Erfan Soltani foi um dos milhões de iranianos que, nos últimos dias, saíram às ruas em protesto contra a situação económica no Irão. Mas, ao ser detido e condenado à morte no espaço de menos de uma semana, o jovem comerciante de 26 anos tornou-se num símbolo dos manifestantes que exigem o fim do regime. A morte por enforcamento de Erfan Soltani estava prevista para esta quarta-feira (14 de janeiro), com o corte de comunicações no Irão a dificultar a confirmação da sua execução. O presidente norte-americano, Donald Trump, garantiu que os EUA empreenderiam “ações muito fortes” se as autoridades iranianas começassem a executar os detidos, tendo incentivado os manifestantes a continuar nas ruas porque “a ajuda está a caminho”. Mas já tinha prometido agir caso o regime começasse a matar os manifestantes - e o número de mortos já ultrapassa os 2500 (mais do que em qualquer outro movimento de protesto nas últimas décadas). Reagindo às ameaças contínuas de Trump, o regime iraniano avisou esta quarta-feira (14 de janeiro) que atacará bases norte-americanas na região em resposta a um eventual ataque dos EUA. “Teerão informou os países da região, desde a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos à Turquia, que as bases norte-americanas nesses países serão atacadas”, disse uma fonte oficial do regime, citada pela Reuters. Na véspera, o líder do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, já tinha dito que o Irão “incendiará a região” em caso de ataque dos EUA..Trump incentiva protestos no Irão e alega que “a ajuda está a caminho”.Diante da ameaça de uma possível retaliação, centenas de pessoas e material começaram a ser retirados “por precaução” da base aérea de Al-Udeid, no Qatar. É a maior base dos EUA na região, com cerca de dez mil militares norte-americanos e pelo menos mil britânicos. Em junho, já foi alvo dos mísseis iranianos, após Trump ter bombardeado as instalações nucleares do Irão na fase final da guerra de 12 dias com Israel. Nessa altura, a base também tinha sido evacuada (Teerão tinha avisado previamente do ataque). Os analistas dizem que Trump, com as suas ameaças repetidas contra o Irão, acaba por ficar sem opções e terá que agir. Quando questionado por um jornalista da NBC sobre qual era o seu objetivo, o presidente disse que era “ganhar”, mencionando outras “vitórias” no passado - desde a morte do general Qasem Soleimani, líder da Força Quds dos Guardas da Revolução em janeiro de 2020, no Iraque, até à operação contra o líder venezuelano, Nicolás Maduro, no início deste mês.Trump estabeleceu linhas vermelhas no Irão e está a ser lembrado constantemente para não fazer o mesmo que o ex-presidente Barack Obama. Em 2012, o democrata avisou o então líder sírio Bashar al-Assad que se usasse armas químicas contra a população civil, os EUA iriam agir militarmente. Mas depois não fez nada, ao contrário do próprio Trump que por duas vezes bombardeou a Síria quando armas químicas foram usadas. O regime de Assad só caiu no final de 2024.Mas num discurso na terça-feira (13 de janeiro) em Detroit, Trump também lembrou que as operações militares que liderou até agora, de Soleimani à Venezuela, decorreram “sem falhas”, insistindo que “ganhar é uma coisa boa”. O problema é que o Irão não é a Venezuela e não existem garantias de que uma operação militar possa decorrer “sem falhas” - com Trump a não querer que algo corra mal e isso possa irritar a sua base de apoio MAGA (que é contra intervenções dos EUA no exterior) num ano de eleições intercalares. As autoridades norte-americanas voltaram entretanto a aconselhar os seus cidadãos que possam estar no país (pode haver casos de dupla cidadania) a deixar o Irão, naquele que foi o terceiro aviso do género no espaço de cinco dias. “Os cidadãos norte-americanos devem deixar o Irão agora. Considerem deixar o Irão por terra rumo à Turquia ou à Arménia, se for seguro fazê-lo”, afirmou o Departamento de Estado dos EUA na sua conta em farsi, no X. A mesma conta onde, na terça-feira, se chamava a atenção para o caso de Erfan Soltani. O comerciante foi detido na sua casa em Fardis, na área metropolitana de Karaj, a oeste de Teerão, no dia 8, por participar nos protestos. Levado para a prisão de Ghezel Hesar, foi condenado pelo crime de “guerra contra Deus”, punível com a pena de morte. As organizações de defesa dos Direitos Humanos lembram que o seu único crime foi querer ser livre. A família foi informada quatro dias depois da detenção que a sentença era final, apesar de lhe ter sido negado o acesso a um advogado.“Desta vez, o regime da República Islâmica nem se deu ao trabalho de realizar o seu habitual julgamento simulado de dez minutos. Erfan foi condenado à morte sem qualquer processo legal ou advogado de defesa”, indicou o Departamento de Estado dos EUA. “É o primeiro manifestante a ser condenado à morte, mas não será o último. A onda de execuções contra estes manifestantes começou oficialmente. O mundo não pode permanecer em silêncio perante as ações nefastas do regime da República Islâmica”, acrescentou, contabilizando já mais de 10.600 detidos.As autoridades judiciais iranianas indicaram entretanto que vão acelerar os julgamentos dos manifestantes. “Se queremos fazer um trabalho, devemos fazê-lo agora. Se queremos fazer algo, temos de o fazer rapidamente”, disse o chefe do poder judicial, Gholamhossein Mohseni-Ejei, num vídeo divulgado esta quarta-feira (14 de janeiro). “Se demorar dois ou três meses, não terá o mesmo efeito. Se queremos fazer alguma coisa, temos de a fazer rapidamente”, acrescentou o mesmo responsável. A televisão estatal também já emitiu, segundo organizações de Direitos Humanos, pelo menos 97 confissões forçadas de manifestantes que foram detidos.Teerão foi entretanto palco de um funeral em massa organizado para cerca de uma centena de membros das forças de segurança, mortos nas manifestações das últimas semanas. Os caixões foram colocados em camiões que desfilaram pela cidade. Dezenas de milhares de pessoas assistiram ao evento, carregando bandeiras iranianas e retratos do ayatollah Ali Khamenei.