O desejo de Donald Trump de dar o seu nome a tudo não surgiu agora - basta olhar para a Organização Trump que engloba mais de duas centenas de negócios que deixou nas mãos dos filhos (entre eles Donald Trump Jr.) ou os vários edifícios espalhados pelos EUA e o mundo, desde hotéis a torres de apartamentos, o mais famoso o arranha-céus na Quinta Avenida em Nova Iorque.Mas esse desejo parece ter ganhado força no seu regresso à Casa Branca. Num só ano, o presidente norte-americano já rebatizou várias coisas, desde o Centro Kennedy ao Instituto da Paz, e criou outras a que deu o seu apelido, como as contas bancárias para crianças ou o site de compra de medicamentos. E ainda não acabou.Segundo o site Axios, o presidente terá alegadamente sugerido libertar o dinheiro federal necessário para um grande projeto de infraestruturas em Nova Iorque se o líder da minoria democrata, Chuck Schumer, aceitasse rebatizar a Penn Station (icónica estação de comboios em Manhattan) e o Aeroporto Internacional de Dulles, em Washington, com o seu nome. Essa tentativa falhou, mas isso não parece travar Trump.Centro KennedyA inscrição do nome de Trump na fachada do edifício do Centro John F. Kennedy para as Artes Performativas, criado em Washington em memória do presidente assassinado em 1963, foi só o culminar de um processo que o atual inquilino da Casa Branca começou poucos dias depois de ter tomado posse em janeiro de 2025.O primeiro passo foi a demissão da responsável máxima e de vários membros do Conselho de Curadores, após criticar a programação do local - demasiado “woke” (sinónimo de políticas liberais e de esquerda). Os substitutos foram escolhidos a dedo por Trump, que assumiu a liderança desse grupo.As mudanças seguiram-se, com o fim, por exemplo, de programas sociais contra o racismo, e as alterações levaram ao cancelamento de vários espectáculos. Nos que avançaram, eram muitos os lugares vazios, com membros a cancelar as suas subscrições (o The Washington Post falou logo em junho numa queda de 36%, equivalente a 1,6 milhões de dólares).Em meados de dezembro, veio o anúncio da parte da nova gestão que o edifício seria rebatizado Centro Donald J. Trump-John F. Kennedy e antes que alguém pudesse contestar (nomeadamente o Congresso, que tinha que aprovar a decisão), o nome do presidente foi acrescentado na fachada. A resposta foi o cancelamento de mais espetáculos e o anúncio da Ópera Nacional de Washington que ia deixar o centro que lhe servia de casa desde 1971. Já o compositor Philip Glass cancelou a estreia, prevista para junho, da sua nova sinfonia Lincoln..Concerto de Natal no Kennedy Center cancelado depois de Trump pôr o seu nome no edifício.A 1 de fevereiro, dias depois de a sala de espetáculos ter sido o palco da estreia do documentário da primeira-dama Melania, o presidente fez novo anúncio: o centro vai fechar durante dois anos para obras profundas (há um orçamento de mais de 200 milhões de euros na Lei Grande e Bonita para renovações que o Congresso aprovou no ano passado e não é claro de onde virá o resto do dinheiro). Depois de ter destruído a Ala Este da Casa Branca para construir um enorme salão de baile (há quem diga que também quer que se venha a chamar Trump), há receios em relação aos seu planos. Instituto da PazEm dezembro, o nome do presidente que alega já ter resolvido pelo menos sete conflitos e não esconde o seu desagrado por não ter ganhado o Nobel da Paz foi colocado também na sede do Instituto da Paz, um think tank independente sem fins lucrativos financiado pelo Congresso. Um organismo que o próprio Trump quis desmantelar no início do mandato, dando luz verde ao DOGE (Departamento de Eficiência Governamental) de Elon Musk para que o fizesse. Um primeiro juiz ainda travou o processo, mas outro permitiu que avançasse.Agora, o edifício é a casa do Conselho de Paz, que Trump criou para supervisionar o plano do acordo de cessar-fogo na Faixa de Gaza, mas cujo âmbito já foi alargado para atuar em qualquer conflito. Cerca de duas dezenas de países aderiram ao Conselho da Paz, formalizado durante o Fórum Económico de Davos, em janeiro, mas a primeira reunião do Conselho deverá acontecer no dia 19 deste mês, segundo a CNN, no edifício em Washington, junto com uma angariação de fundos.."O Nobel era a única coisa que, a nível simbólico, María Corina Machado tinha para poder dar a Trump".Frota DouradaEm dezembro, o presidente anunciou também que a Marinha dos EUA vai desenvolver uma nova classe de navios de guerra - apelidada de classe Trump. Vão ser “os navio de combate de superfície mais letais alguma vez construídos”, espinha dorsal de uma nova “frota dourada” moderna, liderada pelo USS Defiant.Mas os especialistas duvidam que estes navios cheguem a ver a luz do dia, dado o preço e o tempo que é preciso para os construir. Além disso, este tipo de supernavios tanques são considerados obsoletos diante da novas estratégias de guerra. “Uma futura administração cancelará o programa antes mesmo de o primeiro navio tocar no mar”, escreveu o analista Mark F. Cancian, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. Ainda a nível militar, a Força Aérea também anunciou um novo caça, o F-47. O nome é uma referência ao ano em que esta força foi criada nos EUA, uma homenagem ao avião de combate P-47 dos tempos da II Guerra Mundial, mas também ao facto de Trump ser o 47.º presidente.Contas bancáriasO presidente deu também o seu nome às “contas Trump”, que na prática são contas de poupança pessoais com benefícios fiscais que se destinam às crianças e para as quais os pais, outras pessoas e instituições podem contribuir. O contributo dos pais e dos respetivos patrões será, no máximo, de cinco mil dólares por ano. Mas filantropos, organizações de caridade e entidades governamentais podem contribuir sem limite.O dinheiro é investido em ações, obrigações ou fundos mútuos de reforma (pelo menos 90% deles norte-americanos) por uma empresa financeira (ainda não foi divulgado qual será), só podendo ser mexido pela criança após completar 18 anos. No final desse prazo, a criança poderá ter algo entre 170 e 230 mil dólares (dependendo da contribuição anual que for feita e da rentabilidade dos investimentos). Caso faça um simples levantamento, pagará impostos sobre o rendimento, mas poderá estar isenta se usar o dinheiro para ajudar a pagar a universidade ou dar entrada numa casa.A Administração Trump vai contribuir com mil dólares para as contas de todas as crianças nascidas durante o mandato do presidente, mas o projeto está aberto a todas as que tenham nascido nos EUA nos últimos 18 anos e tenham um número de segurança social válido (só não recebem esse bónus). O programa vai avançar a 5 de julho, mas as famílias já podem inscrever-se através do formulário de IRS 4547 (referência ao facto de Trump ser o presidente 45.º e o 47.º dos EUA).A ideia de investir no futuro de uma criança é positiva para muitos, mas os críticos dizem que o programa só vai criar mais desigualdade, porque muitos pais não vão conseguir contribuir para estas contas. As famílias mais pobres já são as que menos conseguem poupar ou contribuir para fundos de reforma. Logo, serão os filhos de famílias com melhores rendimentos que vão beneficiar.Farmácia TrumpO presidente lançou já este ano a plataforma TrumpRx, que na prática é uma farmácia online onde os norte-americanos podem imprimir cupões para comprar medicamentos com receita médica a preços reduzidos (desde 33% a 93% de desconto em relação ao preço recomendado). Fármacos para a asma, a infertilidade ou a obesidade estão entre os 47 já disponíveis.A iniciativa foi elogiada por muitas pessoas, que apontam por exemplo o facto de alguns medicamentos para a infertilidade não cobertos pelos seguros estarem disponíveis, mas há quem lembre que mais de metade dos medicamentos no site já existe em forma de genérico mais barato. Nos EUA, o preço dos medicamentos (de marca ou genéricos) era 2,7 vezes mais elevado do que noutros países, segundo um relatório governamental de 2022.Trump está entretanto a querer forçar as farmacêuticas a venderem medicamentos aos EUA ao preço mais barato praticado a nível global, ao abrigo da iniciativa “Não mais favorecida” que já tinha lançado no primeiro mandato mas que só agora está a ser implementada. Algumas das maiores farmacêuticas já aderiram ao programa, alegadamente com descontos de 85% em alguns medicamentos.."Um dos dias mais importantes". Trump anuncia acordo com Pfizer para baixar preços de medicamentos nos EUA.Visto DouradoO “Trump Gold Card” é isso mesmo: um cartão dourado com a foto e a assinatura do presidente que permite acelerar o processo de residência dos imigrantes mais ricos. Basta pagar um milhão de dólares e têm acesso ao visto de residência nos EUA em poucas semanas - além de 15 mil dólares iniciais não reembolsáveis para pôr o processo a andar.As empresas têm também acesso ao “cartão dourado corporativo”, podendo pagar dois milhões de dólares e patrocinar a ida para os EUA de um trabalhador estrangeiro. Além disso, está ainda prevista uma versão platina de cinco milhões de dólares, com os candidatos elegíveis a poder passar até 270 dias nos EUA sem estarem sujeitos a impostos americanos sobre rendimentos não americanos..Trump anuncia "vistos gold" para milionários nos EUA.Os críticos dizem que o governo está a dar prioridade à riqueza em vez do talento, tendo já dado entrada nos tribunais um processo para travar o programa. Os vistos dourados de Trump são vistos EB-1 e EB-2, destinados a imigrantes com “capacidades extraordinárias” ou “capacidades excecionais”. O primeiro era conhecido como “visto Einstein”. Ambos têm um limite máximo por ano, pelo que se podem ser comprados o que se presume é que haverá menos pessoas que verdadeiramente os merecem a poder beneficiar.