As autoridades líbias abriram uma investigação à morte do filho do falecido líder Muammar Kadhafi, que segundo o advogado foi morto a tiro por um “comando de quatro pessoas” na sua casa em Zintan. Saif al-Islam Kadhafi tinha 53 anos e era visto como herdeiro e sucessor do pai. Quando o regime caiu, após mais de 40 anos no poder, esteve preso e na clandestinidade, antes de lançar em 2021 a corrida à presidência. Essas eleições foram adiadas e nunca chegaram a acontecer, com a Líbia dividida entre dois governos rivais. Nascido em junho de 1972 em Trípoli, o segundo filho de Kadhafi estudou em Londres e era visto como o rosto reformista do regime. Determinado a livrar a Líbia do seu estatuto de Estado pária, procurou dialogar com o Ocidente e defendeu uma constituição e o respeito pelos direitos humanos. Apesar de não ter um cargo oficial no regime do pai, liderou as negociações para que a Líbia abandonasse as suas armas de destruição maciça e negociou indemnizações para as famílias das 270 vítimas do atentado contra o voo 103 da Pan Am, sobre Lockerbie (Escócia), em 1988.Mas quando a Primavera Árabe chegou à Líbia em 2011, rapidamente se colocou ao lado do pai, prometendo um “rio de sangue” no início da revolução.Acabaria por ser acusado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) de crimes contra a humanidade. Detido quando tentava fugir para o Níger, já depois do assassinato do pai às mãos dos rebeldes em outubro de 2011, Saif al-Islam foi condenado à morte em 2015 pelas autoridades que então controlavam Trípoli, mas acabou por beneficiar de uma amnistia em 2017. .Muammar Kadhafi está morto.Até ao anúncio da sua morte não se sabia onde estava, suspeitando-se que tenha ficado sempre em Zintan (onde esteve preso) sob a proteção de uma milícia local. Em 2021, anunciou a candidatura à presidência. Uma candidatura polémica para muitos, que no final foi mais um grão de areia na engrenagem que acabou por levar ao adiamento das eleições tanto presidenciais como legislativas.Desde a queda de Kadhafi, a Líbia tem lutado para recuperar a estabilidade. Duas administrações rivais disputam o poder: o Governo de Unidade Nacional, sediado em Trípoli e liderado por Abdul Hamid Dbeibah, reconhecido pela ONU; e uma administração em Benghazi (no leste do país), controlada pelo marechal Khalifa Haftar e pelos filhos, que expandiram a sua presença militar para o sul.Após a morte de Saif al-Islam, o chefe do conselho presidencial (órgão que deveria ser neutro e representar as três principais regiões da Líbia), Mohamed Menfi, instou “as forças políticas, os meios de comunicação social e outros atores a exercerem moderação no discurso público” e a “aguardarem o resultado” da investigação. O receio é que o caso possa incendiar a situação no país.