Homem que inspirou filme "Hotel Ruanda" condenado a 25 anos de prisão por terrorismo

Paul Rusesabagina era gerente do hotel que deu refúgio a mais de mil Tutsis e Hutus moderados para os salvar dos Hutus extremistas, durante o genocídio de 1994. Sentença foi conhecida esta segunda-feira.

Um tribunal ruandês condenou esta segunda-feira Paul Rusesabagina, o antigo gerente que inspirou o filme "Hotel Ruanda" sobre o genocídio de 1994 no país africano, "culpado" de crimes terroristas e condenou-o a 25 ans de prisão por crimes de terrorismo.

A Câmara do Supremo Tribunal para Crimes Internacionais e Transfronteiriços em Kigali declarou Rusesabagina, 67 anos, culpado de formar e financiar um grupo terrorista por liderar a Frente de Libertação Nacional (FLN), a ala armada do seu partido, o Movimento Ruandês para a Mudança Democrática (MRCD).

O antigo gerente, que deixou de comparecer em tribunal em março, com o argumento de que não iria receber um julgamento justo, foi preso a 31 de agosto no aeroporto internacional de Kigali, numa detenção que a sua família e advogados descrevem como um "rapto".

"Decidimos que o seu papel na criação do NLF, o seu fornecimento de fundos e a compra de telefones seguros para a sua utilização, tudo isto constitui o crime de cometer terrorismo. Considerámo-lo, portanto, culpado do crime de terrorismo", disse a juíza Beatrice Mukamurenzi, ao ler o veredicto.

Rusesabagina foi considerado culpado "in absentia" numa audiência que ainda não terminou e diz respeito a um caso conjunto em que está a ser julgado juntamente com 20 membros da FLN.

Por enquanto, resta saber que sentença o tribunal irá impor ao antigo gerente do hotel.

Os 20 suspeitos incluem dois antigos porta-vozes da FLN, Callixte Nsabimana e Herman Nsengimana, que se encontram sob custódia policial por ataques cometidos em 2018.

O antigo gestor foi alvo de nove acusações de terrorismo, incluindo a formação de um grupo armado irregular, pertença a um grupo terrorista e financiamento do terrorismo, bem como homicídio, rapto e assalto à mão armada, como um ato de terrorismo.

Rusesabagina foi gerente do famoso Hotel Thousand Hills, na capital ruandesa, e alojou mais de mil Tutsis e Hutus moderados para os salvar dos Hutus extremistas, durante o genocídio de 1994.

O antigo gestor tornou-se um adversário altamente crítico do presidente ruandês, Paul Kagame, e vivia no exílio entre a Bélgica e os Estados Unidos, onde criou uma fundação para promover a reconciliação a fim de evitar mais genocídios.

Estes eventos inspiraram mais tarde o filme "Hotel Ruanda", o que lhe trouxe um amplo reconhecimento mundial. Em casa, porém, foi criticado por muitos sobreviventes que o acusaram de explorar o genocídio em proveito pessoal.

O genocídio começou a 7 de abril de 1994, após o assassinato, no dia anterior, dos presidentes do Ruanda, Juvénal Habyarimana (Hutu), e do Burundi, Cyprien Ntaryamira (Hutu), quando o avião em que viajavam foi abatido sobre Kigali.

Os assassinatos (pelos quais o governo ruandês culpou os rebeldes Tutsi da Frente Patriótica Ruandesa de Kagame) desencadearam o massacre de cerca de 800.000 Tutsis e Hutus moderados em cerca de 100 dias, um dos piores assassínios étnicos da história recente.

Filha de Rusesabagina acusa presidente do Ruanda de decidir veredicto

O veredicto contra o líder da oposição ruandesa Paul Rusesabagina foi "decidido" pelo presidente Paul Kagame, disse uma das filhas do acusado, Carine Kanimba.

"Não me surpreende nada, esperávamos exatamente isso. Kagame raptou o meu pai, depois foi à televisão para dizer que tinha sangue nas mãos. Os juízes decidiram o que o ditador queria que eles decidissem", disse Carine Kanimba, citada pela agência France-Presse, pouco depois de a sentença ter sido anunciada.

Bélgica considera que não gouve julgamento justo

A ministra dos Negócios Estrangeiros belga considera que Paul Rusesabagina "não beneficiou de um julgamento justo e equitativo".

"Apesar dos repetidos apelos da Bélgica sobre este assunto, deve notar-se que o senhor Rusesabagina não recebeu um julgamento justo e equitativo, particularmente no que diz respeito aos direitos da defesa", disse Sophie Wilmès, através de uma declaração.

A ministra belga adianta que "a presunção de inocência não foi respeitada" e que "estes elementos de facto põem em causa o julgamento e a sentença"

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