Imagem de Havana, Cuba.
Imagem de Havana, Cuba. EPA

EUA planeiam acusar formalmente Raúl Castro. Aumentam os receios de intervenção militar em Cuba

Plano de Washington surge num momento alto da crise na ilha e gera forte contestação popular em Havana. Sentem-se os ecos da estratégia usada na captura de Nicolás Maduro.
Publicado a
Atualizado a

Os planos dos Estados Unidos para acusar formalmente na Justiça o antigo líder cubano Raúl Castro, de 94 anos, lançaram uma nova vaga de tensão sobre a ilha caribenha. Segundo informações avançadas esta sexta-feira (15 de maio) pela Reuters, a iniciativa de Washington está a alimentar o receio generalizado de uma eventual intervenção militar norte-americana, numa altura em que o país já enfrenta a sua pior crise económica e de abastecimento de combustível em décadas.

A potencial acusação formal contra o ícone revolucionário foca-se no derrube, em 1996, de duas aeronaves civis operadas pela organização humanitária "Brothers to the Rescue" (Irmãos ao Resgate). O caso representa uma escalada drástica na campanha de pressão da administração Trump, que tem classificado o governo comunista de Cuba como corrupto e incompetente, defendendo abertamente uma mudança de regime.

Embora Havana ainda não tenha respondido diretamente à ameaça do Departamento de Justiça norte-americano, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Cuba, Bruno Rodríguez, demonstrou uma atitude desafiadora durante uma reunião de chefes da diplomacia dos países BRICS. "Apesar do embargo, das sanções e das ameaças do uso da força, Cuba continua no caminho da soberania rumo ao seu desenvolvimento socialista", disse o governante, citado pela Reuters.

Analistas preveem o fim da diplomacia

Nas ruas de Havana, o sentimento dominante entre a população parece ser de indignação e prontidão para defender a soberania nacional. Isto pelo menos é o que dizem àquela agência noticiosa alguns cidadãos cubanos ouvidos na capital. "Se tentarem levar o Raúl a tribunal, defenderemos Cuba com paus e pedras se for preciso", afirmou Sonia Torres, uma professora de 59 anos.

Especialistas em relações internacionais partilham do alarmismo que se vive na ilha. Peter Kornbluh, historiador e autor de obras sobre as negociações secretas entre os EUA e Cuba, alertou em entrevista à Reuters que esta acusação formal poderá significar o "ponto final diplomático" entre os dois países.

Kornbluh advertiu ainda que a manobra jurídica poderá estar a criar uma "cobertura de aparente legalidade" para futuras operações militares destinadas a capturar ou neutralizar Raúl Castro.

Este cenário ganha força após a administração Trump ter classificado como uma "operação policial" a incursão militar que resultou na captura do líder venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro passado, para que este enfrentasse acusações criminais em Nova Iorque.

Embora Raúl Castro já não ocupe qualquer cargo formal no governo, continua a ser visto como a figura viva mais influente e o principal símbolo da revolução cubana de 1959. Em relação ao incidente de 1996, Fidel Castro assumira na altura que os militares agiram sob "ordens permanentes" de interceção e que o seu irmão Raúl, então ministro da Defesa, não tinha emitido uma ordem específica para o abate dos aviões.

O incidente que matou quatro pessoas

O trágico incidente remonta a 24 de fevereiro de 1996, quando caças da Força Aérea de Cuba abateram duas aeronaves civis e desarmadas — do modelo Cessna 337 Skymaster — pertencentes à organização humanitária "Brothers to the Rescue" (Irmãos ao Resgate). O ataque provocou a morte imediata dos quatro ocupantes: Armando Alejandre Jr., Carlos Alberto Costa, Mario Manuel de la Peña e Pablo Morales. Um terceiro avião conseguiu escapar à interceção e regressar à Florida. A ação militar mereceu na altura uma forte condenação internacional, tendo a Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) concluído que o abate ocorreu em águas internacionais, contrariando a tese de violação do espaço aéreo defendida por Havana.

Os aparelhos tinham a bordo apenas equipamento essencial de navegação e rádio, acompanhado por mantimentos básicos de emergência e sobrevivência (como água, rações e coletes salva-vidas). O objetivo daquela rota consistia em patrulhar as águas do Estreito da Florida numa missão humanitária de busca e salvamento, com o intuito de localizar os chamados balseros — refugiados cubanos que tentavam cruzar o mar em balsas ou embarcações precárias — e reportar as respetivas coordenadas à Guarda Costeira dos EUA para que pudessem ser salvos.

Embora o regime de Havana argumentasse que a organização "Brothers to the Rescue" utilizava os seus voos para fins políticos e de provocação, dizendo que em missões anteriores, como em janeiro desse mesmo ano, tinham lançado panfletos de propaganda antigovernamental e medalhas religiosas sobre a capital cubana, as investigações internacionais independentes confirmaram posteriormente que, no dia do abate dos aparelhos e morte dos seus tripulantes, as aeronaves operavam estritamente numa missão de observação humanitária em espaço aéreo internacional.

Diário de Notícias
www.dn.pt