EUA reforçam presença militar na Europa após NATO declarar a Rússia como a "maior ameaça"

Washington prevê manter a longo prazo cem mil militares no continente europeu, incluindo uma nova presença permanente na Polónia. Suécia e Finlândia foram oficialmente convidadas a entrar na Aliança após acordo com a Turquia.

A decisão da NATO de designar a Rússia como a "maior e mais direta ameaça" à paz e segurança dos países da Aliança Atlântica foi aplaudida em Kiev. "Em Madrid, a NATO provou que pode tomar decisões difíceis mas essenciais", disse o chefe da diplomacia ucraniano, Dmytro Kuleba, congratulando-se com a "posição lúcida" dos aliados em relação à Rússia. Numa intervenção por vídeo, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, pediu mais apoio financeiro e armas modernas. Já o líder norte-americano, Joe Biden, anunciou o reforço da presença militar dos EUA na Europa. Mas a NATO não se esqueceu da China.

"A Ucrânia pode contar connosco o tempo que for necessário", disse o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg. "Os aliados vão continuar a dar ajuda militar e financeira e os líderes acordaram fortalecer o nosso apoio mediante um pacote de ajuda integral à Ucrânia que inclui comunicações de segurança, combustível, material médico, equipamento para lidar com minas e drones", acrescentou.

Os EUA anunciaram por seu lado o reforço da presença militar no continente europeu a longo prazo, incluindo uma presença permanente na Polónia, o envio de mais dois esquadrões de caças F-35 para o Reino Unido e reforço da capacidade na Alemanha e Itália. Washington vai manter uma presença de cem mil militares na Europa, um aumento de 20 mil em relação ao que existia antes da invasão da Ucrânia - mas longe dos 300 mil destacados durante a Guerra Fria. Já o Reino Unido comprometeu-se com mais mil tropas para reforçar a fronteira oriental da NATO, mais especificamente a Estónia, como parte do reforço da força de resposta rápida da Aliança Atlântica, cujo objetivo é subir dos atuais 40 mil até aos 300 mil efetivos.

A Rússia criticou o reforço militar norte-americano, avisando a NATO que a mudança no equilíbrio de poder "vai levar a medidas compensatórias da nossa parte". O vice-chefe da diplomacia russo, Sergei Ryabkov, disse que existe "a ilusão de que conseguirão intimidar a Rússia, contê-la de alguma forma. Eles não vão ter sucesso".

Quem também se mostrou crítica foi a China, que pela primeira vez aparece referida no conceito estratégico da NATO. Os chineses são acusados de "tentar subverter a ordem internacional", lendo-se no texto que "as ambições declaradas da China e as suas políticas coercivas desafiam os nossos interesses, segurança e valores". Pequim acusou a NATO de ter uma "mentalidade de Guerra Fria", com o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Zhao Lijian, a dizer que a Aliança Atlântica devia desistir "da prática de criar inimigos".

Porta aberta ao alargamento

Suécia e Finlândia foram esta quarta-feira oficialmente convidadas a integrar a NATo, após a Turquia ter levantado as suas objeções. A posição de Ancara foi tomada após estes dois países se comprometerem a auxiliar na luta contra os militantes curdos, que consideram terroristas, e proceder à rápida extradição dos suspeitos no seu território. Um compromisso que a Turquia vai pôr de imediato à prova, pedindo a extradição de 33 destes indivíduos.

A chefe da diplomacia sueca, Ann Linde, rejeita a ideia de que Estocolmo cedeu a Ancara, indicando que só serão autorizadas as extradições com provas de atividade terrorista. "Não há razão para os curdos pensarem que os seus direitos humanos ou direitos democráticos estão em risco", acrescentou.

A tradicional neutralidade de Suécia e Finlândia caiu por terra depois da invasão russa da Ucrânia. "Consideramos a expansão da aliança do Atlântico Norte como um fator puramente desestabilizador nos assuntos internacionais", disse Ryabkov, dizendo que a cimeira de Madrid consolida a política de bloco de "contenção agressiva" da Rússia.

O próximo passo no alargamento é a ratificação pelos parlamentos dos 30 Estados membros, num processo que deverá demorar um ano, sendo que só depois Suécia e Finlândia estarão sob a proteção do artigo 5 da NATO (a cláusula de defesa coletiva). Até lá, os aliados devem reforçar a sua presença na região, com mais exercícios militares e patrulhas navais no Mar Báltico como forma de dissuasão.

susana.f.salvador@dn.pt

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