Franz Baumann, ex-secretário-geral Adjunto da ONU, disse esta sexta-feira à Lusa que a "passividade de António Guterres perante a iminência da guerra na Ucrânia foi inacreditável", admitindo que o líder da organização seja indevidamente aconselhado..Para o alemão, que foi secretário-geral Adjunto para a Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e conselheiro Especial para o Meio Ambiente e Operações de Paz até ao final de 2015, António Guterres devia ter sido "muito mais ativo" em janeiro, antes da guerra começar..Em entrevista à Lusa, Baumann criticou ainda o facto de o ex-primeiro-ministro português ter pedido ao Presidente russo, Vladimir Putin, que o recebesse em Moscovo, frisando que "um secretário-geral da ONU não pede para ser recebido, ele anuncia que está a ir"..Na terça-feira, António Guterres pediu que Vladimir Putin o recebesse em Moscovo, e que o chefe de Estado ucraniano, Volodymyr Zelensky, o recebesse em Kiev, para discutir "passos urgentes" para travar a guerra..De acordo com o porta-voz do secretário-geral, Stéphane Dujarric, esse pedido foi feito através de cartas separadas entregues às Missões Permanentes da Federação Russa e da Ucrânia nas Nações Unidas..A resposta do Kremlin chegou nesta sexta-feira, com a ONU a confirmar que António Guterres visitará Moscovo no dia 26 de abril, onde irá encontrar-se com Putin..O anúncio do pedido de viagem de Guterres à Rússia surgiu 24 horas depois de mais de 200 antigos dirigentes da ONU, entre eles Franz Baumann, dirigirem uma carta ao secretário-geral, com um apelo para que seja mais proativo em relação a esse conflito.."Acho que é uma coincidência curiosa que este anúncio, de pedido de visita a Moscovo e Kiev, tenha surgido 24 horas após termos enviado uma carta a criticar a sua passividade", disse Baumann.."Mas estas cartas enviadas (às missões permanentes na ONU) causaram-me ainda mais impressão. Guterres pediu para ser recebido por Putin. Um secretário-geral da ONU não pede, ele anuncia que está a ir. Putin poderia dizer qualquer desculpa para não o receber. Guterres devia só avisar o dia em que ia e voar para lá", avaliou o alemão..Baumann afirmou que admira Guterres e que até fez campanha pelo português quando se candidatou para secretário-geral da ONU em 2016, mas advogou que Guterres "pode não estar a ser aconselhado devidamente" por quem o rodeia.."Guterres deveria ter começado a ser ativo bem antes do início (da guerra), em 24 de fevereiro. Isso é muito tarde. Já havia milhares de militares à volta da Ucrânia há várias semanas e toda a gente temia que esta invasão acontecesse, os agentes de inteligência norte-americanos já diziam que a Rússia iria invadir", disse.."Então, o secretário-geral, ao abrigo da carta das Nações Unidas, tem o direito e o dever de levar ameaças à segurança internacional à atenção do Conselho de Segurança. Eu esperava que ele tivesse viajado para Moscovo em janeiro. Ele deveria ter escalado em Pequim, Nova Deli e para a África do Sul (países que se têm colocado ao lado da Rússia), mas certamente para Moscovo e para Kiev", reforçou..Para o antigo secretário-geral adjunto, uma visita em janeiro de Guterres à Rússia seria uma oportunidade de ver se Putin mentiria a um secretário-geral da ONU ao negar que invadiria o território ucraniano.."Guterres deveria ter ido à Rússia e ver se Putin lhe dizia que não invadiria a Ucrânia. Porque uma coisa é mentir a um jornalista - sem querer desrespeitar, mas se ele tivesse dito ao Guterres que não invadiria a Ucrânia, e mesmo assim invadisse, isso teria sido uma violação muito mais flagrante".."A passividade de Guterres perante a iminência da guerra foi algo inacreditável", criticou..De acordo com Franz Baumann, Guterres deveria ter seguido os passos de anteriores secretários-gerais da ONU, como Javier Pérez de Cuéllar e Kofi Annan, que "voaram para países onde a guerra estava iminente, para prevenir o conflito".."Penso que o facto de Guterres não ter voado logo em janeiro para a Rússia foi a sua primeira omissão", frisou o alemão..Baumann avaliou ainda que esta deslocação à Rússia não irá pôr um fim à guerra, mas Guterres "poderá conseguir acesso humanitário para que as pessoas não morram à fome em Mariupol"."Eu acho que Putin é um ditador, já investiu demasiado nesta guerra, por isso a tendência é só escalar. Ele não pode simplesmente dizer ao secretário-geral que mudou de ideias", disse.."Mas se António Guterres tivesse feito algo diferente no início, se ele tivesse criado um grupo de países, ele não estaria a trabalhar sozinho, nem só com os norte-americanos, porque um secretário-geral não trabalha sozinho. Travar um conflito que já começou é muito, mas muito mais difícil", acrescentou..A Rússia lançou em 24 de fevereiro uma ofensiva militar na Ucrânia que já matou mais de dois mil civis, segundo dados da ONU, que alerta para a probabilidade de o número real ser muito maior..A ofensiva militar causou já a fuga de mais de 12 milhões de pessoas, mais de cinco milhões das quais para fora do país, de acordo com os mais recentes dados da ONU -- a pior crise de refugiados na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).