irão quer negociar.”Donald Trump.Do lado norte-americano, as indicações mantiveram-se ambíguas. Na noite de domingo, o presidente voltou ao tema. Disse que os militares estão a estudar todas as opções, deixando em aberto a via de uma intervenção armada e uma decisão a ser tomada em breve. E advertiu sobre uma possível retaliação iraniana. “Se eles fizerem isso, nós atacaremos em níveis que nunca foram atingidos antes. Eles nem vão acreditar. Tenho opções que são tão poderosas”, exclamou a bordo do avião presidencial. Já o embaixador dos EUA em Israel não acredita que haja planos para atacar o Irão. “Penso que, neste momento, os EUA ou Israel não estejam a planear qualquer intervenção”, disse Mike Huckabee em entrevista à Sky News. No entanto reconheceu que está fora do seu círculo saber e prever o que se seguirá. “Não sei o que poderá acontecer, simplesmente não sei.” O ex-governador também disse não acreditar que os Estados Unidos “estejam ativamente envolvidos a tentar acelerar” a mudança de regime. Para o embaixador, as declarações de Trump devem-se ao “respeito” pelos manifestantes. “Ele quer que haja reconhecimento de que o governo do Irão não deve assassinar o seu próprio povo, não deve feri-lo e prejudicá-lo porque está a protestar.” Mais tarde, a porta-voz da Casa Branca voltou a sublinhar a ideia de que o presidente não está restringido por quaisquer condicionantes e que “não tem receio de recorrer a opções militares” se considerar necessário. “Acho que uma coisa em que o presidente Trump é muito bom é em manter sempre todas as opções em aberto, e os ataques aéreos seriam apenas uma das muitas opções disponíveis”, disse Karoline Leavitt. Tal como o presidente havia falado em planos militares e no desejo de diálogo por parte de Teerão, Leavitt também se referiu à via negocial, tendo sublinhado que “a diplomacia é sempre a primeira opção” para Trump. “Ele disse a todos vocês ontem à noite [domingo] que o que estão a ouvir publicamente do regime iraniano é bastante diferente das mensagens que a administração ouve em privado.” .“Sejamos claros: no caso de um ataque ao Irão, os territórios ocupados [Israel], assim como todas as bases e navios dos EUA, serão nossos alvos legítimos.”Baqer Qalibaf, presidente do Parlamento iraniano.Em Teerão, realizou-se uma manifestação de apoio às forças no poder. O presidente do Parlamento reiterou a retórica do chefe da diplomacia sobre o poderio militar iraniano. “Venham ver o que acontecerá aos navios e bases militares americanas na região”, disse Mohammad Baqer Qalibaf ao discursar na manifestação. “Venham arder no fogo da nação iraniana de tal forma que se torne uma lição duradoura de história para todos os governantes opressores dos EUA. Venham descobrir o que vos acontecerá e à região”, acrescentou, em tom desafiador. O guia supremo regozijou-se com a manifestação e aproveitou a deixa para dizer que a mesma foi uma mensagem para os EUA. “Foi um aviso aos políticos norte-americanos para que parem com as suas manobras enganadoras e não contem com mercenários traiçoeiros”, afirmou, segundo a televisão estatal iraniana. “Estas manifestações em massa, cheias de determinação, contrariaram o plano dos inimigos estrangeiros”, considerou Ali Khamenei. O ayatollah de 86 anos, horas antes, havia republicado uma mensagem na rede X, mas desta vez em farsi e acompanhado de um desenho de um Donald Trump como um figura de um faraó a despedaçar-se. Na mensagem, Khamenei comparou Trump a “tiranos e opressores” como um faraó, Ninrode, ou o xá Reza Pahlavi, todos “derrubados quando estavam no auge de sua arrogância” e augurou que o norte-americano terá o mesmo destino.Enquanto líderes como o francês Emmanuel Macron ou o alemão Friedrich Merz condenaram a violência com que as autoridades reprimiram as manifestações — segundo a associação Iran Human Rights há pelo menos 648 mortos —, Teerão convocou os embaixadores de Alemanha, França, Reino Unido e Itália para criticar o apoio destes países aos manifestantes. O Parlamento Europeu, pelo seu turno, decidiu impedir a entrada de diplomatas iranianos. “Esta Câmara não contribuirá para legitimar este regime que se manteve através da tortura, repressão e assassínio”, escreveu a presidente Roberta Metsola. A chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, está a considerar sanções ainda mais severas contra o Irão.