O discurso do presidente norte-americano, Donald Trump, começou com a afirmação de que “a América está de volta” e terminou com a promessa de que esta será “a maior era” da história dos EUA. Pelo meio, os cerca de 100 minutos que demorou a intervenção diante das duas câmaras do Congresso foram um suceder de autoelogios - “conseguimos mais em 43 dias do que a maioria das Administrações em quatro ou oito anos. E estamos só a começar” - , algumas declarações exageradas e outras pouco factuais. Mas também a rara admissão de que as tarifas vão trazer “um pequeno transtorno” aos norte-americanos. “As tarifas são sobre tornar a América rica outra vez e tornar a América grande outra vez e isso está a acontecer e vai acontecer muito rapidamente. Vai haver um pequeno transtorno, mas estamos tranquilos com isso. Não vai ser muito”, afirmou Trump, ciente do impacto inicial negativo nos mercados. Nada que faça o presidente recuar de aplicar tarifas de 25% aos produtos do México e do Canadá ou de 20% aos da China. “Outros países usam tarifas contra nós há décadas e agora é a nossa vez de começar a usá-las contra esses outros países”, insistiu. Ao longo do discurso de uma hora e 40 minutos - o mais longo de um presidente em mais de seis décadas - Trump mencionou o seu antecessor em 13 ocasiões diferentes. Joe Biden foi apelidado de “o pior presidente na história americana”, responsável por deixar “uma catástrofe económica e um pesadelo de inflação” e, entre outras coisas, acusado de “deixar o preço dos ovos ficar fora de controlo”. Mas Trump não disse o que planeia fazer para lidar com a gripe das aves, responsável pelo aumento desses preços, dizendo apenas que “estamos a trabalhar arduamente para que eles voltem a baixar”. A luta contra a inflação parece focar-se no plano energético, com ordens para “drill, baby, drill” (perfurar). Desde que regressou à Casa Branca, Trump lembrou que assinou quase 100 ordens executivas e mais de 400 ações executivas. “Um recorde para restaurar o bom senso, a segurança, o otimismo e a riqueza” nos EUA, lembrando que o povo o elegeu para fazer um trabalho e ele está a fazê-lo. “O sonho americano é imparável e o nosso país está à beira de um comeback como o mundo nunca testemunhou antes e talvez nunca mais venha a testemunhar”, afirmou. Entre as conquistas, Trump lembrou ter declarado a emergência nacional na fronteira sul, destacando o exército para travar a imigração ilegal. “As entradas ilegais no mês passado foram, de longe, as mais baixas algumas vez registadas”, disse, a única afirmação apontada como “verdadeira” pelo fact-checking do The New York Times (outras foram consideradas enganadoras, falsas ou a necessitar de mais contexto). No total, cerca de 8300 pessoas foram detidas na fronteira, o valor mais baixo desde século. “Eles ouviram as minhas palavras e escolheram não vir. Muito mais fácil assim”, alegou o presidente. Trump também falou nos seus esforços para “drenar o pântano” de Washington, reiterando que “os dias de governação de burocratas não eleitos acabaram”. E agradeceu a Elon Musk, que estava nas galerias. À frente do Departamento de Eficiência Governamental (ou DOGE), o milionário dono da Tesla ou do X lidera os esforços para “acabar com o flagrante desperdício dos dólares dos contribuintes” - cortando em programas, como os da Agência para o Desenvolvimento Internacional, mas também despedindo funcionários federais. Se os despedimentos estão a ser contestados nos tribunais federais, a ajuda externa já tem uma decisão do Supremo - num voto de 5 contra 4 (onde dois juízes conservadores se juntaram aos liberais), o tribunal rejeitou o pedido de Trump para congelar quase dois mil milhões de dólares desta ajuda. O dinheiro dizia respeito a contratos que já tinham sido aprovados pelo Congresso e um juiz distrital tinha ordenado a suspensão do congelamento, com a Administração a considerar que ele tinha “excedido a sua autoridade”. De volta ao discurso de Trump, o foco foi claramente a política interna, com apenas breves referências à política externa que marcou a semana passada - nomeadamente depois do choque com o presidente ucraniano na Sala Oval. Trump disse ter recebido uma carta de Volodymyr Zelensky, na qual este diz estar preparado para negociar e estar pronto a trabalhar sob a sua “liderança forte” para alcançar “uma paz duradoura”. Além disso, diz-se preparado para assinar o acordo sobre minerais. Trump criticou ainda a União Europeia, alegando que os europeus “gastaram mais a comprar petróleo e gás russo do que a defender a Ucrânia”. Mas disse também que se está a “dar muito bem” com os europeus e “muitas coisas boas estão a acontecer”. Falou também do Médio Oriente - “muitas coisas estão a acontecer” -, reiterou que vai reclamar a devolução do Canal do Panamá e insistiu em querer a Gronelândia - “vamos tornar-vos ricos”. Nas bancadas, houve protestos de muitos democratas - o congressista Al Green, do Texas, foi mesmo expulso por vaiar o presidente, enquanto outros eleitos optaram por usar cartazes contra Trump ou virar-lhe as costas. A resposta oficial do partido coube à senadora Elissa Slotkin, do Michigan, com uma mensagem simples: os americanos vão pagar as políticas do presidente, defendendo que “a mudança não precisa de ser caótica”. Em relação à política externa, limitou-se a dizer: “Trump ter-nos-ia feito perder a Guerra Fria.”