Combatentes Houthis marcham na capital do Iémen durante uma campanha para mobilizar mais combatentes no meio de uma ofensiva contra as tropas governamentais apoiadas pela Arábia Saudita.
Combatentes Houthis marcham na capital do Iémen durante uma campanha para mobilizar mais combatentes no meio de uma ofensiva contra as tropas governamentais apoiadas pela Arábia Saudita.EPA / YAHYA ARHAB

Houthis assumem controlo de ilha estratégica no estreito de Bab el-Mandeb

O avanço dos Houthis em direção ao estreito no mar Vermelho e os ataques norte-americanos e iranianos nas águas do golfo Pérsico fizeram disparar os preços do petróleo nos últimos dias.
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Os Houthis do Iémen assumiram o controlo de uma ilha-chave no estreito de Bab el-Mandeb, anunciou esta sexta-feira, 11 de setembro, uma fonte governamental, confirmando o domínio dos rebeldes pró-Irão da passagem estratégica que liga a Europa à Ásia. A ilha de Mayun divide o estreito em dois corredores marítimos.

Com a guerra no Médio Oriente e o bloqueio iraniano do estreito de Ormuz, outra via estratégica, a importância de Bab el-Mandeb aumentou para a navegação marítima internacional.

O avanço dos Houthis em direção ao estreito no mar Vermelho e os ataques norte-americanos e iranianos nas águas do golfo Pérsico fizeram disparar os preços do petróleo nos últimos dias. O barril de Brent, referência para a Europa, ultrapassou na quinta-feira os 100 dólares e mantinha-se esta sexta-feira de manhã em torno dos 106 dólares.

“Barcos com combatentes Houthis armados chegaram à ilha de Mayun [também conhecida como Perim] após a retirada das forças governamentais” na quinta-feira, disse a fonte governamental iemenita à agência francesa AFP. “Os Houthis concluíram a tomada de controlo da zona de Bab el-Mandeb e da ilha de Mayun”, acrescentou a mesma fonte, que falou à AFP na condição de não ser identificada.

Uma testemunha disse à agência de notícias francesa que homens armados se estavam a desdobrar “ao longo da costa de Bab el-Mandeb em veículos militares”.

Sauditas respondem com caças

Os petroleiros e navios comerciais oriundos da Ásia utilizam o estreito de Bab el-Mandeb para aceder ao mar Vermelho, ao canal do Suez e ao Mediterrâneo, fazendo o percurso inverso em direção ao oceano Índico.

Em caso de bloqueio, a única alternativa, muito mais longa e dispendiosa, é contornar África pelo cabo da Boa Esperança.

Os Houthis já tinham tomado na quinta-feira o controlo da cidade de Moka, no mar Vermelho, no âmbito da ofensiva que lançaram na semana passada.

Testemunhas relataram ter visto combatentes a entrar na cidade portuária, situada a 70 quilómetros a norte do estreito, com palavras de ordem contra os Estados Unidos e Israel, inimigos declarados de Teerão.

Em comunicado, o comandante das forças governamentais do Iémen que controlavam Moka, Tarek Saleh, disse tratar-se de uma ofensiva “planeada e apoiada pelo Irão”.

A mesma fonte anunciou que os rebeldes também tomaram a ilha de Zuqar, a norte de Mayun.

Para tentar travar o avanço, a Arábia Saudita, país vizinho e aliado do Governo iemenita, realizou dezenas de ataques aéreos desde quarta-feira “com caças F-15 e Typhoon”, disseram os rebeldes.

Os Houthis controlavam grande parte do norte do Iémen, incluindo a capital, Sana, e a cidade portuária de Hodeida, a cerca de 200 quilómetros a norte de Moka, mas não dispunham de posições com acesso direto a Bab el-Mandeb.

Após anos de acalmia, o Iémen voltou a mergulhar na guerra em julho, arrastado pelo conflito regional desencadeado no final de fevereiro pela ofensiva norte-americana e israelita contra o Irão.

Na sequência da guerra, os Houthis anunciaram um bloqueio marítimo à Arábia Saudita, o maior exportador mundial de crude.

O estreito de Bab el-Mandeb tinha-se tornado uma rota alternativa vital para a Arábia Saudita desde o fecho do estreito de Ormuz

O grupo xiita visou igualmente navios petroleiros e infraestruturas do reino saudita, incluindo uma refinaria.

Ameaça ao comércio global

O líder do Conselho de Liderança Presidencial do Iémen alertou na quinta-feira que os avanços militares dos Houthis podem afetar a segurança do mar Vermelho, do Canal do Suez e o comércio global, enquanto os rebeldes afastam qualquer ameaça.

"Qualquer tentativa de alterar a situação militar perto de Bab al-Mandeb não pode ser considerada uma questão meramente iemenita. O estreito é uma via navegável internacional vital, e qualquer ameaça contra ele impacta diretamente o mar Vermelho, o Canal do Suez e o comércio global", afirmou Rashad al-Alimi.

Em comunicado divulgado após um encontro com o embaixador egípcio, Ihab Abu Saree, o líder do Governo iemenita internacionalmente reconhecido acusou os Houthis de avançarem ao longo da costa ocidental com "a participação de especialistas ligados à Guarda Revolucionária Islâmica do Irão e a grupos aliados".

Rashad al-Alimi afirmou que o Irão procura dar aos Huthis a capacidade de "influenciar" o estreito de Bab el-Mandeb e o mar Vermelho, de modo a que "a pressão sobre Teerão se desloque para a região, o comércio internacional e os mercados globais".

Os Houthis, por seu turno, garantiram que a navegação pelo mar Vermelho e pelo estreito de Bab al-Mandeb é "segura" e decorre normalmente após os seus avanços na costa oeste do Iémen.

"As operações em curso têm objetivos específicos, previamente anunciados, e são de natureza defensiva. Estas operações cessarão assim que a agressão contra o Iémen terminar e o bloqueio for suspenso", declarou no X o principal negociador e porta-voz dos rebeldes, Mohamed Abdulsalam.

O "bloqueio" a que os Houthis se referem são as restrições impostas desde 2015 pela coligação internacional liderada pela Arábia Saudita, que apoia o Governo iemenita reconhecido internacionalmente, em zonas sob controlo dos rebeldes, sobretudo portos e aeroportos.

No entanto, Abdulsalam afirmou que uma "paz real, justa e honrosa" continua a ser a opção estratégica dos Huthis e defendeu relações baseadas na boa vizinhança, no respeito mútuo e em interesses partilhados. E garantiu que os rebeldes não mantêm "qualquer ambição territorial em relação aos países vizinhos, árabes, islâmicos ou de qualquer outra natureza" e que "não iniciaram qualquer agressão contra qualquer nação".

Milhares de deslocados

Os confrontos da última semana causaram centenas de mortos em ambos os lados, maioritariamente combatentes, e cerca de 20.000 deslocados, de acordo com a Organização Internacional para as Migrações.

Os rebeldes lançaram ainda um ataque de grande escala contra a Arábia Saudita, disparando na quarta-feira vários mísseis balísticos e drones contra cidades no sul do país vizinho.

A situação motivou uma reunião de urgência do Conselho de Segurança da ONU na quinta-feira.

O enviado especial das Nações Unidas para o Iémen, Hans Grundberg, apelou ao envolvimento ativo” dos membros do conselho”para afastar o país daquele que pode ser o precipício para um conflito ainda mais perigoso”.

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