O icónico edifício em forma de hélice ou espiral de Caracas foi desenhado nos anos 1950 para ser um centro comercial em versão drive-thru, com as lojas acessíveis aos carros graças a quatro quilómetros de rampas construídas numa colina. Mas o projeto futurista do arquitecto venezuelano Jorge Romero Gutiérrez (em colaboração com Pedro Neuberger e Dirk Bornhorst), batizado simplesmente de El Helicoide, nunca foi concluído por falta de dinheiro. A cúpula de alumínio no topo da estrutura de cimento só foi terminada nos anos 1980, com vários organismos governamentais a começarem a ocupar o espaço - incluindo a Direção dos Serviços de Inteligência e de Prevenção, que mais tarde daria lugar ao Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin), a temida polícia política criada por Hugo Chávez. As primeiras celas de prisão surgiram precisamente nos anos 1980, mas só após a revolução bolivariana de 1999 o edifício se tornou naquele que foi considerado o maior centro de tortura da América Latina. Agora, depois da queda de Nicolás Maduro (que sucedeu ao falecido Chávez em 2013), pode vir a ser transformado num complexo social, desportivo e cultural. Tudo em pleno processo para uma amnistia geral aos presos políticos (cerca de 700 ainda detidos), resultado da pressão dos EUA sobre o regime agora liderado por Delcy Rodríguez.“Espero que esses presos se lembrem da sorte que tiveram com a intervenção dos EUA, que fizeram o que precisava ser feito”, escreveu nas redes sociais o presidente Donald Trump, congratulando-se com o anúncio e lembrando a operação militar de 3 de janeiro que levou à queda de Maduro.“Decidimos promover uma lei de amnistia geral que abranja todo o período de violência política de 1999 até o presente”, disse a presidente interina a 30 de janeiro. .O que mudou na Venezuela um mês após a queda de Maduro?.A lei, que a ex-vice-presidente de Maduro disse servir “para curar as feridas deixadas pelo confronto político alimentado pela violência e pelo extremismo”, para “restaurar a justiça” e “restabelecer a convivência entre os venezuelanos” passou a primeira votação na Assembleia Nacional na quinta-feira (5 de fevereiro), devendo ser de novo votada esta terça-feira (10 de fevereiro).“As instalações do Helicoide, que hoje servem como centro de detenção, serão transformadas num centro social, desportivo, cultural e comercial para a família policial e para as comunidades ao redor do local”, afirmou Delcy Rodríguez ao apresentar a medida como parte de um programa social chamado ‘Guardiões da Pátria’, destinado a favorecer os funcionários da polícia.Há anos que as organizações de direitos humanos denunciam a tortura na prisão de El Helicoide. Em novembro de 2022, as Nações Unidas investigaram 51 casos e fizeram um relatório. “O Sebin ocupa dois andares do edifício, e o rés-do-chão alberga a maioria das celas de detenção, incluindo as que são utilizadas especificamente para punir e torturar detidos”, diz o documento, que denuncia também a falta de condições.“Os ex-reclusos descreveram as condições de detenção como terríveis, com celas frequentemente sobrelotadas, muito para além da sua capacidade. As celas, na sua maioria, careciam de luz natural e de água, e como os reclusos tinham direito a apenas uma ida à casa de banho por dia, muitos eram obrigados a urinar em garrafas de plástico”, diz o texto, dizendo que a situação para as mulheres era ainda pior. As organizações que ajudam os presos e as famílias, como a Justiça, Encontro e Perdão, congratulam-se com o encerramento de El Helicoide. Mas não com os planos do regime. Martha Tineo, coordenadora dessa ONG, defende que o local deveria ser convertido num espaço de memória, semelhante à antiga Escola de Mecânica da Marinha (ESMA) em Buenos Aires, que foi um centro de tortura durante a ditadura militar argentina e agora é um museu. Isto ofereceria “uma forma de reparação às vítimas, contando a verdade e garantindo que estes horrores nunca mais se repetirão”, disse, citada pelo jornal The Guardian. Desde a queda de Maduro já foram libertados quase 400 presos políticos, segundo as contas de outra organização, a Foro Penal. Mas muitos não estão autorizados a falar e são alvo de medidas judiciais (não podem participar em protestos ou têm que se apresentar mensalmente a um juiz, por exemplo), o que mudará com a amnistia. Além disso, restam ainda quase outros 700 na prisão, muitos no Helicoide. .María Corina Machado acredita em eleições antes do final do ano na Venezuela