Quase um ano depois de Donald Trump regressar à Casa Branca, os EUA e o mundo estão hoje totalmente diferentes. Trump 2.0 representa uma quebra não apenas com todos os outros presidentes norte-americanos, mas com o próprio Trump 1.0, escreveu a revista The New Yorker. Não que ele admita algum erro no passado, lembra a publicação, mas porque está feliz por rejeitar as políticas dos que o rodeavam, mesmo aquelas em que colocou a sua assinatura. E aquilo que antes dizia apenas em privado, agora não tem problemas de dizer em público, tendo à sua volta pessoas que aparentemente não lhe dizem “não” - ao contrário do que acontecia durante o primeiro mandato. “A minha própria moralidade. A minha própria mente. É a única coisa que me pode deter”, disse Trump numa entrevista na semana passada ao jornal The New York Times, quando questionado sobre a sua visão de política externa, com a operação militar recente na Venezuela ou as ameaças à Gronelândia. “Não preciso da lei internacional”, insistiu.A lei é, aparentemente, a única coisa que faz com que a citação relativa à sua política externa não se aplique a 100% também à política interna. O sistema judicial parece ser o único travão (até quando?) para o presidente. Já o Congresso, onde os republicanos têm a maioria nas duas câmaras, tem-se revelado incapaz de (ou renunciado a) travá-lo. Mas o presidente sabe que está em risco nas eleições intercalares de novembro. “Se não ganharmos (...) eles vão encontrar uma razão para um impeachment. Vou ser destituído”, afirmou numa reunião de congressistas republicanos. Mas afinal, o que mudou nestes quase 12 meses?Balanço do poder Mesmo com a maioria nas duas Câmaras do Congresso, Trump tornou claro desde o início que iria governar ao máximo por decreto presidencial. Segundo a contagem do Pew Research Center, até 15 de dezembro o republicano já tinha emitido 221 ordens executivas, mais uma do que em todo o primeiro mandato. As ordens dizem respeito a questões governamentais, relações externas, defesa, energia ou imigração. E muitas foram contestadas nos tribunais, levantando questões sobre o limite dos poderes do presidente. O Supremo Tribunal (que tem uma maioria conservadora) tem ainda de decidir, por exemplo, a validade das tarifas que Trump impôs a todo o mundo. Seria “um golpe terrível” contra os EUA se fossem invalidadas, disse o presidente.Em tempos normais, o Congresso e o Supremo Tribunal intervêm para controlar o poder presidencial (e todos testaram esses limites). Mas Trump goza do que a revista The Economist apelida de “deferência institucional”. Por um lado, por causa de uma “legislatura insignificante”. Os congressistas “dão prioridade à preservação em detrimento dos princípios e, em geral, comportam-se como caranguejos-eremitas”, preferindo esconder-se. Quando chamados a atuar, como no caso da Lei Grande e Bonita, fazem o que Trump lhes diz - raramente o confrontaram.Por outro lado, a “deferência institucional” deve-se a um Supremo “do outro mundo”, liderado pelo juiz conservador John Roberts. A revista escreve que “a combinação de um tribunal que alega moderação com um presidente que procura o poder é tão inflamável como o etanol no ar”. Outra disrupção do presidente diz respeito ao próprio governo federal, com a entrada em cena do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) de Elon Musk. Trump criou-o por ordem executiva, encarregando o milionário de “desmantelar a burocracia governamental, reduzir drasticamente as regulamentações excessivas, cortar nas despesas desnecessárias e reestruturar as agências federais” - em suma, “drenar o pântano” de Washington, que não tinha conseguido fazer no primeiro mandato.O DOGE despediu cerca de 300 mil funcionários federais e cortou inúmeros programas governamentais, alegando ter poupado milhares de milhões de dólares. Um valor que será exagerado, tendo sido contestado por análises independentes. Musk, cujas empresas ficaram sob fogo por causa do seu envolvimento político, acabaria por deixar o departamento em maio de 2025 e o próprio DOGE foi desmantelado antes do final do ano. Mas as ordens para reduzir o governo federal continuam a ser aplicadas.Economia e tarifasO descontentamento com a situação económica dos EUA ajudou à reeleição de Trump, que prometeu “consertar” a inflação no primeiro dia. Mas essa tarefa revelou-se difícil, com as tarifas que apresentou no Dia da Libertação (2 de abril) a interromperem uma tendência de queda dos preços. O presidente chega ao fim do primeiro ano de mandato a ter de enfrentar um novo problema com uma nova expressão: “affordability” (acessibilidade, no sentido de facilidade de acesso a determinado bem ou produto). Durante quase todo o ano Trump andou a dizer que a “affordability” era uma farsa criada pelos democratas, mas as sondagens mostram que cerca de dois terços dos norte-americanos desaprovam a forma como o presidente está a lidar com a economia - o que em ano de eleições intercalares não é bom.A inflação estava, em dezembro, nos 2,7%, bem acima da meta de 2% desejada. Trump, que critica o presidente da Reserva Federal dos EUA por não cortar as taxas de juro mais rapidamente (está nos 3,75%), insiste que os preços estão a baixar. Mas os dados não o provam e os consumidores não o sentem.A ameaça do aumento dos custos com a Saúde neste novo ano parece ter sido entretanto evitada, com um acordo de última hora no Congresso para prolongar os benefícios do Obamacare - uma discussão que tinha levado ao mais longo shutdown da História dos EUA, que durou 35 dias. E, na semana passada, o presidente anunciou novas medidas sobre habitação, para enfrentar o problema, nomeadamente impedir que investidores comprem casas, para evitar especulação.Quando pressionado com o custo de vida, Trump repete o mesmo mantra: a culpa é de Joe Biden. E rejeita que as tarifas que impôs a todo o mundo (no valor médio de 17,9% em outubro, o mais alto desde 1934) possam ser o problema. O presidente diz que os EUA já angariaram 600 mil milhões de dólares. As tarifas são pagas por quem importa os produtos, podendo essas empresas negociar uma partilha dos custos com quem exporta (que não quer perder negócio). Mas os consumidores também as pagam.As tarifas foram impostas por ordem executiva, ao abrigo de uma lei de 1977 destinada a situações de emergência. Trump alega que tornam os EUA mais fortes do ponto de vista financeiro, alegando emergência nacional causada pelo défice comercial. E mesmo se o Supremo disser que são ilegais, espera-se que a Administração encontre alternativas. A nível do emprego, a economia continua a gerar postos de trabalho, mas a um nível muito inferior ao que teria capacidade. Em dezembro de 2024, tinham sido criados mais de 300 mil novos empregos, enquanto em dezembro de 2025 foram apenas 50 mil, com os empresários cautelosos por causa das tarifas, mas também começa a sentir-se o impacto da Inteligência Artificial. O desemprego está nos 4,4%.Imigração O controlo da imigração está no centro da política de Trump, desde as promessas de 2015 de construir um muro na fronteira com o México (que seria pago pelos mexicanos). A versão 2.0 de Trump não se ficou por impedir as entradas, apostou também em aumentar as expulsões daqueles que estão ilegalmente nos EUA.As estatísticas mostram que as detenções na fronteira com o México caíram mais de 90% e estão no valor mais baixo desde a década de 1970. De 106 mil detenções em outubro de 2024, para pouco mais de sete mil em novembro do ano passado. E dos que são apanhados, a Casa Branca orgulha-se de que “zero” são libertados nos EUA.No início de dezembro, a Administração congratulava-se com o facto de mais de 2,5 milhões de imigrantes ilegais já terem deixado os EUA. Destes, mais de 600 mil foram deportados pelas autoridades (alegadamente a maioria eram criminosos), enquanto 1,9 milhões optaram por se “autodeportar” - com direito a voo pago e a mil dólares de apoio. Mas a luta contra a imigração ilegal ficou também marcada pelas operações do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos EUA (ICE, na sigla em inglês) nas ruas de várias cidades do país (nomeadamente as lideradas por democratas, como Los Angeles, Washington D.C. ou Minneapolis). Na semana passada, numa dessas operações em Minneapolis, uma mulher de 37 anos, norte-americana, acabou por ser morta a tiro no carro, num caso que reacendeu a contestação contra o ICE e a política imigratória da Administração..Alta tensão após morte de norte-americana às mãos do ICE.Partido Republicano A transformação do Partido Republicano não começou no último ano, mas no primeiro mandato. Nessa altura, Trump ainda estava dependente do aparelho do partido para poder governar e havia, à sua volta, quem lhe dissesse “não”. O Partido Republicano era o partido do comércio livre, dos “falcões” contra a Rússia, dos colarinhos-brancos. Agora é simplesmente do MAGA e o MAGA é o que Trump quiser.“O MAGA sou eu. O MAGA adora tudo o que eu faço, e eu também adoro tudo o que faço”, disse numa entrevista à NBC, sobre eventuais divisões na sua base de apoio por ter quebrado a promessa de não se envolver em conflitos e apostar na América Primeiro com a operação na Venezuela contra Nicolás Maduro. E estar agora a ameaçar intervir também no Irão.O controlo sobre o partido é total, de tal forma que os críticos de Trump (mesmo aqueles que foram dos seus maiores aliados) optam por recuar. Foi o que aconteceu com Marjorie Taylor Greene, que optou por deixar o Congresso ao fim de cinco anos, depois de ser acusada de “traição” por Trump. Em causa a decisão de apoiar os democratas na revelação dos ficheiros do pedófilo Jeffrey Epstein, contra os desejos do presidente.O futuro do partido vai depender, em primeiro lugar, do que acontecer nas intercalares de novembro. Uma perda das maiorias tanto no Congresso como no Senado podem obrigar a repensar a estratégia, diante de um presidente que continuará a querer legislar por decreto e a tentar tudo para não ser um “lame duck” (expressão usada para referir um líder em final de mandato que perde poderes). O futuro passará também pela escolha do próximo candidato presidencial, sendo que o atual vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio, são os mais bem colocados na corrida. Mas a situação pode mudar.Política ExternaO presidente alega ter acabado com oito guerras, mas em pelo menos dois casos houve um reacender do conflito e a situação na Faixa de Gaza está longe de ser um sucesso. E a guerra que dizia que ia acabar num dia, na Ucrânia, continua a matar todos os dias. Ao mesmo tempo, os militares dos EUA também bombardearam sete países no último ano e, pelo meio, Trump destruiu a ordem internacional herdada da II Guerra Mundial ameaçando, até, tirar a Gronelândia à Dinamarca, outro membro da NATO.A nova estratégia de segurança nacional, apresentada em dezembro, reitera a ideia de América Primeiro e recupera a noção da América Latina como o “quintal das traseiras” dos EUA, com a visão de recuperar o controlo do Hemisfério Ocidental (diante de uma cada vez maior presença da China ou até da Rússia). A operação militar na Venezuela é a confirmação disso.Estamos numa nova era de concorrência entre grandes potências (EUA, China, Rússia e Índia), que tentam impor a sua vontade em torno das respetivas esferas de influência. Em relação à Rússia, a estratégia deixa claro o interesse em acabar com a guerra na Ucrânia para melhorar as relações com Moscovo. Já em relação à China a ideia é “rebalançar” a relação. O foco é económico, não ideológico. E apesar de se manter a preocupação em relação a Taiwan, exige-se maior contributo de outros atores como o Japão ou a Coreia do Sul.Os europeus são apresentados na nova estratégia como fracos, nomeadamente devido às suas políticas migratórias, estagnação económica ou até censura à liberdade de expressão que representam uma ameaça existencial, questionando a sua viabilidade a longo prazo como aliados. Só os partidos “patrióticos” são motivo de otimismo. Uma análise que não agrada aos europeus, que não têm contudo forma de equilibrar Trump com a necessidade de contarem com o apoio dos EUA desde logo para ajudar na guerra da Ucrânia. “Vivemos num mundo onde se pode falar o quanto se quiser sobre gentilezas internacionais e tudo mais, mas vivemos num mundo, no mundo real, que é governado pela força, que é governado pelo poder”, resumiu o conselheiro de Segurança Nacional de Trump, Stephen Miller, numa entrevista na CNN, sobre o novo cenário global.