Se havia uma característica que unia o senador Lindsey Graham ao presidente Donald Trump era a capacidade de ambos mudarem de opinião consoante a realidade política. Essa capacidade de adaptação comprova-se na relação entre ambos. Antes de ser eleito pela primeira vez, o empresário teve no político da Carolina do Sul um dos maiores críticos dentro do Partido Republicano. Mas, uma vez na Casa Branca, Trump recebeu de Graham o seu apoio enquanto conselheiro de política externa e de segurança nacional, e foi uma voz ativa contra os processos de destituição. Em 2021, perante as tentativas de subverter o resultado das eleições por parte de Trump, Graham disse: “Tudo o que posso dizer é não contem comigo. Já chega.” Nova reviravolta aconteceu com o triunfo eleitoral do nova-iorquino em 2024: Graham voltou a ocupar lugar central na ligação da presidência com o Senado, enquanto mostrava o apoio à guerra contra o Irão. Chegou a dizer, em entrevista à NBC, que era a “estrela polar” de Trump. “Discordamos, mas ele sabe onde estou.” As cerimónias fúnebres de Graham juntaram na terça-feira Trump, Volodymyr Zelensky e Benjamin Netanyahu, todos eles líderes com quem o senador nutria boas relações. A questão, neste momento, é se o ucraniano e o israelita acompanham a flexibilidade dos norte-americanos. As visitas matinais, com 15 minutos de intervalo, ocorreram depois de o presidente dos Estados Unidos ter sinalizado uma mudança nas relações com o presidente ucraniano e com o primeiro-ministro israelita. Em relação a Zelensky, depois do desastre ocorrido em fevereiro do ano passado, na Sala Oval, muita água correu debaixo da ponte e hoje o ucraniano pode dizer que tem cartas para jogar — o seu programa de drones é o ás — e, recentemente foi caracterizado de “corajoso” por Trump. . Prova de uma mudança tectónica em curso, a influencer do movimento MAGA (Make America Great Again) Laura Loomer, até há pouco tempo uma câmara de ressonância da propaganda do Kremlin, deslocou-se a Kiev. Aos seus dois milhões de seguidores mostrou-se arrependida depois de ter tomado contacto com a realidade ucraniana, incluindo uma ida para o abrigo antiaéreo, e de uma entrevista com o próprio Zelensky, e a primeira pessoa a dar o seu aval à mesma, através da sua republicação no Truth Social, foi Trump. “A Ucrânia tem lutado pela sua própria existência contra um ditador maligno. Vejo agora a importância da vitória ucraniana contra a Rússia. Espero que Trump e o povo dos Estados Unidos deem o seu apoio”, escreveu Loomer no X. Já Netanyahu, o visitante estrangeiro mais assíduo de Trump, tem vindo a receber um tratamento de prudente distanciamento, dado o impasse da guerra no Irão e a impopularidade que o presidente enfrenta sobre este tema e as suas consequências económicas. A mais recente sondagem YouGov para a The Economist atira a rejeição a Trump para um nível máximo (60% desaprova, 35% aprova o seu desempenho). O homem com quem forjou uma aliança para acabar com a liderança iraniana e promover uma mudança de regime foi chamado de “maluco de merda” numa conversa telefónica entre ambos, no início de junho, quando Israel manteve os ataques no Líbano contra o Hezbollah, pondo em causa os avanços diplomáticos à época. No mais recente gesto de desaprovação público, Trump censurou o facto de Netanyahu ter dito, numa entrevista, que iria levar dados dos serviços de informações isrelitas sobre as mais recentes movimentações iranianas à volta da central de Natanz. “Eu sei exatamente o que se passa na Pickaxe [Picareta, nome pelo qual é conhecida a montanha Kuh-e Kolang Gaz La]", disse à Fox News. Menorizou a questão e atirou: “O Bibi está-me a dizer isso porque quer que eu continue envolvido. Por que é que tem de anunciar isso ao mundo?”, questionou..Zelensky havia anunciado que iria também levar informações sobre a cooperação russa com o Irão, em especial as imagens de satélite que terão permitido ataques cirúrgicos dos Guardas da Revolução às bases americanas na região. No entanto, Trump não criticou publicamente o líder ucraniano por falar em público sobre a questão. No final de ambas as reuniões, à porta fechada e sem conferência de imprensa, a porta-voz da Casa Branca Karoline Leavitt classificou-as de “positivas e produtivas”. Também nessa linha se manifestou Zelensky, ao dizer no X terem discutido “as licenças para a produção de intercetores Patriot e várias outras ideias que poderão ser úteis”. Acrescentou: “Também falámos sobre diplomacia — é importante que o processo diplomático seja revitalizado. As nossas equipas irão organizar os pormenores das futuras comunicações.” Estes temas já faziam parte da agenda. Publicamente, não mencionou o impulso que espera de Trump para que o Senado aprove o quanto antes a lei Lindsey Graham de novas sanções económicas à Rússia. Uma fonte descreveu à Sky News a reunião como “muito prática”, com os dois líderes a discutirem “esforços diplomáticos renovados”. A fonte, um alto funcionário ucraniano, disse que Kiev espera agora que os enviados especiais de Trump, o genro Jared Kushner e o amigo Steve Witkoff se desloquem em breve à Ucrânia em sinal de apoio.Já Netanyahu, que antes de entrar na Casa Branca disse que iria ouvir as ideias de Trump sobre o Irão, mostrou-se entusiástico ao dizer, numa mensagem vídeo, que o encontro com Trump foi “excelente” e “refletiu uma parceria completa, apoio bilateral e uma compreensão do objetivo comum de garantir que o Irão não adquira uma arma nuclear”, disse. Não houve, porém, qualquer menção às negociações para o fim da guerra com o Irão, nem aos dossiês do Líbano e de Gaza num momento em que os EUA pausaram os ataques, mas o Irão e os seus aliados no Iémen, os houthis, prosseguem contra os países vizinhos. E Teerão mantém a retórica de desafio aos norte-americanos.Melania e Barron ameaçadosA mulher e o filho mais novo de Donald Trump foram visados num vídeo partilhado pela agência noticiosa Tasnim, associada aos Guardas da Revolução. O vídeo, intitulado “Onde matar Melania”, mostra a comitiva automóvel da primeira-dama em Nova Iorque e apela aos “combatentes da liberdade” para agirem. Ao seu filho de 20 anos, deixa a mensagem: “Barron Trump, espera por nós!”. À Newsweek, Nate Herring, porta-voz do Serviço Secreto, confirmou que a agência responsável pela segurança das mais altas individualidades dos EUA está a investigar o vídeo. Não é novidade que o regime de Teerão ameace Donald Trump. Em 2024, um cidadão paquistanês foi detido nos EUA por tentar aliciar quem assassinasse, em nome dos Guardas da Revolução, o então candidato presidencial, e também Joe Biden, à época presidente. Mais recentemente, durante os vários dias de cerimónias fúnebres de Ali Khamenei, a cor usada pelas multidões, além do preto, foi o vermelho, simbolizando a vingança pela liquidação do guia supremo. Cartazes apelavam para a morte de Trump, tal como recentes murais em Teerão mostram o presidente norte-americano num caixão, a afogar-se, ou a ser estrangulado, este último com a mensagem em inglês: “A vingança é inevitável.” Perante as ameaças, escreveu na sua rede social que tinha dado instruções às forças armadas para de pronto “dizimarem por completo e destruírem todas as áreas do Irão”, caso fosse alvo de uma tentativa de homicídio. E na cimeira da NATO, em Ancara, disse ser o “alvo número um” do Irão, tendo chamado à liderança de Teerão de “escumalha”. Secretário do Exército rendido aos dronesO que levou a administração Trump a mudar de rumo quanto à guerra na Ucrânia? Há quem creia que Trump terá, por fim, sentido estar a ser usado pelo Kremlin. Há quem, como Zelensky, acredite no investimento da reconstrução de uma relação pessoal, em particular desde o encontro à margem do funeral do papa Francisco. E agora há quem aponte para o secretário do Exército. Dan Driscoll, que já assumiu o papel de mediador da guerra na Ucrânia, e tratado por Trump como “o tipo dos drones”, terá ficado surpreendido com o sistema operativo integrado dos drones ucranianos, muito mais avançado do que o dos EUA. Segundo disseram fontes ao Telegraph, Driscoll mudou de atitude face a Kiev e quer importar a sua tecnologia. .Ucrânia e Irão, as guerras sobrepostas em análise na Casa Branca com Zelensky e Netanyahu