Se não fosse uma tragédia para incontáveis milhares de pessoas — e uma dor de cabeça para o resto do mundo —, o conflito dos Estados Unidos e do Irão podia ser comparado com a comédia O Feitiço do Tempo (Groundhog Day), na qual o protagonista está condenado a reviver o mesmo dia enquanto não mudar de atitude. Uma vez mais, o presidente dos Estados Unidos viveu o seu dia da marmota: ameaçou “atacar com força” o Irão e repetiu a ideia de tomar a estratégica ilha de Kharg. Em resposta, Teerão também levantou a voz e advertiu para o pântano que Donald Trump iria criar em todo o Médio Oriente. Horas depois, o norte-americano anunciou a suspensão do ataque, desta vez alegando que o guia supremo teria aprovado um acordo. Ao que, como tem sido recorrente, o regime iraniano desmentiu de imediato as afirmações provenientes da Casa Branca. Mas, pouco depois, a agência iraniana Fars avançou que os EUA concordaram com uma proposta de acordo proposta por Teerão, o que abriria portas a um entendimento. A quinta-feira começou com ataques de parte a parte, pelo segundo dia consecutivo, e acabou com o anúncio da suspensão de um ataque que iria decorrer durante a noite. Segundo Donald Trump, em mensagem publicada na sua rede social, “as discussões e os pontos finais foram aprovados, tanto em conceito como em grande pormenor, por todas as partes envolvidas, incluindo os Estados Unidos, Israel, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Turquia, Paquistão, Bahrein, Koweit, Jordânia, Egito e outros”, bem como pelo “mais alto nível da liderança iraniana”, razão pela qual cancelou o ataque programado..Trump lança novos ataques após ameaçar Irão que iria "pagar" por demorar a negociar. Teerão retalia contra alvos dos EUA na região.Que acordo? As notícias são desencontradas. Num primeiro momento, a agência noticiosa iraniana Fars desmentiu o anúncio de Trump. “Texto algum para o memorando de entendimento inicial com os Estados Unidos foi aprovado”, disse à agência uma fonte “próxima da equipa de negociação da República Islâmica do Irão”. A agência Tasnim foi mais longe: “Enquanto a República Islâmica não anunciar um possível acordo, qualquer declaração de Trump sobre o assunto deve ser vista à luz das suas mensagens anteriores.” Mas não muito depois surgiu uma nova versão: segundo a Fars, os EUA aceitaram um acordo proposto pelo Irão. A proposta estaria em cima da mesa há duas semanas, mas Donald Trump queria acrescentar novas condições, segundo a versão iraniana. A mesma disse que Teerão rejeitou as condições adicionais e, na quarta-feira, mediadores do Qatar intervieram, informando o Irão de que os EUA tinham retirado essas condições “Ao mesmo tempo que se deu este notório recuo dos EUA, Trump lançou uma campanha mediática e uma retórica ameaçadora para tentar insinuar que o Irão tinha cedido perante a pressão dos bombardeamentos. Claro, parece que, dado que os EUA aceitaram o texto proposto pelo Irão, existe a possibilidade de se reexaminar este texto”, publicou a Fars. Ou seja, há a possibilidade de o regime iraniano vir a aprovar um documento que será o seu. Segundo o site Axios, funcionários iranianos informaram alguns governos da região na quinta-feira de que as conversações em Teerão tinham produzido um acordo de princípio com os Estados Unidos, embora careça da aprovação final do guia supremo Mojtaba Khamenei. Negociadores do Qatar e do Irão concordaram com o texto de um acordo proposto na quarta-feira à noite.Segundo a CNN, o Irão enviara a sua mais recente proposta para os EUA no início desta semana e não há duas semanas. Apesar da troca de ataques verbais e de fogo, as duas partes mantiveram contacto com os negociadores. Fontes da administração norte-americana acreditam que as reuniões que decorreram esta semana em Teerão entre diplomatas iranianos e catarianos ajudaram a resolver alguns dos pontos pendentes nas negociações indiretas. Em especial, destacam a questão do alívio das sanções e o quadro para o futuro diálogo sobre o programa nuclear do Irão. Ambos os temas foram objeto de mensagens dos EUA na quinta-feira. Sobre as sanções, o secretário do Tesouro Scott Bessent advertiu que o seu país irá canalizar os fundos iranianos congelados para fazer face a compensações pelos estragos provocados com os seus ataques no Golfo Pérsico. “Qualquer dano que cause aos nossos aliados no Golfo será pago com fundos retirados das contas iranianas. Qualquer portagem paga à Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico será compensada com fundos retirados das suas contas”, afirmou. “O regime iraniano vai perder o jogo de soma zero que está a jogar”, concluiu. O regime teocrático xiita exigiu como condição para qualquer possibilidade de acordo com os Estados Unidos que Washington liberte os fundos congelados pelas sanções norte-americanas, que o Irão avalia em 24 mil milhões de dólares (cerca de 20 mil milhões de euros).A outra questão, o programa nuclear, foi abordada por Trump. Ao falar sobre o assunto da Sala Oval, disse estar-se perante um “memorando de entendimento muito forte”, com o Irão a comprometer-se a abdicar de capacidades nucleares e, em troca, os EUA terminam o bloqueio naval. Disse ainda que o acordo pode vir a ser assinado nos próximos dias, na Europa, pelo vice-presidente J.D. Vance.Em Israel, a mensagem de Trump também foi desmentida numa primeira hora. Quer o Canal 12 israelita, quer a CNN citaram funcionários israelitas, segundo os quais o governo não tinha sido informado de qualquer acordo finalizado entre Washington e Teerão, muito menos de qualquer aprovação israelita para tal acordo. Depois, o gabinete de Benjamin Netanyahu informou que Trump falou com Netanyahu no início da noite sobre o “memorando de entendimento emergente com o Irão” para iniciar negociações. “Embora Israel não seja parte do memorando de entendimento, o primeiro-ministro expressou a sua apreciação pelo compromisso do presidente Trump de que o acordo final, ao término das negociações, incluirá a remoção de material enriquecido, o desmantelamento da infraestrutura de enriquecimento [de urânio], a limitação da produção de mísseis e a cessação do apoio do Irão aos seus grupos terroristas na região”, afirmou o gabinete no X.Parceria com artes marciaisEnquanto os Estados Unidos estarão num momento crítico para tentar pôr ponto final à guerra com o Irão, o seu chefe da diplomacia assinou um acordo de cooperação com o presidente da organização de artes marciais mistas Ultimate Fighting Championship (UFC). O intuito é promover treino de combate, estilos de vida e alimentação saudáveis, trabalho de equipa e liderança entre os jovens de todo o mundo. O acordo foi assinado por Marco Rubio e pelo empresário Dana White três dias antes de a UFC realizar uma luta numa jaula na Casa Branca como forma de comemorar o 80.º aniversário de Trump, bem como a celebração dos 250 anos de independência dos EUA.Inflação expõe Trump Questionado sobre o facto de o índice de preços no consumidor ter subido em maio 4,2% em relação a igual período do ano anterior, o presidente dos EUA respondeu: “Sabem o que eu realmente adoro? Adoro a inflação.” Durante a campanha eleitoral, Trump prometeu combater o aumento do custo de vida, mas agora a inflação atingiu o ponto mais alto desde abril de 2023. Sendo esta a principal preocupação dos norte-americanos, segundo os estudos de opinião, o Partido Democrata aproveitou para lançar uma campanha nas redes sociais com o vídeo de Trump e a frase “Todos os norte-americanos devem ver isto”. .Warsh sucede a Powell na Fed e terá de enfrentar Trump com inflação a acelerar .Neste cenário, o novo presidente da Reserva Federal, Kevin Warsh, não terá condições para baixar as taxas de juro na reunião da próxima semana do banco central. Durante meses, Trump manteve um conflito com o anterior líder, Jerome Powell, para que este cedesse às suas exigências. Mas a Reserva Federal tem como meta de longo prazo uma taxa de inflação não superior a 2%, pelo que as taxas de juro poderão vir a aumentar ainda neste ano.