O discurso contraditório e hiperbólico de Donald Trump sobre o memorando de entendimento com o Irão e as negociações para alcançar um acordo mais amplo não é visto pelos analistas como uma rutura total, mas como uma forma de aumentar a pressão sobre o regime iraniano, quando, em paralelo, os bombardeamentos se fizeram sentir pela segunda noite consecutiva. O Irão ripostou contra alvos militares dos EUA e, como tem sido habitual, mantém uma postura desafiadora. Os Estados Unidos voltaram a atacar o Irão durante a noite, numa tentativa de, a um tempo, aumentar a pressão sobre a liderança iraniana, e minar o controlo exercido por Teerão sobre o estreito de Ormuz. “Enquanto o cessar-fogo estava em vigor, os Estados Unidos alvejaram cinco províncias iranianas” na quarta-feira e quinta-feira, informou o responsável de relações públicas do Ministério da Saúde iraniano, Hossein Kermanpour. Os ataques americanos dos últimos dois dias causaram pelo menos 14 mortos e 78 feridos no Irão, dos quais 47 permanecem hospitalizados. .EUA atingiram durante a noite 90 alvos militares iranianos. Ataques dos últimos dois dias fizeram 14 mortos, diz Teerão.Segundo as forças dos EUA, foram alvejados 90 locais militares no sul do país, depois de 80 na véspera. Entre os alvos estavam sistemas de defesa antiaérea, instalações de vigilância costeira e locais de armazenamento de mísseis e drones. Já de dia, um projétil atingiu os arredores da central nuclear iraniana de Bushehr, declarou o vice-governador daquela província. Este responsável também indicou que vários locais da província, além do perímetro da central nuclear — a única em funcionamento no Irão —, tinham sido atingidos por ataques americanos.Em retaliação, os Guardas da Revolução atacaram com mísseis e drones bases norte-americanas na Jordânia, no Koweit, no Qatar e no Bahrein. Segundo o correspondente da Al Jazeera em Teerão, os ataques tiveram como alvo um sistema de mísseis Patriot no Koweit, uma antena de satélite no Qatar e depósitos de combustível das forças dos EUA no Bahrein. Também lhe foi ditado que, caso os ataques dos EUA continuarem, o Irão vai expandir os ataques a outras bases militares dos EUA a outros países do Golfo.Na Jordânia, as forças armadas disseram ter intercetado oito mísseis, e que os destroços não causaram danos. No Koweit, o Ministério da Defesa disse ter intercetado um míssil de cruzeiro e 10 drones. Já o exército do Bahrein disse ter “derrubado vários ataques aéreos traiçoeiros do Irão”. Além da resposta armada, Teerão denunciou os ataques dos EUA. Segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros, as ações “criminosas” contra o Irão foram realizadas sob o falso pretexto de responder a “supostos incidentes” envolvendo várias embarcações transgressoras no estreito de Ormuz na terça-feira. Os ataques, lembra o ministério, são uma violação do artigo 2.º, n.º 4 da Carta das Nações Unidas, e também uma “grave violação dos parágrafos um e cinco do memorando de entendimento” assinado por Donald Trump e Masoud Pezeshkian. “A administração maliciosa e psicopata dos Estados Unidos, para compensar a sua incapacidade de compreender a grandeza e glória do patriotismo iraniano e da lealdade aos ideais da revolução [islâmica], recorreu a insultos, mentiras e agressões militares, incluindo atacar a linha ferroviária para Mashhad”, acusou o ministério.Bagher Ghalibaf, um dos cinco homens que lidera o país — em conjunto com o presidente Pezeshkian, o comandante dos Guardas da Revolução Vahidi, o chefe do aparelho judiciário Ejehi, e um comandante não identificado das forças armadas convencionais — e o negociador-chefe do Irão, voltou à carga: “A América ainda não aprendeu que intimidar e quebrar promessas deixou de ser impune. Permitam-me ser claro: se atacarem, serão atingidos”, escreveu no X. Quanto ao pomo da discórdia — a navegação livre no estreito de Ormuz preconizada pelos EUA (e pelo resto do mundo) versus o controlo que Teerão quer exercer através de rotas designadas em troca de taxas —, o presidente do Parlamento disse: “Não se debatam inutilmente, ou afundam-se ainda mais: o estreito de Ormuz só abrirá com ‘acordos iranianos’, e não com ameaças americanas.”A situação deteriorou-se rapidamente depois das declarações de Trump em Ancara, durante a cimeira da NATO, onde atacou a “escória” da liderança iraniana e disse que, pela sua parte, o memorando de entendimento ficava sem efeito. Ao mesmo tempo, porém, disse que as negociações poderiam prosseguir, o que levou os analistas a lerem a sua mensagem como uma tentativa de levar para a mesa um regime iraniano enfraquecido — o que não é o caso atual. “Na realidade, o memorando de entendimento não resolveu quaisquer questões essenciais entre os EUA e o Irão. Portanto, de alguma forma, isto ia acontecer mais cedo ou mais tarde. O problema agora é que nos enredámos nesta escalada de medidas de retaliação sem uma saída óbvia, e isso apenas arrisca um regresso a um conflito que não interessa a ninguém”, disse à Sky News Nate Swanson, ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA. “Parece claramente uma tentativa de aumentar a pressão militar sem fechar ainda a porta diplomática. Mas a negociação coerciva é um jogo perigoso: em dado momento, uma campanha de pressão pode ganhar um impulso próprio e tornar-se na guerra que supostamente se pretendia evitar”, adverte Ali Vaez, diretor para o Irão no International Crisis Group, em declarações à Associated Press.Troca de aviões.No regresso da Turquia, Donald Trump disse que “eles telefonaram há pouco”, referindo-se à liderança iraniana e repetindo que estão “desesperados por um acordo”. O presidente dos EUA partiu de Ancara no anterior avião presidencial, e só depois de uma paragem numa base no Reino Unido é que embarcou no novo Air Force One, oferta do Qatar. Segundo o New York Times, o Serviço Secreto, a agência federal que proporciona segurança às principais figuras políticas do país, concluiu que por motivos de segurança relacionados com o conflito com o Irão, seria mais adequado usar o avião antigo, porque este dispõe de características de segurança mais avançadas. Apesar de reconhecer que é o “alvo número um” de Teerão, Trump alegou que seguiu no avião antigo para dar a oportunidade às forças dos EUA, na base de Mildenhall, de “visitar o avião”..EUA e Irão trocam ataques, mas Trump não crê no regresso à guerra.Nuclear e regime não mudaram em três meses de guerra, mas Irão ganhou um trunfo: Ormuz