O ayatollah Khamenei voltou a falar em público para lançar uma nova advertência aos Estados Unidos. “Os norte-americanos devem saber que, se provocarem uma guerra, desta vez será uma guerra regional”, disse em referência ao bombardeamento ocorrido em junho pelos norte-americanos às suas instalações nucleares durante a guerra de 12 dias mantida pelo Irão contra Israel. Enquanto o guia supremo mostra firmeza, o presidente e o ministro dos Negócios Estrangeiros exibem flexibilidade ao dizerem que Teerão não quer entrar em conflito, reafirmando o interesse em negociar com os Estados Unidos, e evitando que as ameaças de Donald Trump se convertam em realidade. Enquanto as forças navais norte-americanas continuam a caminho da região, as chefias militares israelitas e norte-americanos reuniram-se em Washington. Ali Khamenei, de 86 anos, afirmou que os EUA estão interessados no petróleo, gás natural e outros recursos do Irão, e “apoderarem-se” daquele país, “tal como o controlaram antes”. Prosseguiu: “Se alguém demonstrar ganância e tentar atacar ou assediar, a nação iraniana infligirá um golpe pesado a esses indivíduos.” O presidente dos EUA, que tem falado reiteradamente sobre o tema, respondeu às declarações de Khamenei, mostrando compreensão: “Por que é que não diria isso? Claro que ele vai dizer isso.” Depois voltou a realçar que o seu país tem” os maiores e mais poderosos navios do mundo muito próximos [do Irão], dentro de poucos dias”. Concluiu: “Com sorte, faremos um acordo. Se não chegarmos a um acordo, então iremos descobrir se ele estava certo ou não.”Em paralelo, o presidente iraniano Masoud Pezeshkian, em telefonema com o homólogo egípcio Abdel Fattah al-Sisi, e o ministro dos Negócios Estrangeiros Abbas Araghchi, em entrevista à CNN, fizeram claros apelos ao diálogo com os Estados Unidos. A República Islâmica “acredita profundamente que a guerra não beneficiará o Irão, os Estados Unidos, nem a região”, disse Pezeshkian. Já Araghchi explicou não estar preocupado com a guerra, mas “com erros de cálculo e operações militares com base em desinformação”. O diplomata disse que Teerão não acredita nos EUA, razão pela qual há “países amigos na região” que estão a trabalhar como intermediários. Segundo o site Axios, o primeiro-ministro do Qatar Mohammed bin Abdulrahman Al Thani esteve na capital iraniana no sábado nesse papel. Já o Canal 12 israelita acrescenta o Egito e a Turquia como mediadores e avança que estão a trabalhar para organizar uma reunião entre o enviado especial da Casa Branca Steve Witkoff e autoridades iranianas esta semana, em Ancara. Ali Khamenei insurgiu-se também contra os manifestantes. “Atacaram a polícia, edifícios governamentais, quartéis dos Guardas da Revolução, bancos, mesquitas e queimaram o Alcorão. Foi um verdadeiro golpe de Estado.” Ao mesmo tempo que o ayatollah criticava os revoltosos, soube-se que na véspera foi libertado o manifestante Erfan Soltani, que foi detido no dia 10 de janeiro. Este, que se tornou no rosto do movimento de contestação, saiu em liberdade sob caução.Os Estados Unidos e organizações não governamentais alertaram para o risco de execução de Soltani, acusado de propaganda contra o sistema islâmico e de atentado à segurança nacional, segundo a justiça. Segundo a ONG Human Rights Activists News Agency (HRANA) mais de 42 mil pessoas foram detidas. A repressão matou pelo menos 6713 pessoas, mas o número de mortos poderá ser mais elevado, com mais de 17 mil óbitos ainda em avaliação, segundo a ONG. No domingo, a presidência iraniana publicou uma lista de 3117 mortos, tendo identificado 2986 pessoas. Segundo Teerão, a grande maioria eram forças de segurança ou transeuntes mortos por “terroristas”.Exércitos da UE são “terroristas” . Vestidos com o uniforme dos Guardas da Revolução, os deputados iranianos aprovaram a designação dos exércitos europeus como “grupos terroristas”. A medida retaliatória acontece depois de na quinta-feira a UE ter declarado os Guardas da Revolução como uma organização terrorista na sequência da onda de repressão mortal por parte do regime aos protestos nas ruas. “Um tiro nos pés”, disse Bagher Ghalibaf, o presidente do Parlamento. Criados com a chegada ao poder de Khomeini, em 1979, os Guardas da Revolução são um ramo militar paralelo às forças regulares. Respondem diretamente ao guia supremo Ali Khamenei, e têm um papel central no sistema da teocracia iraniana, incluindo as operações externas e de influência regional.