"França está em declínio. Valérie Pécresse tem o carácter e competências certas para ser presidente"

Senador dos franceses que vivem fora da França desde 2017, Ronan Le Gleut veio a Portugal explicar o projeto da candidata do Les Républicains com vista às presidenciais de abril. Diz que França está pronta para ter a primeira mulher no Eliseu: um bom sinal para o mundo.

O presidente Emmanuel Macron anunciou finalmente a candidatura às presidenciais. Esperar tanto foi boa estratégia ou pode virar-se contra ele?
Apetece-me dizer: "Enfim!" Era tempo que o presidente cessante entrasse na campanha. Por uma razão simples, é que a democracia precisa de debate. Não podemos escamotear a democracia. A eleição presidencial está próxima e o debate democrático tem de acontecer. Porque é indispensável para a legitimidade daquela - espero - ou daquele que vai presidir a França durante cinco anos. Não podemos fingir que vamos passar por cima da eleição presidencial, é o momento democrático mais importante para França.

Diz "aquela" que vai governar França. Estamos a falar de Valérie Pécresse, a candidata do seu partido, Les Républicains. Pécresse fez uma entrada fulgurante na campanha, mas tem caído nas sondagens. É difícil fazer campanha contra um presidente em exercício no contexto de uma guerra na Ucrânia?
Não é só a guerra mas também a pandemia, que continua nas mentes e na organização do nosso país. Como eu disse, estava na altura de termos um debate democrático. E este não podia começar sem um dos protagonistas, que é o presidente cessante, que hoje é antes de mais um candidato entre os outros. Não se pode prometer fazer em cinco anos o que não se fez nos cinco anteriores. Por isso é importante que haja um debate sobre o balanço [do mandato] e sobre o seu projeto. Quanto ao balanço, o senhor Macron não pode ser credível a prometer fazer agora o que não fez durante cinco anos. Temos um país que não foi reformado, quando França precisa de o ser. Valérie Pécresse tem um projeto de reformas - tanto para aumentar o poder de compra, que é uma enorme preocupação dos franceses, como nas questões de segurança, porque a delinquência explodiu em França, mas também nas questões económicas. Pela primeira vez da nossa História o comércio externo de França baixou em 85 mil milhões. É um indicador da competitividade de França. Por todas estas razões, não podemos confiar em alguém que teve tão maus resultados. Enquanto Valérie Pécresse tem resultados para apresentar. Foi ministra do Ensino Superior, tendo sido responsável por uma das grandes reformas do mandato de Nicolas Sarkozy: a autonomia das universidades. Vemos hoje nos rankings internacionais que as universidades francesas estão mais bem colocadas do que no passado. Isso é em grande parte graças a esta reforma. E como presidente da região Île-de-France, Pécresse também teve resultados, por isso foi reeleita de forma triunfal no ano passado. Podemos confiar em Valérie Pécresse porque em todas as funções que ocupou, obteve resultados tangíveis e concretos.

Como candidata de Les Républicains, partido da direita tradicional, um dos grandes desafios de Valérie Pécresse será não afastar os eleitores mais moderados mas conquistando os mais à direita?
Não é difícil encontrar esse equilíbrio. O que importa é levar os franceses a aderir a um projeto, com propostas concretas de aumento do poder de compra. Valérie Pécresse tem em cima da mesa propostas nesse sentido. Porque hoje os franceses sentem que o seu poder de compra está a baixar. A segurança também é uma questão fundamental. Há bairros inteiros de França que são "zonas de não-direito", "zonas de não-França". Por isso há uma necessidade de reconquista republicana. Mais uma vez Valérie Pécresse apresenta medidas fortes. É preciso que os franceses vivam melhor, precisam de mais segurança na rua, precisam de mais poder de compra. Este é o projeto, não é uma questão de posicionamento.

A pandemia vem dificultar a execução destes projetos?
Acredito que vamos sair em breve da pandemia. Mas é preciso tirar consequências do que aconteceu, nomeadamente da desorganização dos nossos hospitais. Estou a falar de um sistema kafkiano de hiper-administração. Precisamos de hospitais com mais pessoal de saúde e menos administrativos.

Acha que a pandemia pode servir de justificação para o presidente Macron não ter avançado com algumas reformas e projetos?
Houve muita falta de preparação, muita tentativa e erro e podemos mesmo dizer, num primeiro momento, falta de profissionalismo. O debate em França sobre o uso da máscara, visto agora com um certo recuo, é totalmente surreal.

França já teve duas mulheres na segunda volta das presidenciais - Ségolène Royal em 2007 e Marine Le Pen em 2017 -, mas nunca teve uma presidente. O momento chegou?
Chegou a hora! Com Valérie Pécresse temos alguém que tem experiência como ministra, é presidente de uma região, foi deputada. Portanto está preparada para a função. É importante, porque estamos a falar de presidir a uma das principais potências do mundo, um país com atributos de poder consideráveis, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, que dispõe de meios de dissuasão [nucleares]. Portanto é preciso alguém que esteja preparado para lhe presidir. E essa é uma característica de Valérie Pécresse: está preparada para exercer a função. Acho que chegou o momento de França ter uma presidente. Será ao mesmo tempo benéfico para o país, para a imagem que tem dele próprio, mas também para a imagem de França no mundo.

Marine Le Pen tenta de novo chegar à presidência depois de ter sido derrotada na segunda volta há cinco anos. A entrada na corrida de Éric Zemmour, outro candidato da extrema-direita, veio baralhar as contas da campanha e pode prejudicar a líder do Rassemblement National (ex-Frente Nacional)?
Há um ano Zemmour foi uma surpresa, mas hoje estamos numa nova fase da campanha. E as declarações da senhora Le Pen e do senhor Zemmour - mas também, na extrema-esquerda, do senhor Mélenchon - que durante anos e anos tiveram palavras de elogio em relação ao presidente russo, Vladimir Putin, desqualificam os extremos. Esta posição constante, assumida durante dezenas de anos, de glorificar na extrema-direita da personalidade e dos atos de Vladimir Putin são hoje elementos que desqualificam os candidatos Zemmour e Le Pen. A senhora Le Pen até retirou um folheto impresso a mais de um milhão de exemplares em que surgia numa fotografia ao lado do senhor Putin. Já para não falar nas declarações elogiosas, para não dizer de admiração, do senhor Zemmour em relação ao senhor Putin, garantindo que a Rússia era mais confiável do que a Alemanha. [Com a invasão russa da Ucrânia] a situação mudou. Isto desqualifica-os.

À esquerda francesa chega à campanha completamente fragmentada. Depois de se ter ficado pelos 6% em 2017, o Partido Socialista francês está condenado a desaparecer ou ainda pode recuperar o seu lugar na esquerda tradicional?
O Partido Socialista que deu a França dois presidentes na V República - François Mitterrand e François Hollande - nunca esteve tão fraco em toda a sua história como agora. Mas continua muito bem implantado à escala local. Quer se trate de presidentes de Câmara ou de presidentes de regiões. Por isso é preciso distinguir a posição nacional do Partido Socialista, hoje de facto enfraquecida, da situação nas regiões, nos departamentos e municípios, onde continua a ser um partido muito implantado.

Conhece bem Valérie Pécresse, trabalha com ela. O que podemos esperar de França nos próximos cinco anos se ela ganhar?
Uma recuperação. Os franceses sentem-no: França está em declínio e tem sofrido uma desclassificação. Tanto a nível do país como na comparação internacional. Com, por vezes, momentos de humilhação. Como foi o caso dos submarinos na Austrália [Camberra comprometeu-se em 2016 a comprar 12 submarinos franceses por 34 mil milhões de euros, mas em setembro de 2021 anunciou o fim deste contrato, entregando a encomenda aos EUA]. Esta desclassificação temos de a parar. E não vai ser o presidente cessante, agora candidato, que não travou o declínio de França, quem pode hoje pretender fazê-lo. É preciso outra pessoa, alguém competente, que sempre conseguiu os seus objetivos, que tem conhecimentos do contexto internacional, para iniciar esta recuperação. Esta passa por recuperar o orgulho francês, o gosto pelo esforço, conseguir que as nossas empresas sejam mais competitivas, que França volte a ser conquistadora, que volte a erguer a cabeça. Temos de conseguir que o nosso sistema de educação volte a ensinar de forma correta. Neste momento baixámos em vários rankings, como por exemplo na matemática. Já falei do poder de compra. Há todo um programa de relançamento que pertence a Valérie Pécresse. E ela tem o carácter e as competências certas. É uma mulher com uma determinação sem falhas, a quem não treme a mão e que sempre conseguiu os seus objetivos.

É senador dos franceses a viver fora de França. É importante esta campanha nos vários países?
É uma campanha junto dos franceses de Portugal e, no geral, junto dos franceses no exterior - 1,6 milhões de franceses vão participar nas presidenciais a partir do estrangeiro. São franceses de pleno direito, mesmo se muitas vezes se sentem franceses "à parte". O que estamos aqui a fazer é a explicar qual o programa específico de Valérie Pécresse para quem vive no estrangeiro. Porque eles fazem parte dos destinos nacionais, não estão fora da república. Não é apenas um discurso para os 15 mil franceses que vão participar nas presidenciais aqui em Portugal, mas também para todos os franceses no estrangeiro. Valérie Pécresse está atenta aos franceses no estrangeiro. Pela primeira vez na história das presidenciais organizámos um Zoom aberto aos franceses no estrangeiro. E mais de mil participaram num encontro com Pécresse em que ela teve oportunidade de explicar - comigo e com Michel Barnier [ex-ministro e ex-negociador da UE para o Brexit] - o seu programa. Muitos franceses que vivem no estrangeiro querem escolarizar os filhos nos liceus franceses, mas é caro. Queremos baixar os preços da escolaridade no estrangeiro, revendo o sistema de bolsas. Os franceses no estrangeiro querem que os consulados funcionem, querem mais cônsules honorários. Queremos também rever a fiscalidade que se aplica aos franceses no estrangeiro e que é desfavorável. Queremos rever as questões de segurança. Por todas estas razões Valérie Pécresse tem um programa específico para os franceses no estrangeiro. É a única candidata a ter um. Esta é uma oportunidade, aqui em Lisboa, com a comunidade, com o Laurent Goater [conselheiro dos franceses em Portugal e candidato de Les Républicains na Península Ibérica nas legislativas], que está a fazer um trabalho fantástico, e com a Françoise Feunteun Conestabile [conselheira consular] de dar estas explicações.

Nas eleições portuguesas a abstenção é muito grande no voto no estrangeiro, sente que os franceses no estrangeiro estão envolvidos?
Nas presidenciais, a taxa de participação é a mais elevada, é a principal eleição na democracia francesa. É verdade que a participação é menor do que nos franceses de França, mas há motivos práticos. Alguns franceses vivem a mil km da assembleia de voto. Mas mesmo que se viva a 200 km do consulado mais próximo, são 400 km ida e volta. Para um idoso, por exemplo, sabendo que pode ter uma fila de espera de uma hora para votar, não é um pequeno esforço. Temos de relativizar a taxa de participação. Não é falta de interesse. As condições para votar não são comparáveis com o que acontece em França em que a assembleia de voto é muito próxima do local de residência.

Não há voto por correspondência?
Não nas presidenciais. Mas para a eleição dos deputados dos franceses no estrangeiro, que se vai realizar em junho, o voto pode ser feito por internet.

A comunidade portuguesa está muito bem integrada em França, mas envolve-se na política?
É uma comunidade extraordinariamente bem integrada e amada pelos franceses. E vê-se isso no número de eleitos que há nos municípios, nos conselhos departamentais, nos conselhos regionais que têm um apelido português. Estão muito bem representados na República, muito bem integrados. Em volta de Valérie Pécresse, no quartel-general da campanha, há muitos franco-portugueses.

A imagem da comunidade portuguesa mudou muito nos últimos anos?
Mudou. E a prova são estes eleitos. Presidentes de câmara, adjuntos do presidente de câmara, com origens portuguesas ou franco-portugueses. Quando se vota em alguém é porque temos admiração, respeito, confiamos nessa pessoa. É o melhor símbolo dessa integração e sucesso.

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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