"É absurdo que a presidente da Comissão Europeia ainda diga que discorda das cercas para proteger as fronteiras"

Em entrevista ao DN, Péter Szijjártó, ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria, volta a defender a construção de barreiras físicas nas fronteiras leste da União Europeia para impedir a entrada de migrantes, perante a crise na Polónia, duvida que as sanções aplicadas à Bielorrússia surtam algum efeito e critica as "afirmações irresponsáveis" de alguns políticos ocidentais. Nos diferendos com Bruxelas, diz, "o que está em causa é um debate ideológico, nada tem a ver com democracia".

Em Portugal para uma reunião ministerial intermédia da Agência Espacial Europeia, no CEiiA em Matosinhos, o ministro dos Negócios Estrangeiros e do Comércio Externo da Hungria explicou ao DN a ambiciosa estratégia espacial húngara, que prevê ter um astronauta na Estação Espacial Internacional até 2025, e como Portugal é um parceiro importante nessa área. Mas Péter Szijjártó também falou de outros temas que marcam a agenda europeia, como o regresso da crise dos migrantes às fronteiras leste da EU, as relações da Hungria com as instituições europeias ou o papel da Rússia na política externa do país.

O governante, que também foi notícia por usar uma camisola do Sporting durante uma entrevista que deu a partir de casa na altura em que esteve infetado com covid-19, há cerca de um ano, aproveitou ainda a passagem pelo Grande Porto para dar um salto ao Estádio do Dragão e "homenagear os treinadores húngaros que contribuíram com seis dos primeiros nove títulos de campeão nacional do FC Porto", confidenciou.

Da experiência do radar lunar de Zoltan Bay, há 75 anos, ao primeiro e até agora único cosmonauta húngaro, Bertalan Farkas, a Hungria tem já alguma história relacionada com a exploração espacial. Agora, o seu governo aprovou uma ambiciosa estratégia espacial que prevê um investimento de 100 milhões de euros em cinco anos. Quais os principais objetivos dessa estratégia?
O programa tem quatro pilares. O principal foco é num grande objetivo nacional que é ter um astronauta na Estação Espacial Internacional até 2025. Não será o primeiro, de facto nos anos 1980 já tivemos Bertalan Farkas, que trabalha agora no meu ministério. Mas esse é o objetivo mais ambicioso, o processo já começou e a candidatura já foi submetida. O segundo objetivo é que este astronauta realize algumas experiências e missões na Estação Espacial Internacional relacionadas com diferentes aspetos como farmacologia, biologia espacial, dosimetria, observação da Terra e também deve ser capaz de aplicar na ISS um sistema tecnológico que está a ser desenvolvido ao abrigo da cooperação entre a Hungria e a Rússia com vista a melhorar as capacidades de previsão da meteorologia espacial. O terceiro pilar é um programa de ensino superior que engloba 17 universidades húngaras para formar estudantes com vista à criação de uma forte área de investigação e de uma indústria dedicadas ao espaço. E, por fim, o lançamento do nosso primeiro satélite comercial, que tem estado a ser preparado e que esperamos lançar em 2024.

Que papel devem ter a Agência Espacial Europeia e a União Europeia nesta nova era da corrida ao Espaço?
Como temos visto, a indústria do espaço será uma das indústrias mais importantes no futuro. Pode parecer ainda ficção científica, mas será uma realidade mais cedo do que prevemos. O espaço não tem apenas uma dimensão industrial, mas também uma importância estratégica ao nível da segurança e defesa. Por isso, a União Europeia deverá criar capacidades nesta área e tanto a Agência Espacial Europeia como a UE têm o papel de assegurar as fontes de financiamento necessário para as empresas europeias poderem ser competitivas neste campo. Esta é uma indústria cara, na qual tem de se gastar muito dinheiro em investigação e desenvolvimento de forma a ser-se competitivo. E sem os fundos europeus isso não é possível. Nós acreditamos que tanto o programa Copernicus como o Galileo são importantes para dar essa competitividade necessária à União Europeia e esperamos que a UE continue a financiar estes programas a um nível apropriado. O que vemos é que tanto a Rússia como a China estão muito desenvolvidas em investigação espacial, os EUA investem muito dinheiro nesse campo também... Neste momento acho que a UE não está muito atrasada, mas se não formos capazes de reunir o financiamento e capacidades necessárias esta será seguramente outra área em que a Europa ficará para trás.

A Hungria assinou um protocolo de cooperação com Portugal para a troca de dados de satélite. Que interesses comuns têm os dois países nesta área?
O foco principal desta cooperação consiste em ver como podemos contribuir para o melhor funcionamento do vosso porto espacial de lançamento de satélites nos Açores. Temos várias empresas que podem proporcionar aos operadores as soluções tecnológicas, equipamento e materiais. Empresas húngaras já estiveram envolvidas na construção de muitos dos satélites que orbitam a Terra, com soluções tecnológicas por exemplo ao nível do isolamento, e ainda há poucos dias assinámos um acordo de cooperação com o grupo Thales, um dos mais importantes na indústria espacial, o que vai ajudar a desenvolver as capacidades das empresas húngaras nesta indústria. Por isso estamos muito satisfeitos por poder oferecer o know-how das empresas húngaras. Por outro lado, penso que seria importante considerar seriamente o acordo sobre partilha de dados, porque, como já disse, esta é uma indústria cara e se quisermos ser bem sucedidos na investigação e desenvolvimento, a matéria-prima mais importante são os dados. Quanto maior essa partilha mais podemos desenvolver as nossas indústrias.


Para além da questão espacial, como estão as relações bilaterais entre os dois países?
Não temos qualquer obstáculo político. Baseamos a nossa relação bilateral em respeito mútuo, reconhecendo que há áreas em que os nossos governos têm diferentes abordagens, mas tentamos concentrar-nos nas áreas em que temos interesses comuns e nas quais podemos trabalhar em conjunto. Por exemplo, no ensino. Temos três universidades húngaras a oferecer o ensino do português e também acolhemos o Instituto Camões na Hungria. Há nove escolas secundárias a ensinar língua portuguesa. Gostávamos de expandir essa oferta e ajudar mais estudantes e jovens húngaros a ter acesso à língua portuguesa, porque lançámos um protocolo estratégico denominado "Abertura ao Sul", ao abrigo do qual queremos dar maior ênfase a relações económicas com alguns países de África e da América Latina. E a língua portuguesa é uma enorme vantagem competitiva nesses mercados. Também já contribuímos para a missão portuguesa de ajudar países africanos com o fornecimento de vacinas contra a covid-19 - estive aqui recentemente a entregar 200 mil vacinas da AstraZeneca a Portugal - e penso que com base nestes passos positivos podemos melhorar ainda mais as nossas relações bilaterais. Só nos primeiros oito meses deste ano tivemos uma subida de 30% nas trocas comerciais entre os dois países.

"Ao abrigo de uma "Abertura ao Sul" queremos dar maior ênfase a relações económicas com alguns países de África e da América Latina. E a língua portuguesa é uma enorme vantagem nesses mercados."

A agenda europeia volta a ser confrontada com o problema migratório, que a Hungria já enfrentou e que agora atinge sobretudo a fronteira polaca com a Bielorrússia. A Hungria foi fortemente criticada por ter decidido construir cercas para impedir a entrada de migrantes. A Polónia já anunciou que vai fazer o mesmo. O regresso da pressão migratória reforça, de alguma forma, a decisão húngara?
Se olhar para os últimos seis anos, desde 2015, quando a grande crise migratória atingiu as fronteiras da Hungria, construir cercas era a única solução. E essa nossa decisão resultou muito bem até agora, porque só neste ano, até ao início de novembro, o número de migrantes ilegais que queria violar as nossas fronteiras excedeu os 100 mil. Só neste ano. Imagine o que teria acontecido sem cercas. Penso que esta discussão está mais atual do que nunca. O continente está sob pressão vinda de três direções: do sul, Mediterrâneo, e vocês têm-se debatido com isso já em Portugal; do sudeste, através do Balcãs Ocidentais; e agora do leste, desde a Bielorrússia. Isso nunca tinha acontecido até agora, três correntes migratórias em simultâneo. E os nossos serviços de inteligência têm-nos reportado que há atualmente 30 a 35 mil pessoas a deixar o Afeganistão todos os dias e estou muito convicto de que elas não querem ficar naquela região, mas sim vir para a Europa. Por isso, penso que a Comissão Europeia deveria mudar a sua política migratória, deveria apoiar aqueles que estão a proteger as fronteiras da Europa e devia apoiar medidas de proteção dessas fronteiras. E os nosso colegas da Europa ocidental deveriam abster-se de fazer afirmações irresponsáveis que podem ser entendidas como um convite por aqueles que querem vir para a Europa.

Muitos países ocidentais têm acusado a Bielorrússia de estar a usar os migrantes como arma política. Acha que essa é uma afirmação irresponsável? Não partilha dessa ideia?
Não, quando falo em afirmações irresponsáveis refiro-me a frases como as de que todas as pessoas em situação de necessidade no Afeganistão deveriam vir para a Europa ou de que os barcos com migrantes não deveriam ser enviados de volta. Quanto à Bielorrússia o que posso dizer é que tivemos a mesma experiência, em 2015, com a Croácia, quando o governo croata conduziu os migrantes até à fronteira com a Hungria de uma forma organizada. Conhecemos o sentimento, o fenómeno, por isso manifestamos a nossa solidariedade aos nossos amigos polacos. E é por isso que pedimos à União Europeia uma ajuda real nestes casos. É absurdo e vergonhoso que a presidente da Comissão Europeia ainda diga que discorda da construção de cercas nas fronteiras. Se não construirmos estas cercas não podemos proteger a nossa fronteira.

É a única solução, uma Europa protegida por cercas?
Imagine quando centenas de milhares de migrantes estão a violar as fronteiras de um país, como é o nosso caso. Não se consegue proteger apenas com meios humanos. Precisamos de um obstáculo físico.

Concorda com as sanções aplicadas pela União Europeia à Bielorrússia?
Para ser honesto, não sei se as sanções vão ajudar ou não, porque se olhar para o registo histórico da política de sanções da União Europeia torna-se óbvio que de cada vez que foram aplicadas sanções foram completamente fracassadas. Mas não vejo nenhuma outra ferramenta ao dispor nesta altura, infelizmente.

Há receios de que a crise possa escalar na região, com um envolvimento da NATO e da Rússia. O que pensa do papel da Rússia nesta crise migratória e da ideia defendida por vários políticos europeus de que nada acontece em Minsk sem a aprovação de Moscovo?
Não posso subscrever essa ideia. Não sei se é verdade, não faço ideia. O que sei é que há este fenómeno na Europa em que é muito fácil apontar para a Rússia, mas eu penso que as coisas são mais complexas do que isso, seja quanto à crise de energia, seja quanto à Bielorrússia ou outro assunto qualquer. Eu sou de um país pequeno do centro da Europa e o que a história já nos mostrou é que é do nosso interesse, do ponto de vista da segurança nacional, que exista um diálogo racional, pragmático entre o Este e o Oeste. Se olhar para a nossa história, vê que sempre que houve um conflito entre os dois blocos, nós, húngaros e outros povos do centro da Europa, fomos sempre os perdedores. Por isso, quando apelamos a que haja um diálogo racional, baseado no respeito mútuo, entre Este e Oeste, não é porque sejamos espiões de Putin ou alguma fantasia desse género. É apenas do nosso interesse nacional.

A Hungria consegue ser membro da União Europeia e da NATO e, ao mesmo tempo, manter a Rússia como um parceiro privilegiado na política externa, com ligações que vão desde o fornecimento de gás à recente encomenda de vacinas para a covid-19. É possível estar dos dois lados desta barricada, por assim dizer?
Nós somos membros efetivos da NATO e da UE, é uma realidade. Mas tal como outros grandes países europeus tentamos aplicar uma relação pragmática com a Rússia. Não nos esqueçamos que a Alemanha e a França, e outros grandes países ocidentais europeus, têm relações muito mais fortes com a China e com a Rússia do que revelam. Fazem muitos mais negócios com a Rússia e a China do que aquilo que dizem publicamente. Basta olhar para os números das trocas comerciais. Compreendo que quando se é um país grande se pode ter um discurso e uma ação diferentes, mas como nós não somos um país assim tão grande temos que ser coerentes no discurso e na ação. E devo dizer que o nosso relacionamento pragmático com a Rússia tem dado resultados. Este ano pudemos comprar dois milhões de doses de vacinas da Sputnik que nos permitiu acelerar a nossa campanha de vacinação contra a covid-19 durante uma altura em que os produtores ocidentais não cumpriram com as suas obrigações contratuais, como deve lembrar-se. Conseguimos fazer um contrato de longa duração de fornecimento de gás a um preço muito razoável, numa altura em que há estes constrangimentos energéticos na Europa. E a maior encomenda internacional para a nossa indústria de transportes foi conseguida por uma parceria entre empresas húngaras e russas no Egito. Por isso, é uma relação pragmática que nos beneficia. Mas isso não altera o nosso estatuto e compromisso na União Europeia ou na NATO. A presença da Alemanha na União Europeia e na NATO também não é posta em causa pelos negócios que faz com a Rússia. Temos de ser justos nesta matéria.

"Quando apelamos a um diálogo racional, baseado no respeito mútuo, entre UE e Rússia, não é porque sejamos espiões de Putin ou outra fantasia do género. A história mostra que é do nosso interesse nacional."

Como define as relações atuais entre a Hungria e as instituições europeias?
O que posso dizer é que há um debate forte sobre o futuro da Europa. A Europa está confrontada com desafios e é óbvio que tenhamos esses debates. Sobre estes debates, teremos sempre uma palavra a dizer, quer as instituições gostem ou não. E defenderemos sempre a nossa posição, quer as instituições gostem ou não. Queremos que a União Europeia seja forte, mas acreditamos que criar uma espécie de Estados Unidos da Europa não é a solução. Nós somos um país soberano, representamos uma abordagem soberana e acreditamos que a União Europeia pode ser forte se os seus Estados membros forem fortes. Enfraquecer os Estados-membros, retirar competências nacionais e levá-las para Bruxelas não é algo que possamos apoiar.

A Hungria e a Polónia entraram com uma ação no Tribunal de Justiça da UE para contestar o mecanismo do Estado de Direito que permite à UE parar de financiar governos de Estados-Membros que ameacem os valores fundamentais. O que acontece se o Tribunal Europeu de Justiça der luz verde a esse mecanismo. O papel da Hungria na UE fica em causa?
O que acontece é que não se trata de uma questão de Estado de Direito, mas sim de chantagem. Não é um debate sobre se as instituições estão a agir corretamente ou não, é um debate ideológico. E como nós vamos contra o mainstream liberal europeu, como o nosso governo é patriótico, democrata-cristão e de direita, este debate ideológico mantém-se nas instituições europeias. Enquanto a UE for dominada pelo mainstream liberal teremos esta discussão. Mas o que está em causa neste debate é ideologia política, não a democracia.

rui.frias@dn.pt

Esta entrevista é publicada em versão ligeiramente mais curta na edição impressa do DN deste sábado (20)

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