A família de Oyo Nyimba Rukidi IV diz que tinha um filho, mas o rei nunca reconheceu um herdeiro em vida.
A família de Oyo Nyimba Rukidi IV diz que tinha um filho, mas o rei nunca reconheceu um herdeiro em vida. FOTO:DR/Instagram TooroKingdom

Guerra da sucessão no Uganda: o futebolista, o apresentador de televisão e o filho secreto

Oyo Nyimba, conhecido como o "rei mais novo do mundo", morreu a 27 de agosto, aos 34 anos. Tinha subido ao trono do reino tradicional de Tooro em 1995, com apenas três anos. Quem lhe vai suceder?
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Quem vai suceder a Oyo Nyimba Kabamba Iguru Rukidi IV no trono do reino tradicional de Tooro? Duas semanas após a morte do monarca ugandês, aos 34 anos, enquanto recebia tratamento contra um cancro nos EUA, a resposta continua a ser incerta.

Em poucos dias surgiram três potenciais candidatos à sucessão daquele que ficou conhecido como o "rei mais novo do mundo", tendo assumido o trono com apenas três anos em 1995: um guarda-redes do 9.º escalão do futebol inglês, um apresentador da televisão pública do Uganda e um alegado filho do rei cuja existência só foi revelada após a sua morte.

A crise começou quando os anciãos do clã real Babiito identificaram como candidato preferencial à sucessão George Desmond Kamurasi, guarda-redes e capitão dos SE Dons, equipa da 9.ª divisão inglesa do sudeste de Londres.

Primo de Oyo e descendente da linhagem real de Tooro, Kamurasi passou grande parte da vida no Reino Unido. A sua história pessoal atraiu a atenção dos meios de comunicação.

Em entrevistas e vídeos divulgados nas redes sociais, Kamurasi relatou uma adolescência difícil após a morte da mãe, que o levou a envolver-se em problemas que culminaram numa pena de prisão.

Mais tarde, afirmou ter reconstruído a vida através do futebol. "Percebi que tudo o que tinha feito era culpa minha. Assumi a responsabilidade", recordou.

Apesar de ter sido apontado como favorito e de alguns órgãos de comunicação social terem mesmo avançado que seria o próximo rei, Kamurasi recusou o cargo.

Segundo o comité sucessório, alegou ter outras responsabilidades que o impediam de assumir a função.

"Depois de avaliarmos os candidatos, numerámo-los. Tínhamos prioridade um, prioridade dois e prioridade três. Depois disso, contactámos cada um deles individualmente. O primeiro disse: 'Não, tenho responsabilidades e não posso ser rei'. O seguinte aceitou a responsabilidade e demos-lhe a oportunidade de ser o nosso próximo rei", explicou um dos membros do comité.

A segunda escolha dos anciãos é o príncipe Edward Rukidi Kijanangoma. O primo do falecido rei é apresentador da Uganda Broadcasting Corporation (UBC) e a sua escolha parecia encerrar o debate. Mas foi imediatamente contestada pela família mais próxima do falecido monarca.

Horas depois do anúncio, a irmã do rei, a princesa Ruth Komuntale, declarou que o testamento de Oyo previa outra solução: a sucessão por um filho biológico do soberano.

“Declaro e determino, por este meio, que, se à data da minha morte deixar um filho legalmente reconhecido como meu filho biológico, nomeio-o meu herdeiro para o trono do reino de Tooro”, diz o testamento do monarca, de setembro de 2022.

O problema é que não é conhecido nem o nome nem a idade do alegado herdeiro. Oyo nunca casou nem reconheceu qualquer filho durante a sua vida, e a existência do alegado príncipe só foi mencionada no momento do anúncio da sua morte.

"A continuidade da coroa está assegurada. Sua majestade deixa como herdeiro um príncipe, cuja identidade será formalmente revelada no momento oportuno, em conformidade com as tradições e costumes do Reino de Tooro", escreveu no X o primeiro-ministro do reino, Calvin Armstrong Rwomiire Akiiki.

O jornalista ugandês Andrew Mwenda, parente da família real, questionou publicamente a falta de provas sobre a existência do rapaz e recordou que as regras tradicionais de sucessão podem não coincidir necessariamente com a vontade expressa num testamento.

Entretanto, a mãe do falecido rei, a rainha-mãe Best Kemigisa, acusou um "grupo autoproclamado de membros do clã" de ter avançado com a escolha de um novo soberano apesar de já conhecer o conteúdo do testamento.

Acusou também os militares ugandeses de interferirem no processo sucessório. Num comunicado, citado pela agência Reuters, alegou que os guardas reais foram retirados do palácio sem aviso prévio e que a família estava "em prisão domiciliária". A acusação não foi confirmada pelas autoridades.

"O processo deve decorrer de forma calma e credível", apelou também o primeiro-ministro do reino, procurando evitar um confronto aberto entre as facções.

A disputa está a ser acompanhada pelo presidente ugandês, Yoweri Museveni, no poder desde 1986. Foi sob a sua presidência que as monarquias tradicionais foram restauradas, em 1993.

Embora estes reinos tradicionais não tenham funções políticas formais, continuam a exercer influência social e cultural significativa no Uganda e a manter uma relação estreita com o Estado.

O próprio Museveni esteve ligado a momentos importantes do reinado de Oyo, incluindo as celebrações da sua ascensão ao trono, e descreveu a sua morte como "uma grande perda para o povo de Tooro e para o Uganda".

Quem foi Oyo Rukidi IV?

Oyo Rukidi IV tornou-se rei de Tooro em setembro de 1995, aos três anos de idade, após a morte do pai, Patrick David Matthew Kaboyo Olimi III.

Alguns membros do clã defendiam que um adulto deveria suceder ao rei falecido, mas Oyo acabou por prevalecer e manteve a coroa, tornando-se um símbolo da restauração das monarquias tradicionais.

Até completar 18 anos, em 2010, o reino foi administrado por regentes.

Embora os reinos tradicionais não tenham poder político formal, Oyo procurou projetar a instituição para além do seu papel cerimonial, associando-se a campanhas de educação, saúde pública e desenvolvimento comunitário.

Uma das causas que mais promoveu foi o combate ao VIH/Sida. Foi embaixador de boa vontade das Nações Unidas e participou regularmente em iniciativas de sensibilização para a doença, sobretudo entre os jovens. Também apoiou programas ligados ao ambiente e à conservação da natureza.

O site oficial do reino descreve o seu legado como um período de promoção da unidade, da preservação das tradições e da aproximação entre Tooro e parceiros internacionais.

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