"EUA continuam a ser a superpotência e a potência mais globalizada, mas não estão tão sozinhos como há uma década"

Investigadora e professora do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE, Cátia Miriam Costa analisa a guerra na Ucrânia e as ondas de choque provocadas pela invasão russa.

Qual o objetivo final de Vladimir Putin em relação à Ucrânia?

Como se diz na gíria da geopolítica: os satélites podem mostrar tanques, mas não as suas intensões. Faltam-nos elementos de análise, intrínsecos à estrutura de poder na Rússia e aos equilíbrios que devem ser mantidos para assegurar a continuação do Vladimir Putin no Kremlin. Contudo, parece claro que o maior objetivo é assegurar que a Ucrânia se torne neutral (mesmo que adira à UE) e que as repúblicas separatistas alarguem o seu território até áreas onde possam ser mais defensáveis garantindo o seu acesso e o da Rússia a pontos geoestratégicos como o Mar de Azov (com características de mar interior) e o Mar Negro, completando a estratégia seguida com a ocupação de Crimeia. Neste quadro, as operações militares em outras zonas da Ucrânia poderão inscrever-se na finalidade de a forçar a negociar e a se neutralizar, criando danos em áreas que, à partida, não se incluem nos focos de interesse direto da Rússia.

Tem o Estado ucraniano graças à resistência aos russos nesta guerra mostrado capacidade para manter uma verdadeira independência?

O estado ucraniano como estado independente é recente. Nas construções nacionais mais jovens é muito difícil não se estabelecerem dependências externas, nem que seja através da cooperação económica. A resistência ucraniana mostra a vontade de seguir um caminho próprio que pode estar repleto de dificuldades. Lembremos que a Ucrânia em 2020 era o país com menor rendimento per capita da Europa, com índices de corrupção preocupantes e com uma posição geopolítica e geoeconómica que a expõe à disputa internacional. Estes fatores, acrescidos da necessidade de uma reconstrução e de uma intervenção humanitária urgentes, levarão a Ucrânia a negociar apoios externos que implicarão constrangimentos políticos. Existe vontade política e popular para a independência "total", mas os condicionamentos estão lá e terão de ser equacionados.

Só com sanções económicas, o Ocidente tem alguma hipótese de forçar Moscovo a negociar com Kiev?

Não creio, porque as sanções provocam perturbações no processo de globalização e nas cadeias de produção e abastecimento, mesmo que não juntemos aqui a questão energética. A evolução do conflito e a obtenção dos resultados esperados pela Rússia poderá contribuir mais significativamente para as negociações no curto prazo. Caso contrário, estaremos a falar de um processo que se prolongará no tempo, período temporal suficiente para as sanções se tornarem insuportáveis para população russa.

É a dissuasão nuclear que, tal como na Guerra Fria, está a evitar hoje um conflito NATO-Rússia?

Contribui bastante para que o conflito não se expanda, mas outros fatores estão também em ponderação, pois seria uma atuação fora do âmbito do quadro defensivo da OTAN, dado que a Ucrânia não é membro da organização.

Como vê a posição da China neste conflito?

Em geral, os conflitos armados prejudicam o projeto de desenvolvimento e crescimento da China. Portanto, este conflito traz consequências negativas como a suspensão temporária da linha de caminho-de-ferro da Euro-Ásia, prevista pela Nova Rota da Seda, que ligaria a China à Europa. Para além deste aspeto específico, a China tinha uma presença significativa na Ucrânia. Embora reconhecendo que a Ucrânia se encontrava na esfera de influência da Rússia, a China desenvolvia uma relação bilateral autónoma com a Ucrânia. Até agora, a China tem reiterado a sua posição de não intromissão nos assuntos dos países, apesar de reconhecer a existência de uma invasão e procurar pontes negociais. Em termos económicos, a guerra prejudica a China. Contudo, em termos políticos poderá significar a contenção de uma influência ocidental, que a China poderá considerar excessiva a longo prazo colocando em risco a realização do projeto continental da Nova Rota da Seda.

Joe Biden refez já a posição de liderança americana com este embate com a Rússia ou só o desfecho do conflito na Ucrânia permitirá tirar conclusões?

Joe Biden reforçou a sua posição junto dos aliados. Contudo, este conflito tornou perceptível uma tendência para a Ordem Internacional se tornar multipolar e uma propensão divergente entre o discurso ocidental na esfera pública e os outros discursos, como têm sido o dos BRICS, com exceção da Rússia (Brasil, Índia, China e África do Sul). Observar o seu sentido de votação na Assembleia Geral das Nações Unidas, mesmo após trabalho diplomático ocidental, e os discursos emanados para a esfera pública comprovam que, apesar da condenação da invasão de um estado soberano, existe uma tentativa de equilíbrio que apela à negociação e à não aplicação de sanções à Rússia. É notório que os EUA continuam a ser a superpotência e a potência mais globalizada, mas não estão tão sozinhos como há uma década atrás. Esta guerra não é suficiente para impedir este movimento de criação de polos alternativos à influência dos EUA ou mesmo Ocidental, nem que seja a uma escala regional.

leonidio.ferreira@dn.pt

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