Sem surpresa, e de forma desafiadora para com Israel e os Estados Unidos, a Assembleia de Peritos elegeu, no domingo à noite, como sucessor de Ali Khamenei o seu filho Mojtaba Khamenei, de 56 anos. Em várias cidades, onde os opositores do regime não ousaram sair à rua desde o início da guerra, multidões juntaram-se com bandeiras e retratos em apoio ao novo guia supremo. Horas depois, quer o ministro dos Negócios Estrangeiros, quer um comandante das forças armadas asseguraram que o país tem capacidades para contra-atacar os estados agressores. Mas, segundo Donald Trump, as hostilidades estão a chegar ao fim, “muito antes” das quatro a cinco semanas que havia previsto. Mojtaba Khamenei foi “nomeado e apresentado como o terceiro líder do sistema sagrado da República Islâmica do Irão, com base no voto decisivo dos respeitados representantes da Assembleia de Peritos”, disse o próprio órgão clerical, composto por 88 membros, em comunicado. Disse ainda que “não hesitou um minuto” em escolher um novo líder, apesar da “agressão brutal da criminosa América e do perverso regime sionista”. Antes de o nome ter sido tornado público, um dos membros da Assembleia de Peritos revelou que a escolha tinha sido influenciada de forma decisiva pela indicação deixada pelo guia supremo morto no dia 28 de fevereiro. Segundo o ayatollah Mohsen Heidari Alekasir, Khamenei disse que o seu sucessor deveria ser alguém “odiado pelo inimigo”. O presidente dos EUA já se tinha referido a Mojtada Khamenei como uma escolha “inaceitável” - além de estar sob sanções norte-americanas. Em 2019, durante o primeiro mandato de Trump, o segundo dos filhos de Ali Khamenei foi visado pelos EUA por “prosseguir as ambições regionais desestabilizadoras do seu pai e os objetivos internos opressivos”. Em concreto, pelo seu papel na controversa reeleição de Mahmoud Ahmadinejad em 2009, que desencadeou os protestos do Movimento Verde, e a consequente repressão que então se saldou em dezenas de mortos. Já então, nas ruas, se ouviu, além de “Morte ao ditador!”, destinada a Khamenei, a frase “Morre, Mojtaba, para que não te tornes no guia supremo”. Apesar de não ter qualquer função oficial no governo, Mojtaba era o ponto de ligação familiar com os comandantes dos Guardas da Revolução, assim como da força de elite Quds, responsável pelo apoio às milícias nos países vizinhos; e também as forças Basij, a rede paramilitar na primeira linha da repressão e que terá sido responsável por parte significativa das mortes dos manifestantes em janeiro. .Preocupação internacional com jogadoras do Irão por recusa em cantar hino. Cinco procuram refúgio na Austrália.Mojtaba Khamenei, que perdeu pai, mãe e mulher no bombardeamento de 28 de fevereiro, ainda não apareceu em público nem se dirigiu aos iranianos. Há relatos não confirmados de que o próprio esteja ferido. Durante a transmissão televisiva que anunciou o nome de Khamenei, foi afirmado que é considerado um “janbaz”, um termo usado “para indivíduos que foram feridos pelo inimigo”. Mas como Mojtaba combateu na guerra Irão-Iraque, é incerto que tenha ficado ferido há dias.Certo é que, além da “bofetada na cara dos inimigos que pensaram que o sistema iria colapsar com o assassínio do seu pai” - como reagiu a estudante de 21 anos Zahra Mirbagheri à Reuters -, outros elementos no poder se pronunciaram de forma desafiadora. O ministro dos Negócios Estrangeiros escreveu no X que “após nove dias da Operação Erro Épico, os preços do petróleo duplicaram enquanto todas as matérias-primas disparam”. Disse que o Irão tem “muitas surpresas preparadas”, caso os Estados Unidos decidam atacar as infraestruturas energéticas e nucleares. “O Irão está totalmente preparado.” Já o major-general Abdollahi disse que os inimigos estão “atormentados por erros de cálculo”, referindo-se às alegadas capacidades intactas das suas forças, em concreto aos mísseis e respetivos lançadores, e de serem mais avançadas devido à experiência obtida com os conflitos recentes. “O inimigo tem afirmado repetidamente que sabe o número de mísseis do Irão, mas deveria contá-los no campo de batalha para perceber que nada sabe sobre a realidade”, declarou o general, que é o chefe do quartel-general central Khatam al-Anbia. Este centro de comando havia anunciado, dois dias antes, que as forças iranianas tinham morto 200 militares norte-americanos. Até ao momento, o Departamento de Guerra dos EUA informou sobre a morte de sete soldados. No que respeita às baixas no Irão, foram registados 1255 mortos, dos quais 200 crianças, segundo um balanço do vice-ministro da Saúde iraniano. Se nas sedes de poder - presidência, parlamento, Guardas da Revolução - se jurou fidelidade a Khamenei filho, e nas ruas houve um “mar de lealdade”, como descreveu a agência Tasmin, do lado israelo-americano as reações foram parcas. Israel, através do ministro da Defesa Israel Katz, havia ameaçado “eliminar” o sucessor de Khamenei, fosse quem fosse, desde que assumisse o cargo de topo da teocracia xiita. Uma vez conhecido o nome do novo líder, Donald Trump disse ao New York Post estar “descontente”, mas limitou-se a acrescentar que não iria revelar quaisquer planos sobre o tema, depois de se ter arrogado ao direito de escolha do líder. Noutra entrevista, ao Times of Israel, o presidente norte-americano limitou-se a uma expressão habitual: “Vamos ver o que acontece”. Horas depois, em declarações à CBS News, Trump disse que “a guerra está praticamente concluída”, uma vez que o Irão “não tem Marinha, nem comunicações, nem Força Aérea”. À entrada da segunda semana de guerra, acrescentou que as armas podem calar-se “muito antes” do prazo previsto de quatro a cinco semanas.. De visita a Chipre, o presidente francês Emmanuel Macron afirmou estar preparar, com outros países, uma futura missão “puramente defensiva” para reabrir o estreito de Ormuz e escoltar os navios. A França vai também contribuir com duas fragatas para a operação da União Europeia no Mar Vermelho. No total, a presença francesa na região terá oito fragatas, dois porta-helicópteros anfíbios e o porta-aviões Charles de Gaulle.Asilo a futebolistas iranianasPelo menos cinco jogadoras da seleção feminina de futebol do Irão receberam asilo da Austrália, na sequência da polémica causada por não terem cantado o hino no jogo frente à Coreia do Sul. Após o presidente dos Estados Unidos ter publicado uma mensagem na qual criticou a Austrália por ter cometido um “terrível erro humanitário” por não ter concedido asilo humanitário à equipa, Trump disse que o primeiro-ministro Anthony Albanese está a “fazer um bom trabalho numa situação muito delicada”. E acrescentou que, além das cinco asiladas, “algumas sentem que devem regressar porque estão preocupados com a segurança das suas famílias, incluindo ameaças a esses familiares caso não regressem”.