Diplomacia procura solução, mas rockets e mísseis não param de cair em Israel e Gaza

Guterres apelou ao fim imediato da violência numa reunião extraordinária do Conselho de Segurança, onde palestinianos denunciaram "crimes de guerra" e Israel acusou o Hamas de ter "premeditado" a situação para obter ganhos políticos.

A pressão internacional para acabar com o conflito entre Israel e os militantes do Hamas está a aumentar, com o Conselho de Segurança das Nações Unidas a realizar este domingo a sua primeira reunião à porta aberta sobre o tema e os chefes da diplomacia da União Europeia a prever discutir o tema amanhã. Mas a solução diplomática tarda em chegar enquanto aumenta o número de mortos dos bombardeamentos israelitas na Faixa de Gaza e os rockets do Hamas continuam a cair em Israel.

Na abertura de uma reunião extraordinária do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre o conflito, o secretário-geral, António Guterres, alertou para o risco de a violência ficar "descontrolada" e desencadear uma crise em todo o Médio Oriente. "Os combates têm que acabar, têm que acabar imediatamente", defendeu o português. "Este ciclo sem sentido de derramamento de sangue, de terror e de destruição tem que acabar imediatamente", reiterou.

Guterres avisou que a violência tem o potencial de desencadear uma crise de segurança e humanitária impossível de conter e fomentar ainda mais o extremismo, não só nos territórios palestinianos ocupados e em Israel, mas na região como um todo".

O secretário-geral da ONU mostrou-se "chocado com o cada vez maior número de vítimas civis palestinianas, incluindo muitas mulheres e crianças, dos ataques israelita a Gaza", dizendo deplorar também "as vítimas israelitas dos rockets" lançados pelo Hamas.

Só neste domingo, mais 42 pessoas morreram (incluindo dez crianças) no território palestiniano, elevando para 192 o número de vítimas na Faixa de Gaza desde o início dos bombardeamentos, há uma semana. Israel alega que atacou o sistema de túneis do Hamas, mas que o seu colapso acabou por causar o desmoronamento das casas que estavam por cima, dizendo que tal não foi intencional.

Do lado israelita, o número de mortos mantém-se nos dez. O sistema de defesa israelita (Iron Dome) tem conseguido intercetar a grande maioria dos rockets palestinianos - já terão sido lançados mais de três mil desde o início da violência -, mas alguns conseguem atingir os alvos, nomeadamente nas cidades de Ashdod, Ashkelon (onde uma sinagoga foi atingida) e Beersheba, no sul.

Os EUA, que têm um enviado no terreno, o subsecretário de Estado para os assuntos de Israel e da Palestina Hady Amr, bloqueou por ocasião das duas anteriores reuniões do Conselho de Segurança, ambas à porta fechada, uma resolução conjunta. A China, que preside ao organismo, lamentou a "obstrução" de Washington, que alega estar a empreender ações diretas junto de ambos os lados. A reunião de ontem voltou a terminar sem uma posição comum.

No sábado, o presidente dos EUA, Joe Biden, falou ao telefone com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e depois com o líder da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas, que controla a Cisjordânia, mas não Gaza, nas mãos do Hamas. Foi o primeiro contacto de Biden com Abbas desde que chegou à Casa Branca. Apesar de apoiar o direito de Israel de se defender dos rockets, o presidente norte-americano apelou a Israel para que protegesse os civis.

"Crimes de guerra"

Na sessão virtual do Conselho de Segurança da ONU, o chefe da diplomacia palestiniano, Riyad al-Maliki, acusou Israel de "crimes de guerra" e "crimes contra a humanidade". E reiterou que o governo israelita está a seguir uma política de "apartheid"(segregação racial) contra os palestinianos. "Atuem agora para acabar a agressão. Atuem agora para que a liberdade possa prevalecer, não o apartheid", referiu. "Israel diz sempre, ponham-se nos nossos sapatos. Mas Israel não está a usar sapatos, está a usar botas militares", concluiu.

O embaixador de Israel na ONU, Gilad Erdan, acusou o Hamas de ter "premeditado" a violência para conquistar poder político, depois de Abbas ter cancelado as eleições. E acusou o grupo de procurar propositadamente matar civis. "O Hamas tem como alvo os civis, Israel tem como alvo os terroristas", afirmou, alegando que fazem "todo o esforço para evitar vítimas civis", quando o Hamas "faz todo o esforço para aumentar" essas vítimas.

Operação longe do fim

O primeiro-ministro israelita alertou na televisão que a operação militar contra o Hamas vai continuar "com força total" e ainda demorará tempo a acabar. Netanyahu afirmou que Israel quer que o Hamas "pague um preço elevado" e argumentou que o objetivo é "devolver paz, segurança e dissuasão" após quase uma semana de combates.

Apesar dos argumentos do embaixador israelita na ONU de que o grupo islamita espera conquistar poder político com estes ataques, o próprio Netanyahu pode sair a ganhar. Tudo porque Naftali Bennett, líder do partido Yamina, abandonou os esforços de negociar uma coligação anti-Netanyahu com o partido de centro Yesh Atid, de Yair Lapid, e com a esquerda, sendo que precisava também do apoio dos partidos árabes no Knesset para ter maioria. Faltam menos de três semanas para o fim do prazo para formar governo, pelo que Israel pode acabar por ir para as quintas eleições em dois anos.

Ataque em Jerusalém

Sete membros das forças de segurança israelitas ficaram feridos na tarde de domingo, em Jerusalém Oriental, depois de terem sido atropelados num checkpoint. A polícia israelita disse ter "neutralizado" o condutor do veículo, confirmando mais tarde que o indivíduo estava morto. Além da frente de ataque em Gaza, Israel tem tido que lidar com confrontos na Cisjordânia e Jerusalém Oriental ocupadas, além de dentro do próprio território existirem confrontos entre extremistas judeus e árabes israelitas.

O exército israelita indicou entretanto que destruiu a casa do líder político do Hamas em Gaza, Yahya Sinwar (que passou 20 anos preso numa prisão israelita até ser libertado numa troca de presos há uma década), e a do seu irmão, Muammad Sinwar, responsável pela logística do grupo. Mas aparentemente nenhum deles terá morrido. "Ambas as residências serviam como infraestruturas militares para a organização terrorista", indicaram os militares.

susana.f.salvador@dn.pt

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