O presidente do Líbano disse que já não há motivos para o Hezbollah, o movimento islamista apoiado pelo Irão, manter o seu braço armado. O comentário de Joseph Aoun — impensável há uns meses — dá-se depois de o Exército libanês ter anunciado a conclusão da primeira fase de desarmamento do grupo xiita, a sul do rio Litani, como previsto no acordo de cessar-fogo entre Líbano e Israel, em novembro de 2024, mas também no seguimento da visita do chefe da diplomacia iraniana a Beirute.Numa entrevista concedida ao canal público Télé Liban para fazer um balanço do primeiro ano de mandato na presidência, Aoun disse que “a situação que tinha aberto o caminho à existência de armas no Líbano desapareceu”, pelo que a presença do armamento tornou-se “um fardo na sua comunidade [do Hezbollah] e para o Líbano como um todo”. Ao que se dirigiu diretamente ao grupo apoiado por Teerão: “Chegou a hora de sermos razoáveis. Vocês têm ministros e deputados.” Segundo o site libanês Naharnet, o comentário de Aoun causou “raiva” entre as fileiras do Partido de Deus, enquanto publicamente observou que o presidente “falhou” na tentativa de se manter neutro quanto à questão das armas.Em setembro, o governo liderado por Nawaf Salam, antigo juiz do Tribunal Internacional de Justiça, aprovou um plano para as Forças Armadas libanesas desarmarem até ao final de 2025, o partido-milícia a sul do rio Litani, uma faixa de 30 km até à fronteira norte de Israel. No entanto, Israel, que mantém os bombardeamentos na região, diz que os esforços são insuficientes. Já o Hezbollah rejeita desarmar a norte do Litani. Argumenta que Telavive não está a cumprir a sua parte do acordo e acusa o governo de Netanyahu de ter um projeto expansionista para o sul do Líbano. Quando, na sexta-feira passada, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano visitou Beirute, Aoun apelou para que a comunidade internacional impedisse a entrada de armas no Líbano, exceto as destinadas ao Exército. Abbas Araghchi levou outros recados para Teerão. O primeiro-ministro Salam disse-lhe que a decisão de o Líbano declarar guerra ou paz pertence “em exclusivo ao governo”. E o seu homólogo, Youssef Rajji — que no mês passado recusou um convite para visitar o Irão — instou o iraniano a ter uma “nova abordagem” sobre a questão do desarmamento do Hezbollah. E perguntou se “Teerão aceitaria a presença de uma organização armada ilegal no seu território”.