O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, avisou esta quinta-feira (26 de fevereiro) que Cuba vai “defender-se com determinação e firmeza” contra qualquer “agressão terrorista e mercenária”, um dia depois de um incidente em águas territoriais da ilha. A Guarda Costeira matou quatro dos dez tripulantes de uma lancha rápida proveniente dos EUA que alegadamente não obedeceram às ordens para parar e abriram fogo. Havana denuncia uma tentativa de “infiltração armada” (foram apreendidas várias armas) com “objetivos terroristas”. Numa primeira reação ao incidente, que deixou o comandante da embarcação cubana ferido (além dos outros seis suspeitos), o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, disse não se tratar de uma operação dos EUA. Falou numa situação “extremamente invulgar”, defendendo a necessidade de os EUA avaliarem os factos com base em informações próprias. Havana avisou Washington antes de tornar público o que aconteceu. O incidente surge numa altura de tensão entre os dois países, depois de os EUA terem pressionado as autoridades venezuelanas (na sequência da operação militar que resultou na queda do presidente Nicolás Maduro) a deixar de enviar petróleo para a ilha. Sem este apoio e diante da ameaça de sanções contra os países que tentarem ajudar, a crise económica que Cuba vivia agravou-se ainda mais. Na quarta-feira (25 de fevereiro), entretanto, Washington aliviou um pouco o cerco, dizendo que vai permitir que empresas peçam autorização para vender petróleo venezuelano ao setor privado cubano, de forma a “apoiar o povo”. Mas os especialistas dizem que não será suficiente para ajudar a ilha em plena crise humanitária.“Cuba não agride nem ameaça. Já o dissemos em várias ocasiões e ratificamos hoje”, escreveu o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, numa mensagem no X. “Cuba defender-se-à com determinação e firmeza contra qualquer agressão terrorista e mercenária que procure minar a sua soberania e estabilidade nacional”, acrescentou, partilhando um artigo do Granma, o jornal oficial do Comité Central do Partido Comunista Cubano, com a identificação dos suspeitos.. Os seis tripulantes que ficaram feridos já foram identificados - assim como um dos mortos. São todos cubanos residentes nos EUA (Washington está a avaliar se algum deles era cidadão norte-americano), com o Ministério do Interior cubano a informar que “a maioria deles tem um historial conhecido de atividades criminosas e violentas”. Dois eram procurados pelas autoridades cubanas “pelo seu envolvimento na promoção, planeamento, organização, financiamento, apoio ou execução de atos terroristas em território nacional ou noutros países”. Michel Ortega Casanova é o suspeito morto já identificado, tendo a agência Associated Press falado com a família. Misael lamentou que o irmão, que vivia há mais de 20 anos nos EUA onde era camionista, se tivesse envolvido no que chamou de busca “obsessiva e diabólica” pela liberdade de Cuba. “Ninguém sabia, a minha mãe está devastada”, acrescentou, alegando que o irmão ficou “tão obcecado que não pensou nas consequências nem na sua própria vida.” Um dos feridos, Galindo Sariol, seria um antigo preso político, de acordo com um artigo do site Martí Notícias.As autoridades cubanas detiveram ainda um outro suspeito em Cuba, que alegadamente confessou ter sido enviado para a ilha para receber os homens e as armas que vinham na lancha (espingardas de assalto, pistolas, explosivos artesanais, coletes à prova de bala e miras telescópicas). A lancha está registada na Florida e foi apreendida a cerca de uma milha náutica da costa, na zona do canal El Pino, em Cayo Falcones, na província de Villa Clara. Os feridos estarão num hospital de Santa Clara (capital desta província), segundo a Reuters, cujos jornalistas encontraram um forte dispositivo de segurança.Numa escala muito mais pequena, este caso faz lembrar a falhada tentativa de invasão da Baía dos Porcos, em abril de 1961, pouco mais de dois anos depois da Revolução de 1959. Na altura, um grupo de exilados cubanos, treinados pela CIA e financiados pelos EUA, conseguiu desembarcar na Praia Girón, mas foram rapidamente travados. Sem apoio norte-americano - o plano tinha sido feito durante a presidência de Dwight Eisenhower, mas John F. Kennedy já tinha entretanto chegado à Casa Branca - mais de uma centena foram mortos pelas autoridades cubanas e 1200 acabaram por se entregar. Outro confronto entre Havana e os exilados cubanos ocorreu há 30 anos (o aniversário foi assinalado na última terça-feira). A Força Aérea cubana abateu dois aviões civis da organização Irmãos ao Resgate, matando quatro homens - as investigações concluíram que estavam em espaço aéreo internacional. Formada por pilotos voluntários, a organização de Miami sobrevoava o Estreito da Florida à procura de refugiados cubanos, já depois da crise dos balseros de 1994 durante a qual mais de 35 mil cubanos fugiram para os EUA.Três décadas depois, três congressistas republicanos que representam a Florida e uma de Nova Iorque (todos de origem cubana) escreveram uma carta ao presidente norte-americano, Donald Trump, defendendo que o caso volte a ser investigado. “Durante décadas, Raúl Castro [o irmão de Fidel era então ministro da Defesa] e os funcionários do regime que ordenaram este vil ataque esconderam-se atrás da proteção de uma ditadura brutal, escapando à justiça enquanto as famílias das vítimas eram deixadas a carregar a dor sozinhas. Agora temos uma hipótese real de corrigir esta injustiça histórica”, disseram. Raúl Castro tem hoje tem 94 anos..“Cuba sempre precisou de aliados externos para sobreviver. Hoje não tem mais nenhum"