O segundo mandato de António Guterres só termina a 31 de dezembro de 2026, mas já começou a corrida para escolher o próximo secretário-geral das Nações Unidas - ou será a primeira secretária-geral? Depois do português, os olhos estão virados para a América Latina e Caraíbas, região que em 80 anos de história da organização só por uma vez ocupou o cargo máximo - o peruano Javier Pérez de Cuellar (1982 a 1991) - e que ao abrigo de uma rotatividade informal deverá ter agora uma nova oportunidade.Em 2016, a eleição de Guterres acabou com a esperança de que pudesse haver finalmente uma mulher à frente da ONU. Uma década depois, são várias as pré-candidatas que já se chegaram à frente, desde a ex-presidente chilena e antiga responsável da ONU Mulher, Michelle Bachelet, à ex-secretária-geral ibero-americana (SEGIB) e atual responsável da ONU Comércio e Desenvolvimento, a costa-riquenha Rebeca Grynspan. E há outras na calha.No entanto, ainda falta muito tempo e já há pelo menos um homem a querer o cargo máximo: o argentino Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). E, quando foi eleito Guterres, a expectativa não era apenas que a escolhida fosse uma mulher. A ideia era que fosse um representante da Europa de Leste, o que não se veio a confirmar, pelo que, no final, o sucessor ou a sucessora do português poderá vir de qualquer canto do mundo.E como é que decorre a eleição? Desde 2016 que o processo é muito mais aberto e transparente. E tudo começa com uma carta enviada em conjunto pelo presidente do Conselho de Segurança e da Assembleia Geral a todos os Estados-membros, convidando-os a submeterem os seus candidatos. Essa carta já seguiu a 25 de novembro. Os diferentes candidatos têm depois um “diálogo informal” individual com os membros do Conselho de Segurança, que fazem depois a sua recomendação à Assembleia Geral - que nomeia oficialmente o sucessor.A votação no Conselho de Segurança é por voto secreto, com os países a dizer se encorajam ou não cada uma das candidaturas ou se não têm opinião sobre elas. Como os cinco membros permanentes têm direito de veto, usam a partir de determinada altura boletins de voto vermelhos - para mostrar se há algum nome que vão rejeitar. Em 2016, à sexta votação, a primeira com boletins vermelhos, Guterres foi o único que recebeu os nove votos a encorajar a candidatura e não teve qualquer voto a desencorajar dos cinco membros permanentes, acabando por ser apontado como “claro favorito” e ser eleito por aclamação à sétima votação. Em 2021, o português foi o único candidato, sendo reeleito sem oposição.Como é que vai ser a próxima eleição? O processo só começou em novembro, pelo que ainda não existem pormenores, aguardando-se primeiro as candidaturas oficiais. Ainda não há datas, sabendo-se apenas que o sucessor de Guterres toma posse a 1 de janeiro de 2027. Mas já há candidatos e muitas especulações.Falsa partida da Bolívia?Em abril, sete meses antes de o processo começar formalmente, um candidato boliviano lançou-se na corrida. Mas pode ter sido uma falsa partida. David Choquehuanca, na altura vice-presidente, foi nomeado pelo Pacto da Unidade, que reúne várias organizações indígenas, trabalhadores rurais e sindicados do país e está associada ao ex-presidente Evo Morales. Mas não é claro se a nomeação terá sido aprovada pelo governo de esquerda na altura e, entretanto, foi eleito um novo presidente de centro-direita, Rodrigo Paz. Sem apoios oficiais, não terá pés para andar.À espera do novo presidenteA chilena Michelle Bachelet pode ter um problema semelhante. A ex-presidente socialista de 74 anos, que governou entre 2006 e 2010 e depois entre 2014 e 2018 (no Chile não há mandatos consecutivos), foi nomeada em setembro pelo presidente Gabriel Boric (de esquerda) no seu último discurso da Assembleia Geral da ONU. Mas em março, Boric passará o testemunho a José Antonio Kast, da direita ultraconservadora.Bachelet já reuniu com Kast, que remeteu para depois da tomada de posse uma decisão. “Ela foi presidente duas vezes e, para o que está por vir, precisamos de toda a sua experiência”, indicou o presidente eleito, sem se comprometer com a escolha. Além de presidente, Bachelet tinha sido ministra da Saúde e ministra da Defesa (foi a primeira mulher na América Latina a assumir esse cargo). Foi depois a primeira líder da ONU Mulher, entre os seus dois mandatos, e Comissária para os Direitos Humanos.O mundo está “pronto” para uma mulher secretária-geral, defendeu Bachelet numa entrevista à AFP, falando da necessidade de “uma contribuição diferente através de um tipo diferente de liderança”. Se for escolhida, disse que ajudaria as Nações Unidas a “modernizarem-se e a tornarem-se mais eficientes, mais eficazes e mais transparentes”.A antiga SEGIB.Em outubro, a Costa Rica anunciou a intenção de nomear a economista Rebeca Grynspan, vice-presidente entre 1994 e 1998 e secretária-geral ibero-americana de 2014 a 2021 (a primeira mulher nesse cargo). Desde então é secretária-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento.“Se me perguntassem qual é o slogan da minha campanha, eu diria que é o artigo 1º da Carta da ONU. Diz tudo, e devemos ser fiéis a esses valores”, disse Grynspan, de 70 anos, numa entrevista ao El País, no início de dezembro. O artigo 1º enumera como princípios da ONU “manter a paz e a segurança internacionais”; “desenvolver relações de amizade entre as nações”; “alcançar a cooperação internacional na resolução dos problemas internacionais”; e “ser um centro para harmonizar as ações das nações na consecução destes fins comuns”.Mas, acrescenta a costa-riquenha, “ao mesmo tempo, precisamos de ser muito mais ágeis e flexíveis, mais inovadores nas propostas que a ONU apresenta ao mundo. E, para isso, precisamos de correr riscos”. Lembrando que a organização foi criada por 50 países e agora reúne 193, defende que é preciso mudanças. “Eu conheço bem as Nações Unidas, o suficiente para a defender e para a reformar”, afirmou. Quando questionaram se era hora de uma mulher ao leme, disse que qualquer candidata não pede “tratamento especial, apenas que não haja discriminação”. Porque se assim for, qualquer uma tem hipótese de ganhar.Outras mulheres, nem todas latino-americanasHá outras mulheres que se especula poderem vir a entrar na corrida, desde a primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley (o seu nome já é falado há vários anos), até à antiga presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, a equatoriana María Fernanda Espinosa, passando pela ministra do Meio Ambiente e Recursos Naturais mexicana, Alicia Bárcena.Outras potenciais candidatas a primeira secretária-geral da ONU (que não são da América Latina ou das Caraíbas) são a antiga chefe de governo da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, ou a presidente do Fundo Monetário Internacional, a búlgara Kristalina Georgieva (esta última já foi candidata em 2016, entrando na corrida já quando decorriam as votações). Resta saber se alguma avançará.O trunfo de Milei?.E depois há outro candidato oficial: o argentino Rafael Grossi. O seu nome foi proposto pelo governo do presidente Javier Milei a 26 de novembro, um dia depois de a carta convite a pedir candidatos ter sido enviada pela ONU. O atual diretor-geral da AIEA, de 64 anos, apresentou-se numa entrevista à EFE como potencial mediador e “construtor de pontes” e um secretário-geral “imparcial, mas não impotente nem indiferente”. Grossi considera que a ONU “não está a cumprir plenamente o papel para o qual foi criada”, defendendo um “regressar ao básico” e à resolução de conflitos. “Não podemos continuar à espera que os países continuem a doar dinheiro para a ajuda e cooperação internacional num mundo onde as guerras estão a proliferar. Se há guerra, não há nada: nem energia, nem saúde, nem educação”, afirmou, alertando que a ONU está a seguir um caminho de “irrelevância crescente”, criticando, por exemplo, que haja sete organismos dedicados ao clima. Declarações que podem agradar ao presidente dos EUA, Donald Trump, que não é fã das Nações Unidas.O diplomata argentino não poupou nas críticas, defendendo que a ONU foi culpada de parcialidade e de “posições ideológicas” em conflitos como a guerra entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza, o que, na sua opinião, “prejudicou muito a aceitação da ONU no terreno” e a impediu de desempenhar um papel mais importante.