"Vou começar a reconstruir a minha casa, tijolo por tijolo, parede por parede”, disse à estação de televisão árabe Al Jazeera um dos milhares de deslocados palestinianos que esta segunda-feira foram autorizados a regressar ao norte da Faixa de Gaza, conformado com o facto de a casa estar provavelmente destruída após 15 meses de guerra. Desde sábado que esperavam para cruzar o corredor de Netzarim, que corta o enclave ao meio, depois de Israel atrasar a autorização porque o Hamas violou o acordo de cessar-fogo ao não libertar uma refém civil, como estava previsto.A luz verde chegou contudo às primeiras horas da manhã desta segunda-feira, depois de o grupo terrorista palestiniano anunciar no domingo à noite (após negociações com o Qatar) que a refém, Arbel Yehoud, de 29 anos, será libertada já na próxima quinta-feira, junto com a última mulher militar ainda nas mãos do Hamas, Agam Berger, de 21 anos, e de uma terceira pessoa não identificada. Israel estava preocupado com Yehoud, que foi levada da sua casa no kibbutz de Nir Oz no ataque de 7 de outubro de 2023, porque ela está nas mãos da Jihad Islâmica Palestiniana, aliada do Hamas. A Jihad não considerava Yehoud uma civil, mas sim uma militar - daí, alegadamente, não ter sido libertada no último sábado. A diferença é importante, já que por cada mulher civil Israel tem que libertar 30 presos palestinianos, enquanto as militares são trocadas por 50 presos.A estação de televisão NBC tinha anunciado que o norte-americano Keith Seigel, de 65 anos, seria um dos libertados esta semana, não sendo claro se ele é o terceiro refém previsto para regressar a Israel já na quinta-feira ou se só o fará no sábado. A troca de reféns por mais prisioneiros palestinianos nas prisões israelitas que estava prevista para esse dia vai manter-se, devendo ser libertados mais três homens (suspeitando-se que outro refém com nacionalidade norte-americana, Sagui Dekel-Chen, de 36 anos, possa ser um deles). O Hamas anunciou entretanto que oito dos 26 reféns que ainda falta libertar nesta primeira fase do acordo de cessar-fogo estão mortos. A lista inicial incluía 33 nomes, tendo já sido libertadas sete mulheres. A indicação era que o grupo terrorista deveria ter revelado o estado de saúde de todos os reféns de forma individual logo no sábado, mas só terão divulgado esta segunda-feira o número de reféns já mortos - que coincide contudo com as informações que Israel já tinha, tendo as famílias sido informadas das suspeitas. O facto de Israel ter pressionado para a libertação de Yehoud sem fazer referência a Shiri Bibas (a outra civil ainda refém) e os seus dois filhos (o mais novo tinha apenas nove meses quando foi sequestrado nos ataques de 7 de outubro de 2023) faz suspeitar que estejam entre os mortos. O Hamas tinha anunciado no final da anterior trégua, em novembro de 2023, que tinham morrido num bombardeamento israelita - mas Israel nunca o confirmou. As Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) expressaram “grave preocupação” com estes três reféns no sábado. Duas vias de regressoOs primeiros deslocados chegaram à cidade de Gaza ainda de manhã, depois de a reabertura da estrada costeira que liga o sul ao norte logo às 7.00 locais (5.00 em Lisboa). Esta via só estava disponível para aqueles que faziam o regresso a pé. Três horas depois, os veículos foram autorizados a cruzar o corredor de Netzarim (de onde as IDF terão retirado totalmente) num posto de controlo mais afastado da costa. Duas empresas de segurança privadas norte-americanas são responsáveis por inspecionar os veículos, para garantir que não são transportadas armas ou explosivos. Contudo, não têm autorização para impedir ninguém de cruzar (nem mesmo os eventuais suspeitos de pertencerem ao Hamas). A fila de carros atingia vários quilómetros, mas o procedimento de inspeção era rápido, segundo indicaram testemunhas à agência Reuters.O Hamas considera o regresso dos civis ao norte “uma vitória” para os palestinianos que “marca o falhanço e a derrota dos planos de ocupação” israelitas. Isto numa altura em que o presidente norte-americano, Donald Trump, sugeriu enviar os palestinianos para a Jordânia e o Egito de forma a “limpar” a Faixa de Gaza. Uma proposta rapidamente abraçada pela extrema-direita israelita e criticada pelos países árabes e ocidentais.Para muitos, o regresso representa mesmo uma vitória, antes de mais porque complica um eventual retomar dos combates caso os 42 dias da primeira fase do acordo de cessar-fogo terminem sem que tenha sido possível negociar a próxima fase - a delegação do Hamas já está no Cairo para a nova ronda de diálogo. “Quer o cessar-fogo seja bem sucedido ou não, nunca mais vamos deixar a cidade de Gaza e o norte outra vez, mesmo se Israel envie um tanque para cada um de nós. Sem mais deslocações”, indicou à Reuters um dos deslocados palestinianos que regressou a casa. susana.f.salvador@dn.pt