Em julho de 2024, o Reform UK fez história ao conseguir 4,1 milhões de votos e eleger os primeiros cinco deputados - entre eles o líder, Nigel Farage, que concorria pela oitava vez. Mas, 18 meses depois, o partido populista de extrema-direita já tem oito deputados no Parlamento britânico. Até perdeu dois, em divisões internas, mas ganhou outro numas eleições intercalares, em plena subida nas sondagens que o colocam em primeiro lugar nas intenções de voto, e conquistou mais quatro (três só no último mês) graças às deserções do Partido Conservador. E pode não ficar por aí.A ex-ministra do Interior de Liz Truss e Rishi Sunak, Suella Braverman, foi a última a dar o salto, na segunda-feira (26 de janeiro). Onze dias antes, o pontapé de saída nesta sangria tinha sido dado por Robert Jenrick, antigo ministro da Habitação e Governo Local de Boris Johnson e secretário de Estado da Imigração de Sunak, que atualmente era ministro-sombra da Justiça. Pelo meio também saiu Andrew Rosindell, que tinha a pasta dos Negócios Estrangeiros no governo-sombra. E em setembro, Danny Krugger, que tinha a cargo a oposição na área do Trabalho e Pensões, tinha sido o primeiro a desertar.Braverman e Jenrick têm ainda em comum o facto de terem sido candidatos à liderança do partido, representando ambos a ala mais à direita. E serem uma eventual ameaça para a atual líder dos conservadores, Kemi Badenoch, que está a lutar para tentar que o partido não se afunde mais nas sondagens - após 14 anos no poder..Farage galga a onda da imigração e deixa trabalhistas britânicos em mínimos.Badenoch antecipou-se à saída de Jenrick, expulsando-o quando descobriu que planeava desertar - o que acabou por se confirmar horas depois, numa cerimónia caótica organizada à pressa. Jenrick alegou que o partido estava “quebrado” e “incapaz de se reformar” para justificar a sua decisão. Depois da partida de Braverman, que alegou que “já não podia confiar” nos conservadores, Badenoch veio a público tentar desvalorizar esta sangria de deputados.A líder alegou que os Tories são “o partido das pessoas sérias” e não das “rainhas do drama”, acusando os que desertaram de “não apresentarem um plano” para o país.“Lamento que não tenham ganho a disputa pela liderança. Lamento que não tenham conseguido um cargo no gabinete-sombra. Lamento que não tenham entrado para a Câmara dos Lordes”, disse Badenoch (esta última referência será para Jenrick, que negou ter ficado chateado por não ter sido nomeado). O problema para a líder dos conservadores é que a sangria - que inclui ainda mais duas dezenas de outros antigos deputados ou até ministros, como o ex-titular da pasta das Finanças Nadhim Zahawi - pode não ter parado. Sendo que isso também é um problema para Farage, que veio a público rejeitar a ideia de que o Reform UK se está a transformar num “Partido Conservador 2.0” - até diz que haverá uma figura de topo do Labour, que vai desertar em breve. Os críticos aproveitam para argumentar que votar no Reform não é mudar nada, é apostar nos mesmos de sempre.Farage também quer evitar transformar-se no partido dos restos, tendo estabelecido um prazo final para as deserções: 7 de maio, data das eleições locais em Inglaterra, além das eleições para o Parlamento da Escócia e do País de Gales. “Qualquer deputado conservador que ainda se agarre à esperança de que o seu partido possa recuperar e espere até 8 de maio para tentar abandonar o barco que está a afundar não compreende a rapidez com que as coisas estão a mudar no país”, escreveu no Daily Telegraph.“Tentar usar o Reform como um bote salva-vidas para salvar a própria pele política não vai resultar. Não temos interesse em resgatar os fracassados políticos.”O prazo está a contar. Entretanto, o Reform UK vai subindo nas sondagens. A última do YouGov, dos dias 25 e 26, coloca o partido de Farage na liderança com 25% das intenções de voto (nas eleições de 2024 teve 14,3% e foi o terceiro mais votado a nível nacional, ficando em segundo em 90 círculos eleitorais). É mais quatro pontos percentuais que o Labour (21%), do primeiro-ministro Keir Starmer, que subiu dois pontos numa semana e está a recuperar terreno. Os conservadores são terceiros, com 17%.