Nenhum país respondeu de forma afirmativa e imediata à solicitação - ou à “chantagem”, nas palavras do chefe da diplomacia do Luxemburgo - de Donald Trump para se criar uma coligação naval para acabar com o bloqueio naval do Irão no estreito de Ormuz. O presidente norte-americano não escondeu a sua frustração pelo facto de a sua proposta não aparentar adesão, ameaçando com um futuro negro para a NATO. Do outro lado do Atlântico, em Bruxelas e em Berlim, a mesma mensagem: esta guerra não é da Europa.“Estamos sempre presentes para a NATO. Estamos a ajudá-los com a Ucrânia. Há um oceano entre nós. Não nos afeta, mas ajudámos. E será interessante ver que país não nos ajudaria numa iniciativa muito pequena, que consiste apenas em manter o estreito aberto”, disse Trump. Ao Financial Times vaticinou um “futuro muito mau” para a Aliança Atlântica caso os aliados não fossem em auxílio. Horas depois, em declarações aos jornalistas, o homem que fez bandeira da campanha eleitoral não arrastar o seu país para novas guerras, expressou a sua frustração para com os aliados. “Vários países disseram-me que estão a caminho [do estreito de Ormuz]. Alguns estão muito entusiasmados com isso e outros não. Alguns são países que ajudámos durante muitos, muitos anos. Protegemo-los de fontes externas horríveis, e eles não estavam assim tão entusiasmados. E o nível de entusiasmo é importante para mim”, disse Trump..Coligação naval de Trump para libertar Ormuz recebida sem entusiasmo.Nenhum país indicou até agora o envio de meios navais para a região. A França destacou o porta-aviões Charles de Gaulle para o Mediterrâneo Oriental, acompanhado de oito fragatas, em particular para assegurar a defesa de Chipre, que foi alvo de um drone iraniano numa das duas bases aéreas britânicas na ilha. Aqueles meios navais poderão vir a fazer parte de uma missão “estritamente defensiva”, ao lado de outros parceiros, tal como Emmanuel Macron revelou na semana passada, no Médio Oriente. A escolta de porta-contentores e navios petrolíferos, de modo a “reabrir progressivamente o estreito de Ormuz” é o objetivo, “assim que possível”. Mas de momento não é possível. A própria Marinha dos Estados Unidos recusa-se a fazê-lo, por falta de condições de segurança. Na segunda-feira, Trump disse ter falado com o presidente francês. “Penso que ele vai ajudar”, disse de Macron. Também disse esperar a participação do Reino Unido, depois de ter criticado Keir Starmer. O primeiro-ministro trabalhista disse estar a “trabalhar numa solução viável” junto dos aliados europeus e do golfo Pérsico, mas que o seu país não irá ser arrastado para a guerra. Segundo a Sky News, as forças armadas do Reino Unido poderão enviar dois tipos de drones para o Médio Oriente - sendo um deles intercetor e o outro um drone submarino.Reunidos em Bruxelas, os chefes da diplomacia da UE rejeitaram de forma clara a hipótese de envolver a NATO na equação. Mas também a UE. A alta representante chegou a propor um reforço da operação dos 27 no mar Vermelho, mas, “por enquanto, não há vontade de alterar o mandato” da operação, disse Kaja Kallas. .O Luxemburgo e a Alemanha foram os países que reagiram de forma mais crítica às afirmações do presidente dos EUA. “Não consigo imaginar que Donald Trump queira ser o coveiro da NATO”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros luxemburguês Xavier Bettel. O governo alemão falou a várias vozes. “Esta não é a nossa guerra”, disse o ministro da Defesa, Boris Pistorius. O chanceler Friedrich Merz fez questão de lembrar que os EUA e Israel “não consultaram” Berlim antes da guerra. Outro tom mostraram o primeiro-ministro neerlandês Rob Jetten e o chefe da diplomacia dinamarquesa, Lars Lokke Rasmussen. Ambos disseram que os seus países estão abertos à questão, embora sem se comprometerem em concreto. Irão continua a atacarDonald Trump disse que o Irão é “um tigre de papel”, mas o facto é que continua a infligir estragos e perdas humanas aos países vizinhos mais de duas semanas depois de ter começado a ser atacado pelos Estados Unidos e Israel. Um palestiniano foi morto na periferia da capital dos Emirados Árabes Unidos, Abu Dhabi, quando um míssil atingiu o automóvel em que seguia. Desde o início do conflito foram mortas sete pessoas naquele país, vítimas de mais de 1900 mísseis e drones iranianos. Em paralelo, um drone atingiu o campo petrolífero Shah, também no emirado de Abu Dhabi. Outro ataque com o recurso a Shahed provocou o incêndio de um depósito de combustível do aeroporto do Dubai, o que levou ao encerramento temporário das operações aeroportuárias. Outro drone com explosivos, mas em Fujeira, fez eclodir um incêndio num terminal petrolífero. Em resultado, os carregamentos de crude foram suspensos nesta infraestrutura que, por se localizar no golfo de Omã, não está condicionado pelo bloqueio iraniano. As autoridades iranianas acusaram os Emirados de permitir que o seu território fosse utilizado para ataques contra o Irão, alegação que é rejeitada por Abu Dhabi. No domingo, o presidente dos Emirados, xeque Mohammed bin Zayed, manteve uma conversa telefónica com o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman. Ambos acusaram o Irão de provocar “uma grave escalada que ameaça a segurança e a estabilidade da região”. O país de Salman, através do seu ministério da Defesa, anunciou ter intercetado 61 drones oriundos do Irão na segunda-feira. No Qatar, as autoridades reportaram dois ataques com mísseis.Todavia, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Majed al-Ansari, disse que Doha acredita numa solução diplomática se Teerão “cessar os ataques”.O New York Times conta outra versão. Segundo várias fontes junto de Donald Trump, das conversas que o presidente dos EUA tem mantido com os monarcas do Golfo Pérsico, este é encorojado a prosseguir com a operação militar contra o Irão, com o príncipe saudita a repetir o conselho que o rei Abdullah terá dado a Washington: “Corte a cabeça da serpente.”Refira-se ainda que o Irão voltou a alvejar Israel com mísseis, em cinco ocasiões, a partir das primeiras horas de segunda-feira. O impacto causou um ferido e danos em vários locais do país. Em Jerusalém, destroços dos mísseis caíram perto da Biblioteca Nacional, e na Cidade Antiga, junto à Igreja do Santo Sepulcro.