Qual o seu comentário sobre o que está a acontecer no Irão?A situação é muito grave. Como podemos ver, atacaram a mesa de negociações, não apenas um país. Não nos resta outra opção senão defender a soberania do nosso país e esperar que possamos negociar. Porque estamos sempre dispostos a negociar. Nos últimos anos, as Nações Unidas e o direito internacional foram tão traídos! A cada hora que passa desde o início deste ataque, as pessoas percebem que o inimigo, em vez de lhes dar liberdade e segurança, trouxe guerra e violência. O ódio deles pelos EUA e por Israel, assim como a solidariedade aos seus soldados e a defesa da sua soberania, estão a aumentar. Atacaram o Irão sob o pretexto de mudança de regime, mas querem um golpe de Estado. A mudança de regime não se faz com bombardeamentos, acontece nas urnas, com votações. É o povo iraniano que decide o que quer. Disse que a mudança de regime não se faz com bombas. Mas as motivações para a intervenção militar dos EUA mudaram diversas vezes e um dos objetivos é agora “neutralizar a ameaça dos mísseis balísticos”. Qual o seu comentário?Quando um míssil é usado apenas para fins de defesa, e não para ataque, qual o seu grau de perigo? Portanto, se um ataque não ocorrer, não há perigo. O povo iraniano deveria ser capaz de se defender. Ninguém é ameaçado. O Irão é um país grande, com uma das maiores civilizações no mundo. Não mudámos o nome do nosso Ministério da Defesa para Ministério da Guerra. Nós respeitamos o direito internacional. Nós nunca atacamos. Esses mísseis são usados apenas para autodefesa. Eles não são usados para atacar ninguém.Mas os países vizinhos criticam o Irão pelo facto de estarem a ser atacados.Lamentamos profundamente que essa situação tenha surgido. Esperamos voltar em breve à normalidade. Mas estejam cientes de que essa guerra contra o nosso país se baseia na oposição de todos esses países. Isso significa que os Estados Unidos e Israel não têm sido de qualquer valor para esses países. Infelizmente, eles inverteram a situação. É óbvio que os países da região, do Golfo Pérsico e os países vizinhos, só querem paz e prosperidade uns para os outros. Queremos turismo em vez de terrorismo. Não gostamos das tensões no Médio Oriente e no Golfo Pérsico. Mas, nessa situação, vemos um ator transregional a entrar na região e fazer coisas que não fazem sentido para o contexto local. Precisamos de um movimento pela paz, na região, para podermos seguir em frente e sobreviver juntos.."Queria um espaço para que os inimigos pudessem dialogar. E eu gostaria que os Açores fossem uma plataforma para o diálogo, e não para a descolagem de aviões reabastecedores. Que sejam uma plataforma para a paz.".Apesar dos ataques, consegue contactar o Ministério dos Negócios Estrangeiros? Recebeu alguma mensagem especial?Sim, temos contacto. Qualquer coisa que recebemos passamos para o vosso ministério. Além disso, como há dificuldades nas ligações com o estrangeiro, pelo menos 150 iranianos vieram aos serviços consulares para fazer chamadas para os familiares.O que tem a dizer àqueles que estiveram em frente à embaixada em protesto contra o poder atual?Respeitamos a opinião de todos. Mas as pessoas que vieram protestar, entre 70 e 80, representam 2% da população dos iranianos em Portugal. Nós temos registados 4200 iranianos. Mesmo as pessoas que vieram protestar, dançar, cantar e estão felizes com estes acontecimentos também têm direito aos serviços consulares. A oposição é um direito de todos. Cada indivíduo tem o direito de se manifestar. Mas o caminho da democracia é reagir, não é apoiar o ataque de militares estrangeiros. Nunca vi ninguém no mundo que se alegre com um ataque ao seu próprio país. Do que temos certeza é que 98% da população do Irão opõe-se ao ataque ao seu país. Espero que o poder da lógica prevaleça sobre a lógica do poder. Espero que as negociações sejam sempre pela paz, e não para enganar e atacar os países. Precisamos encontrar maneiras de alcançar segurança e paz no mundo. Como professor universitário, defendi a necessidade de um novo fórum chamado Diálogo. Infelizmente, a ideia não prosperou. Queria um espaço para que os inimigos pudessem dialogar. E eu gostaria que os Açores fossem uma plataforma para o diálogo, e não para a descolagem de aviões reabastecedores. Que sejam uma plataforma para a paz.."Acredito que o nosso sistema precisa ser renovado, renovado e renovado, e que precisamos de mais democracia. Precisamos encontrar mais maneiras de democratizar e unir mais pessoas.". Qual a sua opinião sobre o uso da base das Lajes por parte dos EUA para as operações militares contra o Irão?Sinceramente, não sei qual é a regra. Desejamos que as nossas boas relações com Portugal, que remontam a mais de 500 anos, antes do nascimento de Cristóvão Colombo e da descoberta do continente americano, continuem como estavam e até melhor.Está a tentar comunicar com o governo português?Sim, enviámos uma mensagem e solicitámos uma reunião duas ou três vezes, mas ainda não obtivemos resposta. Disseram que estavam ocupados, mas solicitámos um agendamento para explicarem a situação. Pedimos que a conversa presencial seja retomada o mais breve possível.."O Irão representa uma enorme ameaça para o mundo, mas especialmente para Israel".Como é possível restaurar a confiança mútua entre o Irão e EUA?Os Estados Unidos e Israel precisam chegar à conclusão de que esta é uma guerra sem fim e é uma guerra perigosa para todos. E precisam chegar à conclusão de que a paz e a negociação são o melhor caminho a seguir. Mas talvez queiram estabelecer algo novo no Médio Oriente em nome de movimentos unilaterais. Penso que a base desta negociação depende dos lados norte-americano e israelita. Querem criar um movimento sem se ater à Carta das Nações Unidas para promover mudanças em todos os países. Precisam entender que isto não vai resultar no que imaginam. Precisam pensar em como vão gerir as suas relações com o mundo. E se os EUA e Israel não quiserem negociar?O Irão vai resistir. Não sei, um ano, dois anos, três anos. No Iraque, quando atacaram o Irão, lembro-me de Saddam dizer que estávamos acabados numa semana. Mas [a guerra] durou oito anos. Agora temos as melhores relações com os iraquianos. O Irão e os EUA podem criar uma situação melhor para o mundo. Todos têm o direito de viver. O que precisamos é de reconhecimento mútuo. Damos prioridade ao Artigo 52.º das Nações Unidas, que trata de acordos regionais. Acredito que precisamos de uma revolta pela paz. Se esta guerra continuar, nada acontecerá além da destruição de instalações e da morte de pessoas inocentes. Acredito que a solidariedade iraniana, baseada em 3000 anos de civilização, não será abalada. Essa solidariedade continuará porque estamos sob ataque. Estamos a defender a nossa terra, é o que chamamos de defesa santa. Não estamos em guerra contra ninguém, mas eles estão a bombardear a mesa de negociações. Essa mesa deveria ser erguida noutro lugar. Repare: a nossa revolução não foi pela guerra. A nossa revolução em 1979 foi para sermos um país independente e livre. Devolvemos os caças F-16 dos EUA porque dissemos que não precisávamos de guerra. Por que cancelámos todos os acordos militares no primeiro mês da revolução? Isso está documentado. Claro, acredito que o nosso sistema precisa ser renovado, renovado e renovado, e que precisamos de mais democracia. Precisamos encontrar mais maneiras de democratizar e unir mais pessoas. Mas não há dúvida de que, especialmente dentro do Irão, ninguém está feliz com o que está a acontecer no país..Operação de repatriamento. "Cansadas, mas muito agradecidas", dizem portuguesas de voo que chegou a Lisboa.Ataque com drones atinge base militar no aeroporto de Bagdade. Guterres teme que situação saia do controlo