Fatah vs. Hamas e um sobrinho de Arafat nas eleições palestinianas

Ano de eleições históricas começa em 22 de maio para o parlamento. Fatah do presidente Mahmud Abbas está enfraquecida com o surgimento de novas fações.

Termina hoje o prazo para qualquer eleitor palestiniano apresentar uma queixa sobre a composição das listas de candidatos às eleições legislativas que decorrem dentro de mês e meio, após um interregno democrático iniciado em 2006. Há neste momento 36 listas, das quais 29 compostas por independentes, num total de 1391 candidatos aos 132 lugares do parlamento. A diversidade de oferta poderá dar azo a algumas surpresas, mas a competição joga-se entre os dois velhos rivais Fatah, o partido secular do presidente Mahmud Abbas, e o islamista Hamas, que controla a Faixa de Gaza desde 2007, um ano depois de ter ganho as legislativas, com a nova formação Liberdade a lutar por um lugar no topo.

O processo eleitoral numa Palestina sem soberania, cujo território continua a ser colonizado por Israel, e com um presidente cujo mandato expirou em 2009, resulta de negociações entre a Fatah e o Hamas. As reuniões decorreram na Turquia, cujo regime é apoiante do movimento islamista a par do Qatar, do Irão, e do movimento Irmandade Muçulmana, enquanto a União Europeia e os Estados Unidos, por exemplo, consideram o Hamas terrorista - o que, em caso de vitória deste, pode levantar novos problemas.

Da trégua entre Fatah e Hamas surgiu o anúncio, mais um, da realização de eleições, mas desta vez, por fim, com direito a decreto presidencial: legislativas em 22 de maio, presidenciais em 31 de julho, e um mês depois o sufrágio relativo ao conselho nacional da Organização de Libertação da Palestina (OLP), que representa os palestinianos internacionalmente.

O que mudou para Mahmud Abbas e o Hamas se reconciliarem com a democracia? O presidente da Autoridade Palestiniana encontra-se na Alemanha em exames médicos, tal como já fizera em 2019. De saúde frágil, cada vez mais impopular, Abbas, de 86 anos, aposta na cartada da legitimização pelo voto como o caminho para a reaproximação aos parceiros internacionais, Estados Unidos no topo.

Não por acaso o anúncio das eleições deu-se na antevéspera da tomada de posse de Joe Biden. Da Autoridade Palestiniana restou o nome, em consequência da política de Donald Trump, que cortou a ajuda ao financiamento daquele órgão, fechou o escritório da OLP em Washington, reteve as doações dos EUA à agência da ONU de assistência aos refugiados palestinianos, enquanto, em paralelo, transferiu a embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém, reconheceu a soberania israelita sobre a totalidade da cidade sagrada, bem como dos montes Golã, ocupados à Síria.

"O Hamas concorre só com uma lista, com organização e com forte financiamento do estrangeiro, e portanto tem muito mais hipóteses de ganhar estas eleições do que outros."

Mohammad Dajani Daoudi
Diretor do Wasatia Academic Institute

Pelo lado do Hamas, o seu líder Ismail Haniyeh acreditará também que este é o momento propício para tentar, de uma assentada, dar legitimidade popular ao controlo que exerce na Faixa de Gaza e alargar a influência ao resto do território, tentando beneficiar da má imagem do líder da Fatah, da divisão daquele partido, e do descontentamento relativo ao impasse (ou falhanço, conforme o ponto de vista) do processo de paz e da solução dos dois Estados.

Além do mais, o Hamas quererá mostrar uma imagem de maior moderação e abertura (tem uma dúzia de mulheres candidatas) em linha com o novo estatuto de 2017, no qual já não tem a destruição de Israel como objetivo. Ainda assim, não é crível que por parte de Washington haja latitude para tratar o Hamas de outra forma. De uma maneira geral, o secretário de Estado Antony Blinken mostrou apoio à política da administração anterior, fosse na transferência da embaixada, fosse com os Acordos de Abraão, embora com a distinção da defesa da solução dos dois Estados.

Abbas e a Fatah enfrentam novos adversários, no caso antigos companheiros de partido. Nas legislativas, a Fatah vê a sua base eleitoral ser disputada por fações dissidentes, caso da lista Liberdade, liderada por Nasser al-Kidwa, um sobrinho do antecessor de Abbas e líder histórico da OLP, Yasser Arafat.

Além deste nome de peso, outro se junta: Marwan Barghouti, o popular dirigente da Fatah que os seus apoiantes comparam a Nelson Mandela. Barghouti está a cumprir várias penas de prisão perpétua em Israel por alegadamente ter organizado ataques mortais durante a segunda intifada palestiniana, entre 2000 e 2005, e considera concorrer às eleições presidenciais. A mulher de Barghouti, Fadwa, é a número dois da lista.

Outra candidatura nascida da Fatah, a lista do Futuro, é protagonizada pelo ex-chefe da segurança de Abbas em Gaza, Mohammed Dahlan.

Quem é quem

Marwan Barghouti

O Nelson Mandela dos palestinianos, como lhe chamam os seus apoiantes, está preso em Israel, condenado a várias penas perpétuas por orquestrar ações violentas na segunda intifada. O dirigente da Fatah, de 61 anos, que durante o julgamento não reconheceu o tribunal, lidera as sondagens das eleições presidenciais, e nem sequer se candidatou.

Nasser al-Kidwa

Nascido em 1953, o sobrinho de Yasser Arafat dedica-se à fundação com o nome do histórico líder palestiniano, depois de ter sido embaixador junto das Nações Unidas durante década e meia. Mais tarde foi representante do secretário-geral da ONU para o Afeganistão e para a Síria. Agora apresenta-se como alternativa à sua Fatah de sempre encabeçando a lista Liberdade.

Mohammed Dahlan

Nascido num campo de refugiados em Gaza, foi mais tarde o líder da Fatah naquele território, tendo mantido nos anos 1990 a segurança de Gaza. A sua estrela deixou de brilhar após a batalha de Gaza, na qual a Fatah se retirou. Foi também acusado de corrupção e de ter assassinado Yasser Arafat, embora nada tenha sido provado. Exilado nos Emirados, onde é financiado, planeia o regresso com a lista do Futuro às legislativas.

Ismail Haniyeh

Nascido num campo de refugiados como Dahlan, Haniyeh, de 59 anos, seguiu o caminho político oposto. Foi assistente do xeque Ahmed Yassin, o líder espiritual do Hamas, e dirigiu a Faixa de Gaza desde 2006 até 2017. Como líder político do Hamas vive no Qatar, para exercer liberdade de movimentos. É desde 2018 um terrorista aos olhos dos Estados Unidos.

cesar.avo@dn.pt

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