Brasília está há meses com a respiração suspensa e não é só por causa da crise na vizinha Venezuela ou na expectativa pelas eleições gerais de outubro. Um escândalo em torno do Banco Master, instituição financeira em forte crescimento nos últimos anos, abala os três poderes da República do Brasil e tem um potencial destrutivo já comparado ao da Lava Jato, a operação policial que mudou o ecossistema político do país na década passada.Com uma estratégia de captação de recursos considerada agressiva, por alguns analistas económicos, e suicida, por outros, o Banco Master, instituição financeira fundada em torno de Daniel Vorcaro, empresário de 42 anos da cidade de Belo Horizonte conhecido também pelo investimento milionário no clube Atlético Mineiro, cresceu imparável até ao início do ano passado. Nessa altura, um passivo de milhares de milhões de reais obrigou Vorcaro a tentar vender o Master ao estatal Banco de Brasília. Em setembro, porém, o Banco Central (BC) vetou a operação.Meses depois, logo após ser anunciada a venda à Fictor Holding Financeira, com a participação de investidores dos Emirados Árabes Unidos, a Polícia Federal (PF) prendeu Vorcaro, supostamente em fuga, no aeroporto de Guarulhos por fraudes em torno de 12 mil milhões de reais [quase dois mil milhões de euros]. Em seguida, o BC decretou a liquidação extrajudicial do banco pela “infringência de normas que disciplinam a atividade bancária” e pela “situação económico-financeira da instituição”. Como um castelo de cartas, na semana passada foi a vez do braço digital do banco, Will Bank, promovido pelo futebolista Vini Jr ou pelo apresentador Luciano Huck, também ser liquidado pelo BC. A PF ampliou, entretanto, as investigações a familiares e parceiros de negócios de Vorcaro. E nomes de políticos poderosos, como Ciro Nogueira, ex-ministro de Jair Bolsonaro e presidente do partido Progressistas, Antonio Rueda, presidente do União Brasil, João Doria, ex-governador de São Paulo, Guido Mantega, ministro das Finanças de Dilma Rousseff, ou Ibaneis Rocha, atual governador do Distrito Federal, constam do círculo de influências do banqueiro, segundo investigações da imprensa brasileira. Mais: familiares de Alexandre Moraes, o poderoso juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) que relatou o processo do golpe de estado, são advogados do banco. As decisões de Jhonatan de Jesus, ex-deputado do partido Republicanos e hoje juiz do Tribunal de Contas, de questionar a liquidação bancária do Master decretada pelo BC, e de Dias Toffoli, membro do STF, de chamar a si o processo, de o envolver em sigilo e de criticar a ação da PF, deram a dimensão da relevância do caso para os poderes de Brasília - e levaram à comparação com a Lava Jato. “Foi uma frente liderada por políticos, advogados e pelo STF que enterrou aquela que era considerada a maior operação de combate à corrupção da história do Brasil: a Lava Jato; hoje é uma frente também formada por políticos, advogados e pela Suprema Corte que parece atuar para enterrar aquela que já é apontada como a maior fraude bancária da história do país: o caso do Banco Master”, escreveu Caio Junqueira, da CNN Brasil. “Lá, o alvo principal era o sistema judicial de primeira instância, no presente, os alvos são a PF e o BC”, continua o colunista. “Mas há uma diferença crucial neste processo: na Lava Jato, não havia, como há hoje, parentes de juízes do Supremo que tenham recebido, direta ou indiretamente, milhões de reais dos investigados; agora, há”. Já Andréia Sadi, do portal G1, escreveu que “as conexões da cúpula do Banco Master formam uma combinação explosiva que preocupa integrantes da política e do próprio poder judicial”. Mas, após a decisão do juiz Dias Toffoli de cuidar do tema, “Brasília, que estava sem dormir, agora respira aliviada e até festeja”O caso chegou a Fernando Haddad, ministro das Finanças do governo de Lula da Silva. “Às vezes, eu ouço uma pessoa perguntar-me: ‘você não tem receio de uma nova Lava Jato?’ Bom, mas e isso vai ser pretexto para a gente não combater um crime que está diante dos nossos olhos? Não dá”, reagiu, em entrevista ao portal UOL na semana passada.Para Gustavo Sampaio, professor de Direito, “estamos diante de uma megaoperação que pode, a depender do encaminhamento, mudar a história do país, assim como tivemos marcos históricos, como a Lava Jato e o Mensalão”. “As investigações não só podem revelar novos braços desse vertedouro de dinheiro como podem chegar também a autoridades estaduais que potencialmente tenham influenciado as suas instituições públicas a investir num banco como o Master, que sabidamente estava envolvido em situações no mínimo heterodoxas”, defendeu o académico.Sampaio, entretanto, resume o que pode acontecer daqui para a frente, tendo em conta, por um lado, a dimensão gigantesca do escândalo, e por outro, o aparente esforço, também gigantesco, das autoridades para o conter. “Muita coisa poderá acontecer na República, inclusive nada…”.