País mediador no processo de paz, o Paquistão anunciou que as conversações técnicas entre os Estados Unidos e o Irão vão recomeçar na próxima semana. Isto em mais um dia marcado por declarações contraditórias sobre alguns dos 14 pontos do memorando de entendimento dos Estados Unidos e do Irão, em especial sobre as inspeções nucleares, o livre trânsito no estreito de Ormuz e os ativos iranianos congelados. A meio desta divergência, o negociador-chefe iraniano, Bagher Ghalibaf, considerou que o documento assinado por Donald Trump e Masoud Pezehshkian é “uma declaração de derrota dos EUA”. Isto porque, afirmou, o entendimento “não foi resultado de pressão ou de coerção, mas sim da resistência e da autoridade do corajoso povo iraniano”. O presidente dos Estados Unidos ameaçou com o fim das negociações se o Irão não desmentir as “problemáticas notícias falsas” de que o país se prepara para estabelecer portagens, custos de seguros e encargos adicionais no estreito de Ormuz. Na véspera, à chegada a Abu Dhabi, o secretário Marco Rubio lembrou que o estreito de Ormuz “é uma via navegável internacional”, pelo que “nenhum país tem permissão para cobrar portagens”. Concluiu: “É assim nas vias navegáveis internacionais em todo o mundo, e é assim que esperamos que aconteça.”.Irão contradiz Vance e Trump sobre as inspeções nucleares.No mesmo dia, Ghalibaf e o ministro dos Negócios Estrangeiros Abbas Araghchi encontraram-se em Mascate com o sultão de Omã e com dirigentes para reafirmar “os direitos soberanos sobre as águas territoriais” de ambos os países. Foi criado um grupo de trabalho conjunto para acordar uma administração relativa ao tráfego marítimo do estreito de Ormuz — cujos serviços serão cobrados aos navios em forma de taxas, e não de portagens.Trump disse ainda na sua rede social que “dinheiro algum foi entregue ao Irão, nem foi libertado do seu dinheiro pelos EUA”, referindo-se aos ativos congelados pelas sanções. “Vamos libertar parte do dinheiro deles, que é totalmente controlado por nós, para os nossos agricultores e criadores, para a compra de milho, trigo, soja e outros produtos.” Em entrevista à CNBC, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, acrescentou medicamentos à lista de produtos a trocar pelo dinheiro iraniano. Na véspera, Teerão rejeitara esta ideia.O Irão mostrou-se interessado em celebrar “acordos de segurança” com os países do Golfo Pérsico — alguns dos quais foram atacados durante a guerra — e estabelecer, em paralelo, uma “cooperação económica sustentável”, disse Bagher Ghalibaf , de visita ao Azerbaijão. Já o chefe da diplomacia iraniano manteve uma conversa telefónica com o homólogo saudita. Ao mesmo tempo, um diplomata disse à AFP que se espera para breve o início de conversações sobre a reconciliação entre os países do Golfo e o Irão, e que estas tenham lugar na Arábia Saudita — o país visto como o arquirrival de Teerão. Estes encontros far-se-ão em paralelo e de forma independente com as conversações em curso entre os EUA e o Irão, acrescentou o diplomata.Esta movimento aparente de reaproximação de Teerão com os seus vizinhos surge enquanto o chefe da diplomacia dos EUA visita vários países do Golfo Pérsico para tranquilizar os seus aliados. “Não vamos fazer nada que ponha em causa a segurança dos nossos aliados de longa data na região”, disse Marco Rubio no Koweit.Senado dos EUA: guerra só com autorizaçãoO Senado dos EUA aprovou uma resolução que instrui o presidente a acabar com a guerra contra o Irão ou a obter autorização do Congresso para continuar. Quatro senadores republicanos juntaram-se a todos os democratas, exceto um. O mesmo texto já havia sido adotado pela Câmara dos Representantes no início do mês. Donald Trump criticou os “quatro perdedores republicanos” que se juntaram aos “burrocratas”. Para o presidente dos EUA, a votação foi “mal escolhida e sem sentido”, queixou-se na rede Truth Social. “Estes senadores acabaram de tornar o meu trabalho mais difícil, mas eu irei concluí-lo, de uma forma ou de outra, porque eu consigo sempre!”, escreveu.