Flávio Bolsonaro, pré-candidato de extrema-direita à presidência do Brasil nas eleições de outubro, pode vir a desistir da corrida. O principal rival de Lula da Silva, segundo as sondagens, foi apanhado em gravações a pedir o equivalente a 10,2 milhões de euros a Daniel Vorcaro, o banqueiro detido em março por fraude no Banco Master e a figura mais tóxica da política brasileira da atualidade, para o financiamento de um filme sobre o pai, Jair Bolsonaro. Um ex-ministro de Bolsonaro, entretanto, até já lançou o nome de Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama, como plano B. O escândalo que atingiu o senador foi divulgado pelo site The Intercept Brasil ao início da noite, no horário de Lisboa, de quarta-feira, 13. Nas conversas telefónicas, algumas mantidas na véspera de Vorcaro ser detido pela primeira vez em setembro passado por fraude multimilionária no Banco Master, que o próprio fundou, Flávio e Vorcaro tratam-se por ‘irmão” e combinam o pagamento, do segundo ao primeiro, de 61 milhões de reais, cerca de 10,2 milhões de euros, para a produção de Dark Horse, um filme sobre o ex-presidente com o ator americano Jim Caviezel no principal papel.“Irmão, estou e estarei sempre contigo”, diz às tantas Flávio a Vorcaro, acusado pela polícia e pelos tribunais de ser líder de uma organização criminosa que envolveu pagamentos avultados a altas figuras de Brasília, como, por exemplo, Ciro Nogueira, presidente do influente partido Progressistas, ex-ministro de Bolsonaro e visto como candidato a “vice-presidente ideal” de Flávio pelo próprio senador. Noutra ocasião, Flávio sugere a Vorcaro um jantar com Caviezel em São Paulo. Por falta de pagamento, Flávio pede então num áudio longo a Vorcaro que pague com urgência o prometido. “(...) ‘Tá num momento muito decisivo aqui do filme e tem muita parcela para trás, cara, ‘tá todo o mundo preocupado aqui com o efeito contrário do que a gente sonhou para o filme, né? (...) imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus [Nowrasteh, realizado do filme] (...) todo o efeito positivo que a gente tem a certeza que vai vir com esse filme pode ter o efeito elevado a menos um”. Confrontado por um repórter do The Intercept sobre o envolvimento de Vorcaro no financiamento de Dark Horse a meio da tarde de quarta-feira, ainda antes dos áudios serem divulgados, Flávio Bolsonaro começou por gargalhar. “Mentira!”, reagiu em seguida.Horas depois publicou um vídeo em que admite a veracidade dos áudios mas sublinha que era apenas um filho a tentar pagar um filme sobre o pai com dinheiro privado. No total, o filme terá custado 134 milhões de reais, 61 dos quais pagos por Vorcaro – como medida de comparação, os filmes brasileiros Ainda Estou Aqui, vencedor de um Óscar em 2025, custou 45 milhões, e Agente Secreto, nomeado a quatro estatuetas este ano, 28 milhões. O caso, entretanto, caiu como uma bomba no quartel-general de Flávio, até então a lidar apenas com notícias positivas, como o empate técnico com Lula nas sondagens e a rejeição histórica no Senado do indicado pelo atual presidente para o Supremo Tribunal Federal, por influência do próprio Flávio. “Ninguém sabia o que fazer”, disse reservadamente um membro da equipa do candidato ao jornal O Globo, sobre reunião após o caso.E Ricardo Salles, que foi ministro do Ambiente, chegou a escrever num grupo de WhatsApp, a que a revista Veja teve acesso, que “se [a candidatura] começar a perder tração, o melhor é colocar a Michelle”, referindo-se a Michelle Bolsonaro, ex-primeira dama e madrasta de Flávio. A opção, porém, não parece unânime porque um interlocutor de Salles naquele grupo responde “aí eu já prefiro que o Lula ganhe” e outra responde “socorro”.Os outros candidatos de direita competitivos, Romeu Zema e Ronaldo Caiado, ex-governadores de Minas Gerais e Goiás, comentaram o escândalo. Para o primeiro, que também chegou a ser especulado como vice de Flávio, o caso “é uma bofetada na cara do Brasil”, reação que deve levar ao rompimento entre as partes. O segundo pediu “clareza”.Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e preferido de largos setores da direita mas que está impedido de avançar porque era obrigado por lei a desvincular-se do cargo estadual até abril, não comentou o caso.Já Fernando Haddad, ex-ministro das Finanças e candidato ao governo de São Paulo contra Tarcísio, disse “eu avisei”, referindo-se a uma declaração sua de setembro em que previa que o caso Master iria revelar “quem, de facto, rouba o Brasil”. Lindbergh Farias, líder parlamentar do PT, partido de Lula, pediu a prisão do senador, e Guilherme Boulos, ministro da Presidência, lembrou que “uma semana após Flávio dizer que o Banco Master está ligado ao PT, vaza um áudio dele a cobrar milhões a Vorcaro, a terra plana não gira, capota”. No mercado, o dólar subiu como reação às revelações. Já o escândalo Master, investigado pela polícia federal, teve uma nova operação nesta quinta-feira, 14, que resultou na prisão de Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, e de “espiões” dentro da polícia que iam informando a organização criminosa das ações das autoridades. .Jair e Flávio Bolsonaro. Descubra as diferenças entre os candidatos