Com a guerra a passar as fronteiras do Irão, a atingir o Líbano e, em menor medida, o Iraque, o presidente dos Estados Unidos modulou a mensagem dos dois dias anteriores quanto aos objetivos da Operação Fúria Épica, a sua duração e inclusive o seu formato, admitindo agora que a guerra não se limite à intervenção aérea. Do lado iraniano, chegou o desmentido de que a nova liderança esteja interessada em conversar com Donald Trump, e avisou estar preparada para uma “guerra longa”.A milícia xiita Hezbollah tinha prometido responder ao assassínio do guia supremo iraniano e reivindicou ter lançado, na noite de domingo para sábado, os primeiros drones e mísseis em direção a Israel desde o acordo de cessar-fogo entre aquele país e o Líbano, em novembro de 2024 — isto apesar de o lado israelita não o ter cumprido. Em resposta aos disparos do grupo armado patrocinado pelo Irão, o exército israelita ordenou aos habitantes de mais de 50 localidades libanesas para se retirarem. Feito o aviso, e com milhares em fuga, os subúrbios a sul de Beirute e o sul do país foram alvo de ataques aéreos. Ao fim do dia, um balanço das autoridades libanesas apontava para 52 mortos, 154 feridos e 29 mil deslocados. Entre os mortos, de acordo com Telavive, figura o homem que chefiava o serviço de informações do Hezbollah, Hussein Makled. Segundo as forças israelitas, além de responsável pela recolha de informação sobre as tropas de Israel, “cooperava de perto com comandantes seniores do Hezbollah que planeavam e promoviam ataques terroristas contra Israel e os seus cidadãos”. Outro morto identificado por Israel e confirmado pela Jihad Islâmica, era o até agora comandante das brigadas Al-Quds no Líbano, Adham al-Othman. Dez delegações da popular instituição financeira Al-Qard al-Hassan, que Israel acusa de ser o braço económico do Hezbollah, foram também alvo no primeiro dia de bombardeamentos, quer a sul de Beirute, quer no sul do país. Foi também nesta faixa que terão sido atingidos 70 depósitos de armas e locais de lançamento de foguetes. “Vamos concluir esta campanha não apenas atingindo o Irão, mas também desferindo um golpe devastador ao Hezbollah”, assegurou o chefe do Estado-Maior das forças israelitas, Eyal Zamir, junto de tropas estacionadas no norte de Israel.À exceção do Hezbollah, os outros partidos libaneses condenaram o ataque em direção a Haifa, que resultou no contra-ataque israelita. O primeiro-ministro Nawaf Salam disse que a decisão da guerra e da paz cabe em exclusivo às instituições legítimas, pelo que exigiu “a proibição imediata de todas as atividades de segurança e militares do Hezbollah por serem ilegais, obrigando-o a entregar as suas armas ao Estado libanês”. Salam ordenou às forças de segurança e ao exército para tomarem “medidas imediatas” para prevenir “qualquer operação militar ou o lançamento de mísseis ou drones a partir do território libanês”. Os embaixadores do chamado quinteto (Arábia Saudita, Egito, Estados Unidos, França, Qatar) vão reunir-se nesta terça-feira com o presidente libanês Joseph Aoun para analisarem a hipótese de um cessar-fogo. Porém, o general israelita Zamir avisou que esta nova frente pode durar “muitos dias”. Segundo o Haaretz, o ministro da Defesa Israel Katz disse que o líder do Hezbollah Naim Kassem vai “acabar no fundo do inferno como Ali Khamenei”. Pouco depois de suceder ao assassinado Hassan Nasrallah, em 2024, foi noticiado que Kassem terá procurado refúgio em Teerão. .Dilema das monarquias do Golfo: retaliar e parecer estar ao lado de Israel ou não reagir.No Iraque, um grupo de milícias xiitas alinhadas com o Irão reivindicou disparos e ataques de drones contra bases americanas no Curdistão iraquiano, bem como junto do aeroporto da capital, e tentou penetrar na zona de segurança em torno da embaixada norte-americana em Bagdade. Em resposta, as forças dos EUA terão matado dez operacionais das milícias em três locais. O primeiro-ministro do governo em gestão Mohammed Shia al-Sudani assumiu a pasta da Defesa e ordenou às forças de segurança para impedirem “qualquer ato que possa minar a segurança e a estabilidade” dado o aumento de ataques por facções apoiadas pelo Irão.Um mês ou uma guerra longaO regime iraniano respondeu às declarações da véspera de Donald Trump, segundo as quais dirigentes iranianos queriam entabular conversações consigo, tendo inclusive dito estar disponível para as mesmas. Através da rede X, o secretário do conselho supremo de segurança nacional rejeitou qualquer conversação com a administração norte-americana. “Não iremos negociar com os Estados Unidos”, declarou Ali Larijani. O mesmo dirigente recordou que o seu país não iniciou qualquer guerra nos últimos 300 anos, e que, “ao contrário dos EUA, preparou-se para uma guerra prolongada”. Também no domingo, o presidente dos EUA disse esperar que a operação militar dure no máximo até quatro semanas. Na segunda-feira, já disse de “quatro a cinco semanas” para depois dizer que demorará “o tempo que for preciso”. Essa ambiguidade — estratégica ou não — também o levou a afirmar que não afasta a hipótese de que a guerra se expanda com soldados no terreno quando o número de militares dos EUA mortos sobe para seis. Segundo os militares dos EUA, foram atingidos 1250 alvos até agora, mas Trump advertiu que a “grande onda” de ataques está por iniciar. Os objetivos da operação já não são bem os mesmos: no sábado, disse que queria a “mudança de regime”; agora quer “destruir a capacidade de mísseis do Irão”, “aniquilar a sua marinha”, e garantir que o Irão “nunca possa obter uma arma nuclear”. Em paralelo, o secretário da Guerra, Pete Hegseth, anunciou o envio de reforços, aos “milhares, de todos os ramos”, para a região..Dilema das monarquias do Golfo: retaliar e parecer estar ao lado de Israel ou não reagir.Irão: “Não se esperam cortes de abastecimento de energia, mas Portugal vai apanhar por tabela com o aumento dos preços”